Policiais baianos criticam UPP de Jaques Wagner

PMs que atuam na ocupação de favela dizem dormir no chão e receber comida estragada. Governo da Bahia rebate críticas

Thiago Guimarães, iG Bahia |

Policiais militares que atuam na ocupação da favela do Calabar, em Salvador, etapa prévia à implantação de uma base comunitária de segurança na área, afirmam que estão trabalhando sob más condições no local e dizem que há exploração política da iniciativa pelo governo Jaques Wagner (PT).

Policiais do Batalhão de Choque, que trabalham em regime de 12 horas no local, dizem que recebem comida estragada, dormem no chão e que o governo busca omitir confrontos que ainda ocorrem com traficantes na favela.

“É certeza: o tráfico continua acontecendo e ficamos engessados, porque é uma operação totalmente política. Não querem que a gente vá atrás desses casos, porque estão se vangloriando que a ocupação ocorreu sem um tiro”, afirmou nesta segunda-feira (18) ao iG um policial que pediu para não ser identificado.

Divulgação
Interior da base da polícia na favela do Calabar, em Salvador

O governo da Bahia e a PM rebatem as denúncias. Afirmam que as instalações no local são provisórias, que não houve reclamações formais sobre alimentação e que o turno de 12 horas de trabalho não prevê descanso. Também negaram que haja omissão em relação à divulgação de confrontos na favela.

A vitrine

A base comunitária de segurança, a chamada UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) baiana, é a principal aposta da gestão Jaques Wagner (PT) para reverter o aumento da violência em Salvador e na Bahia. Diante do desgaste político causado pela criminalidade, o governo baiano trocou a cúpula da segurança pública em 2011 e reforçou a divulgação de ações no setor.

O “laboratório” escolhido para a primeira base é a favela do Calabar, área de 20 mil habitantes cercada por bairros nobres e dominada até então por traficantes rivais. No último dia 29 de março, policiais civis e militares ocuparam a favela como preparação para a instalação da base, prevista para o final deste mês.

No último dia 12, um e-mail encaminhado à Aspra (Associação dos Policiais Militares e Bombeiros da Bahia) por policiais sediados no Calabar apontou “condições subumanas” de trabalho no local.

“O almoço todos os dias chega azedo, o pessoal do (turno) noturno não tem refeição a não ser as sobras azedas do almoço, sem contar as péssimas instalações em que ficamos. Só tem cadeiras de escola para sentarmos durante o descanso, o pessoal da noite dorme no chão, em cima de papelão. [...]Lixo e entulho por todos os lados, poeira”, diz trecho do e-mail.

A mensagem diz ainda que “enquanto isso o governador, secretario da SSP (secretaria da Segurança Pública), cmt geral (comandante geral da PM) e cmt do choque (comandante do Batalhão de Choque) só se promovendo, e a sociedade e a mídia sem conhecimento do absurdo que está acontecendo conosco”.

O presidente da Aspra, soldado Marco Prisco, disse que os PMs estão “sofrendo” no local e afirmou ter encaminhado as denúncias ao Ministério Público.

Nesta segunda (18), um policial que trabalha no Calabar disse que a qualidade da alimentação fornecida aos PMs melhorou desde a semana passada, após a divulgação das denúncias pela Aspra. Disse, contudo, que as condições de descanso continuam ruins e que a aproximação com a comunidade ainda é difícil.

“A população de lá é muito ligada ao tráfico. Olham para a gente com cara feia, porque eles tinham apoio dos traficantes, que estão manipulando as pessoas contra a gente”, afirmou.

Segundo o policial, as “poucas pessoas” que chegam para falar com os PMs relatam que o tráfico de drogas continua ativo no local, embora não como antes. “Ficamos fixos em três pontos e a droga sai por outros becos. Não temos como abordar todos que entram e saem”, disse.

O policial relatou ainda um caso de tiroteio na última sexta-feira (15) com um homem que fugiu após reagir à chegada de uma guarnição da PM. “O comandante ligou para saber se o bandido estava baleado, não perguntou se tinha policial ferido. A primeira preocupação deles é que venha à tona que o local não está pacificado. Não está pacificado, está ocupado”, afirmou.

Outro lado

O secretário de Comunicação da Bahia, Robinson Almeida, afirmou que as críticas dos policiais têm como alvo “algo que não existe”, pois a base de segurança só será instalada por volta do final de abril. Sobre as queixas em relação à alimentação fornecida no local, afirmou que “não há nenhum registro de problema”.

O diretor-adjunto de Comunicação Social da PM baiana, tenente-coronel Sérgio Baqueiro, afirmou que a tropa que ocupa o Calabar trabalha em escala de serviço de 12 horas, que não prevê folga para dormir. “A finalidade não é dormir, é policiar. Quem falou isso [reclamação sobre alojamentos para descanso] desconhece o processo. Policiais que têm alojamento para dormir são aqueles que trabalham em regime de 24 horas.“

Sobre as instalações provisórias da base, Baqueiro afirmou que refletem as próprias carências do bairro. “A realidade é que temos que nos adaptar ao terreno”, disse. Ele afirmou ainda que não há o clima de insatisfação relatado por policiais ouvidos pela reportagem. Também negou orientação para que confrontos no local não sejam divulgados. “A tropa que está lá é de choque, foi treinada para fazer esse tipo de ocupação. A própria comunidade está se relacionando muito bem com a tropa de choque. Depois virá a tropa que fez treinamento [em policiamento comunitário] para esse tipo de operação e o relacionamento ficará melhor ainda”, afirmou.

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