Musa, delegada será madrinha da parada gay na Bahia

"Gays, travestis e lésbicas têm “verdadeira adoração” pela policial", diz ativista, que justifica escolha citando defesa de homossexuais por Patrícia Nuno

Thiago Guimarães, iG Bahia |

Thiago Guimarães/iG
A delegada Patrícia Nuno, de Salvador: “Ela é meio ‘traveca’. As gostosonas têm um apelo sexual considerável, muito associado à cultura trans", diz ativista
Uma delegada de 40 anos será madrinha da 10ª edição da Parada Gay da Bahia, no próximo dia 11 de setembro, em Salvador. Conhecida como “delegata”, Patrícia Nuno se diz feliz com o convite do GGB (Grupo Gay da Bahia), organizador do evento. “Já era simpatizante, mas nunca tive nenhuma experiência homossexual. Gosto quando já vem com o acessório natural”, diz.

A atuação da delegada na apuração de crimes contra homossexuais motivou o convite, conta o coordenador do GGB, Marcelo Cerqueira. A Bahia, segundo a ONG, lidera o ranking dos homicídios contra gays, travestis e lésbicas praticados no Brasil em 2010 – 29 casos, 11% do total de 260 ocorrências.

Já era simpatizante, mas nunca tive nenhuma experiência homossexual. Gosto quando já vem com o acessório natural”, conta delegada

Mas o ativista acrescenta outro motivo: “Ela é meio ‘traveca’. As gostosonas têm um apelo sexual considerável, muito associado à cultura trans. E os gays, travestis e lésbicas daqui têm verdadeira adoração pela delegada.”

Patrícia ajuda a alimentar o culto à sua pessoa. Pede para olhar as fotos da reportagem, não hesita em posar com a pistola .40 e diz malhar de “domingo a domingo”. “Puxo peso, mas nem tanto porque estou mais coroa”, conta, três hérnias depois, a mãe de dois filhos, de 15 e de 11 anos, hoje separada.

A delegada diz ainda ter “grandes amigos homossexuais”, e não hesita na defesa do casamento gay. “É uma questão de respeito e igualdade”, afirma. Em outros temas polêmicos, contudo, é mais conservadora: diz ser contra o aborto e não ter dados suficientes para opinar sobre a descriminalização da maconha, por exemplo.

"Panteras da Bahia"

Arquivo pessoal
A delegada em um carro da polícia, durante operação
Em agosto de 2009, a delegada estourou um cassino clandestino na Graça, bairro nobre da capital baiana. Uma semana depois, veio o apelido de “delegata”, em reportagem que a incluía em seleto grupo de “panteras” da polícia baiana – dos 896 delegados da Civil no Estado, cerca de 400 são mulheres. Patrícia reclama e diz que o tom carregado de erotismo do texto lhe tirou “até noites de sono”.

O fato é que a reportagem turbinou a popularidade da policial. Um mês após a veiculação, ela assinava sua ficha de filiação ao PMDB, sigla pela qual concorreu em 2010 a uma vaga na Assembleia Legislativa. Obteve 6.560 votos e o posto de suplente. “Não tinha experiência nem dinheiro”, diz.

A fama também cresceu após chefiar delegacias de apelo midiático, como a da Barra, bairro nobre de Salvador, e a dos Barris, responsável pelo Pelourinho. “Sempre trabalhei muito com a imprensa”, afirma. Na Barra, onde passou seis anos, montou equipe de 12 policiais que até hoje chama de “meus meninos”.

Patrícia é filha única de uma assistente social e de um advogado. Natural de Salvador, estudou em colégio jesuíta, formou-se em direito e logo prestou concurso para a corporação. O interesse pela atividade, diz, veio do “gosto por esmiuçar os fatos”, já que não tem parentes próximos policiais.

Os 16 anos de polícia levaram recentemente a policial ao divã. “Estou na análise trabalhando para desconstruir um pouco a delegada”, afirma, citando a necessidade de dissociar a vida profissional da pessoal. Os filhos, segundo ela, admiram a atividade da mãe, mas não manifestaram interesse pela carreira na segurança pública.

Após chefiar importantes delegacias de Salvador, Patrícia atua desde abril deste ano como plantonista em Lauro de Freitas, na região metropolitana, em turnos de 24 horas de trabalho por 72 de descanso. Não associa diretamente o novo posto à militância na oposição na última eleição, mas reconhece estar na “geladeira”.

Divulgação
A delegada, durante campanha eleitoral em 2010, na oposição ao atual governo do Estado
Ela diz também que se desfiliou do PMDB e que a política não é mais sua prioridade. Isso embora já tenha, segundo ela, recebido sondagens de partidos para as eleições municipais de 2012. “Não descarto (nova candidatura), mas não é o projeto principal da minha vida hoje.” Mas o tom de campanha, crítico à gestão do governador Jaques Wagner (PT), permanece: “Os profissionais de segurança continuam com o salário baixo e sendo muito maltratados.”

Patrícia prefere falar do trabalho de ressocialização de presos que está promovendo na carceragem do DP de Lauro de Freitas, com sessões de leitura e evangelização. “A modéstia passa longe quando falo do meu trabalho”, afirma a delegada, que diz ser religiosa espírita.

Outra preocupação é o discurso que fará no dia da Parada Gay de Salvador, para o qual já começa a se aquecer nas redes sociais, com publicações antihomofobia em sua página no Facebook, um de seus hobbies prediletos. No perfil em que mantém mais de 3.600 amigos, a delegada se apresenta em frente a uma delegacia, com chapéu de cowboy e blusa de oncinha. Nesta sexta-feira (12), deixou seu recado aos seguidores: “Que tenham um agradável fim de semana. Sugestão: mergulhar na leitura, pra não se afogar na cachaça”.

Divulgação
Cartaz da Parada Gay de Salvador

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