Família quer transformar casa de Jorge Amado em museu

Obras em casarão onde escritor morou com Zélia Gattai devem custar R$ 2,5 milhões. Nesta sexta-feira é comemorado seu centenário

João Paulo Gondim - iG Bahia | - Atualizada às

No número 33 da rua Alagoinhas, no bairro Rio Vermelho, em Salvador, está localizada uma das mais importantes casas da história da literatura brasileira. De 1964 a 2001 - ano de sua morte - morou ali o escritor Jorge Amado, cujo centenário é celebrado nesta sexta-feira (10).

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Fachada da casa onde Jorge Amado viveu com Zélia Gattai

Fechado desde 2003, quando a mulher de Amado, a escritora Zélia Gattai, que morreu cinco anos mais tarde, se mudou, o imóvel deve ser transformado em memorial. Assim planeja a família do casal, que, além da vida e do ofício, compartilhou a cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras (ABL) e o lugar onde estão depositadas as suas cinzas, sob uma mangueira no quintal.

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A ideia de transformar a casa no Memorial Jorge Amado (nome provisório do projeto), que ainda não tem prazo para ser inaugurado, era natural, segundo o filho do escritor João Jorge Amado. É algo similar ao que acontece com tantos outros artistas, como o escritor russo Léon Tolstói (1828-1910) e o também escritor inglês Charles Dickens (1812-1870), cujas residências se tornaram museus, em Moscou e Londres, respectivamente.

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Peças de decoração da casa de Jorge Amado

"São casas que permitem aos admiradores terem uma visão de como vivia esse artista, seu universo e tudo o mais. Nós temos nos empenhado muito em transformar essa casa em memorial. Infelizmente, o que nós queríamos fazer, que era tê-la funcionando ainda para que nossa mãe visse o museu, não foi possível. Mas, mesmo assim, nós mantivemos essa vontade e estamos lutando por isso até o fim", disse João Jorge.

Jorge conta que, em 2003, Zélia deu uma festa na casa. Era uma espécie de pontapé inicial para fazer do imóvel o museu. A família pediu o tombamento do imóvel. O Instituto do Patrimônio Artístico Cultual da Bahia (Ipac) iniciou o processo, que ainda está aberto. No entanto, a família não planeja mais o tombamento, pois isso impediria qualquer intervenção - o bem tombado deve preservar as suas características originais. Não seria possível, por exemplo, adaptá-lo a deficientes físicos.

"Para buscarmos enquadramento na Lei Rouanet e conseguir alguns recursos, entramos com pedido de tombamento da casa. Mas, primeiro, a Lei Rouanet não saiu; segundo, a casa, tombada, engessaria e atrapalharia todo o trabalho da reforma. A casa em si não tem valor arquitetônico que justifique o tombamento, que seria em função do valor agregado, por ter sido onde morou Jorge Amado e Zélia Gattai", afirmou.

"A lei do tombamento não distingue entre o monumento arquitetônico e o que tem valor agregado. Isso significaria que, a cada intervenção que se tivesse de fazer na casa, tivesse de passar por um trâmite burocrático muito grande", completou.

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Local onde estão enterradas as cinzas de Jorge Amado e Zélia Gattai

De acordo com Jorge, faltam mudanças de ordem museológica na construção para o memorial funcionar. Os descendentes de Jorge Amado querem dotar o lugar de cafeteria ou um pequeno restaurante. Além disso, deve haver uma loja para vender livros e objetos alusivos ao universo literário do escritor. Apesar disso, ele acredita que o memorial não vai ser autossustentável. Ele espera conseguir doações para mantê-lo.

O projeto do museu, com quase um ano, é de autoria do arquiteto português Miguel Correia, que se disse fã do escritor e foi um presente do Ministério da Cultura de Portugal. De acordo com o arquiteto, as obras devem custar R$ 2,5 milhões.

Nesta sexta-feira, houve a apresentação do vídeo com a simulação do memorial pronto. Amigos da família Amado, representantes do governo português, o governador Jaques Wagner e três dos seis candidatos a prefeito de Salvador: ACM Neto (DEM), Nélson Pelegrino (PT) e Mário Kertész (PMDB).

Durante a cerimônia, Wagner afirmou que o governo baiano "está totalmente engajado no projeto de fazer da casa de Jorge Amado um espaço aberto à visitação pública", mas não explicitou como será isso exatamente. De acordo com ele, o Estado pode contribuir financeiramente com o futuro memorial. "Não é uma obra que vá requerer um volume de recursos elevado", afirmou.

O governador destacou uma faceta pouco lembrada do escritor: a política. Eleito deputado federal em 1945, Amado participou da Assembleia Constituinte do ano seguinte, na qual formulou a Lei da Liberdade de Culto Religioso. Ele foi cassado ainda em 1946, quando sua legenda, Partido Comunista Brasileiro (PCB), foi posta na ilegalidade.

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Jorge Amado Neto explica a diferença entre o projeto do memorial e a Fundação Casa de Jorge Amado, inaugurada em 1987 no Pelourinho. A fundação, diz, mantém o acervo literário do avô, autor de "Gabriela, Cravo e Canela", "Jubiabá" e "Tenda dos Milagres", entre tantas obras. O museu vai preservar o estilo de vida de Jorge Amado e Zélia Gattai.

Imortalizado no livro "A Casa do Rio Vermelho" (1999), da própria Zélia Gattai, e no curta-metragem "Na Casa do Rio Vermelho (1974)", de David Neves e Fernando Sabino, o casarão poderá voltar a receber visitantes que se espalhavam pelos cerca de 2.000 metros quadrados de área.

Parada obrigatória de artistas e intelectuais que visitavam a Bahia, a residência recepcionou do poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973) ao comediante brasileiro Zé Trindade (1915-1990), afora uma multidão de anônimos, turistas, fãs e curiosos.

Até hoje há quem passe em frente ao imóvel e tire fotos da fachada. "Sou fã de Jorge Amado e quero muito ver esse museu pronto", afirmou o comerciante Paulo Henrique Macedo, de 27 anos, que andava próximo à casa, após a cerimônia de apresentação do projeto.

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