No interior da Bahia, cidades tentam barrar caminhões com urânio

Moradores de Caetité impediram entrada de material na cidade. Caminhões foram para a cidade vizinha, que também protesta

Thiago Guimarães, iG Bahia |

Reprodução Google Maps
Guanambi fica a 689 km de Salvador e ao lado de Caetité, a única cidade brasileira com minas de urânio
Moradores de Guanambi (689 km de Salvador) protestaram na tarde de quinta-feira (19) contra a presença, na cidade, de um carregamento de urânio da estatal INB (Indústrias Nucleares do Brasil).

Após uma série de negociações, o impasse  foi resolvido na madrugada desta sexta. Até então, nove carretas com 90 toneladas de urânio permaneceram estacionadas a céu aberto desde domingo (15) no batalhão da Polícia Militar do município. Liberada, a carga foi para a cidade vizinha de Caetité, onde também houve negociações porque a população havia barrado, na quarta, a entrada do urânio na cidade. 

Caetité é a única cidade brasileira com minas de urânio. Desde 1999, a INB produz no local parte do urânio utilizado nas usinas nucleares de Angra 1 e 2. Como o Brasil ainda não domina comercialmente o processo de enriquecimento de urânio, necessário à produção do combustível nuclear, o minério é enviado para enriquecimento no exterior.

Os moradores impediram a entrada da carga por acreditar que fosse de resíduos nucleares, ou “lixo radiativo”, o que a INB nega. Cerca de 3.000 moradores bloquearam a passagem das carretas, que tiveram que seguir para a cidade vizinha.

Ocorre que Guanambi também não quer a carga. O prefeito Charles Fernandes (PP), que participou do protesto desta quinta (19), enviou ofício à INB pedindo a retirada.

A INB informou que o material é urânio concentrado, de baixa radiatividade. O carregamento, segundo a estatal, foi disponibilizado pela Marinha, já que a produção da mina de Caetité caiu em 2010. O minério saiu de São Paulo para ser reembalado em Caetité, onde esses procedimentos já são realizados, para posterior envio à Europa para enriquecimento.

Esse foi o estopim de um processo que começou em 2008, quando foi apontada contaminação por urânio de uma mina de água em Caetité que chegou a ser fechada. Já existia uma situação de desconfiança da população e de falta de transparência da INB”, disse ao iG Pedro Torres, do Greenpeace Brasil


Independentemente da periculosidade da carga, uma crise em torno da presença do material se instalou. O presidente da INB e técnicos da Cnen (Comissão Nacional de Energia Nuclear), responsável pela fiscalização do setor no País, tiveram que se deslocar à região para negociar a liberação do carregamento. Membros do Greenpeace também estão na cidade e classificam o episódio como exemplo do “desgoverno do programa nuclear brasileiro”. O Ministério Público Federal abriu inquérito nesta quinta para investigar possíveis irregularidades no transporte do urânio.

“Esse foi o estopim de um processo que começou em 2008, quando foi apontada contaminação por urânio de uma mina de água em Caetité que chegou a ser fechada. Já existia uma situação de desconfiança da população e de falta de transparência da INB”, disse ao iG Pedro Torres, do Greenpeace Brasil.

Para Torres, os ânimos estão “acirrados” na cidade. O Greenpeace divulgou informação de que o padre Osvaldino Barbosa, um dos organizadores do protesto de domingo em Caetité, sofreu ameaças de morte. A reportagem não conseguiu contato com o religioso.

A CPT (Comissão Pastoral da Terra) diz ter promovido uma medição nas imediações das carretas estacionadas em Guanambi e que o nível de radiatividade apontado foi alto. A INB descarta perigo.

A estatal afirma que, por questões de segurança, o transporte desse tipo de carga só é informado previamente a órgãos como comandos militares e secretarias de segurança. Nega que o transporte estivesse sendo feito sem licença.

“Nós estamos aqui para demonstrar que o produto que transportamos é o mesmo que produzimos em nossa unidade e que a INB tem competência e experiência para realizar o processo de reembalagem desse material, porque este é um trabalho de rotina que fazemos aqui na mina”, disse, em nota, o presidente da estatal, Alfredo Tranjan Filho.

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