Secretaria de Justiça quer apuração de mortes por suposto grupo de extermínio

Familiares de jovens executados na comunidade do Boiadeiro, em Salvador, atribuem o crime a grupo de extermínio formado por policiais

João Paulo Gondim - iG Bahia | - Atualizada às

João Paulo Gondim
Camisa estampada com fotos dos jovens mortos na comunidade do Boiadeiro, em Salvador

O estouro dos fogos de artifício abafou o barulho dos tiros. Eram cerca de 21h30 de 28 de agosto quando, no estádio do Barradão, aos seis minutos do segundo tempo, o atacante Willians fez o gol do Vitória na partida a contra o Grêmio Barueri e colocou o time no topo da tabela da série B. A cerca de 12 quilômetros dali, moradores da comunidade do Boiadeiro que torcem para o rubro-negro festejavam. Exceto dois, que, baleados, tombavam ao chão de um beco escuro na rua Jaime Vieira Lima.

Assim contaram ao secretário de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos da Bahia, Almiro Sena, familiares de Alex Carlos dos Santos Nascimento, 19 anos, e de Luiz Henrique Sacramento Vieira, 20. Ele esteve na comunidade, situada no bairro Plataforma, na região do subúrbio ferroviário de Salvador.

A morte dos dois amigos de infância mobilizou as secretarias de Segurança Pública, responsável pela investigação, de Justiça, de Politicas para as Mulheres e a da Promoção de Igualdade Racial.

Parentes e amigos das vítimas não têm dúvidas: os rapazes foram vítimas de um grupo de extermínio formado por policiais militares e civis. As razões, segundo as testemunhas, são que os algozes agiram com roupas e capuzes pretos. Eles desceram de um automóvel modelo Gol, de cor preta e sem placa. Atiraram na cabeça dos dois amigos que estavam de costas. Os dois foram encaminhados ao Hospital do Subúrbio, em Paripe, mas não resistiram aos ferimentos. 

Antes de se encontrar a sós com as mães dos dois amigos, Almiro Sena falou ao iG na última terça-feira. "Esses dois crimes mobilizaram muito a comunidade. Foi algo grave, dois jovens assassinados por desconhecidos, que saltam do carro e matam barbaramente. Viemos buscar apoio concreto às famílias das vítimas e a punição dos autores", afirmou o secretário de Justiça, que durante 19 anos foi promotor do Ministério Público.

De acordo com a comunidade, a PM atribuiu os assassinatos à guerra de facção de traficantes. "Isso é um absurdo. Os dois eram trabalhadores, pessoas honestas. Querem estragar a imagem deles, que, mortos, não podem se defender", afirmou um vizinho da dupla vítima de homicídio, que preferiu não se identificar.

Sena também diz ser indiferente o que causou a morte. "A minha preocupação é que a verdade apareça. É um fato: duas pessoas assassinadas é um crime bárbaro. Independentemente de quem matou", disse.

A reunião com a comunidade foi em Boiadeiro, no ginásio do Centro de Educação Desportiva e Profissionalizante (Cedep), em São Bartolomeu. Ali, de janeiro a junho deste ano, Alex fez o curso de auxiliar de pedreiro. Logo depois foi aplicar os seus conhecimentos teóricos na construtora Axxo. Contudo, queria fazer disso um ganha-pão temporário. Evangélico, queria entrar em uma faculdade de Direito.

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Almiro Sena e representes das secretarias de Políticas para as Mulheres e da Promoção de Igualdade Racial ouvem relatos de moradores

"Alex era um menino muito bom, tranquilo. Foi um choque saber do seu assassinato", afirmou Simone Custódio, diretora-geral do Cedep.

Riquinho também trabalhava no ramo da construção civil e era responsável por sustentar a família. Atualmente, participava das obras de revitalização do parque São Bartolomeu - cujo projeto gera protestos por conta das desapropriações. "Riquinho era uma ótima pessoa. Sempre alegre e disposto a nos ajudar", afirmou um amigo.

A revolta com a morte do dois amigos resultou em duas manifestações. A primeira, no último dia 29 de agosto, logo após o sepultamento no cemitério da Plataforma, na avenida Afrânio Peixoto. A outra, no dia 31, no mesmo local, resultou em embate entre moradores e policiais. Um vídeo flagrou o advogado José Raimundo dos Santos Silva levando um tapa de um policial militar. Um preposto da Superintendência dos Direitos Humanos da secretaria de Justiça da Bahia foi convocado para controlar a situação.

"Fui agredido no pleno exercício das minhas funções. Infelizmente esse acontecimento me levou a sair diretamente do caso de Alex e Riquinho. Vou denunciar à OAB o tapa que levei e o assassinato dois dois rapazes", afirmou o advogado, que também atua para a organização Quilombo X.

Coordenador dessa entidade e do movimento "Reaja ou será morta, reaja ou será morto", o escritor Hamilton Borges foi quem convidou o secretário Almiro Sena para ir a Boiadeiro.

"É importante a presença do Estado nesta primeira audiência dentro da comunidade, para protegê-la, pois ela está vulnerável. Cotidianamente os negros são alvos de violência. Existe a ideia de que nós podemos ser abatidos e nada vai acontecer. Por isso a gente luta", afirmou Borges. Ele planeja em breve fazer uma audiência com o secretário de Segurança Pública, Maurício Barbosa.

Por exatos 83 minutos, Almiro Sena ouviu queixas, desabafos e relatos de ameaças e intimidações. De acordo com moradores, toda noite um carro preto, também sem placa, ronda o local.

"Foram dois crimes absurdos contra Alex e Luiz Henrique. É uma situação gravíssima o que houve. Vamos acompanhar essa audiência com a secretaria de Segurança Pública. Formalmente vou mostrar no papel, sem dar nomes, o que ouvi nesta audiência. Também vou falar com ele pessoalmente sobre este assunto. Sobre a violência, quem quiser denunciar pode fazer isso de maneira sigilosa. Eu vou convidar o delegado desta região e o comandante da PM daqui para conversar comigo no meu gabinete", garantiu o secretário, entre outras providências de que acompanharia pessoalmente o decorrer da apuração.

A secretaria de Justiça destacou assessores para acompanhar os depoimentos de familiares das vítimas e testemunhas no Departamento e Proteção à Pessoa (DHPP), o órgão da Polícia Civil responsável pela investigação.

Procuradas, a PM e a Polícia Civil não responderam aos questionamentos sobre a suspeita da existência de grupo de extermínio. A PM também não respondeu se integrantes da corporação afirmaram que a morte dos dois jovens foi em decorrência de disputas de traficantes. A Secretaria de Segurança Pública afirmou ver com naturalidade o acompanhamento da Secretaria de Justiça na apuração dos assassinatos.

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