Aviação ficou estagnada e encareceu após acidente da TAM

BRASÍLIA - O ¿caos aéreo¿ que infernizou a vida dos usuários de aviões de setembro de 2006 a julho de 2007, e que culminou no acidente do Airbus da TAM com a morte de 199 pessoas exatamente há um ano, não serviu para que governo e empresas melhorassem a segurança, qualidade, conforto e preços desse meio de transporte. Especialistas apontam ¿ e o governo admite ¿ que nos últimos doze meses nenhuma obra de impacto foi feita em aeroportos, nenhum novo radar foi instalado e, ainda por cima, o preço das passagens das principais rotas dobrou. A única melhora foi a diminuição de atrasos e cancelamentos de vôos.

Rodrigo Ledo ¿ Último Segundo/Santafé Idéias |

Os diversos consultores ouvidos pela reportagem do Último Segundo procuraram deixar claro que o acidente da TAM no aeroporto de Congonhas, o mais grave já registrado no Brasil, não teve como fator principal os problemas de infra-estrutura (como tamanho e condições da pista, além de radares). Mas argumentam que governo e empresas deveriam ter aprendido a lição e ter investido mais após o caos aéreo, que ainda teve como lances dramáticos a queda de um Boeing da Gol em setembro de 2006, muitos atrasos e cancelamentos de vôos e até quebra-quebras em aeroportos.

O consumidor só perdeu nesse período, resumiu Roberto Peterka, consultor de empresas do setor aeroviário, e que investigou 1.300 de acidentes de aviões quando era funcionário do Departamento de Aviação Civil (DAC), predecessor dos atuais órgãos de aviação.

Ele se referiu, entre outros fatores, à falta de concorrência entre companhias ¿ já que apenas duas dominam o mercado, TAM e Gol ¿ que desestimula a busca pelo conforto e preços acessíveis. Nos últimos doze meses, houve encarecimento superior a 100% para trechos importantes como São Paulo (aeroporto de Congonhas) e Curitiba (rota cujo preço saltou 138%), Rio de Janeiro (Galeão)-Brasília, com alta de 104% e Congonhas-Porto Alegre, com 109%.  

A rota mais importante do País, a ponte aérea entre Rio de Janeiro e São Paulo (Santos Dumont-Congonhas), teve expressivo reajuste de 189%.

Na opinião de Peterka e de outros especialistas, o aspecto mais importante do sistema, a segurança, ficou sem investimentos como aquisição de novos radares e construção ou ampliação de pistas dos principais aeroportos.

Acidentes acontecem, mas é preciso aprender com os acidentes. Ninguém está dizendo que no Brasil o nível de segurança é o da África, mas tem que ser aprimorado, reclamou Gustavo Mello, professor do MBA de Gerenciamento de Risco da Universidade Federal Fluminense (UFF). Ele alerta que, como a demanda por vôos no Brasil só tende a aumentar, ainda mais na atual fase de crescimento da economia, a sobrecarga no sistema poderá gerar novos fatores de risco.

Os acidentes [na época do caos aéreo] foram fatos isolados e independentes de infra-estrutura. Mas as medidas de segurança adotadas em Congonhas, por exemplo, foram feitas com limitação da capacidade do aeroporto. Congonhas tinha 50 operações (vôos e decolagens) por hora antes do acidente da TAM e hoje tem 34. Parte dos vôos foi transferida para o aeroporto de Guarulhos, que já está saturado, e a qualidade de serviços sofreu uma degradação, reforçou Oswaldo Sansone, professor da disciplina de Aeroportos da Escola de Engenharia Mauá (SP).

Justificativas

A falta de investimentos criticada por especialistas é confirmada pela própria empresa estatal responsável pela administração dos aeroportos, a Infraero. O presidente da companhia, Sérgio Gaudenzi, há meses lamenta que o Tribunal de Contas da União (TCU) esteja segurando o projeto de algumas das obras prioritárias, como a reforma da pista principal do aeroporto de Guarulhos e, na mesma unidade, a construção do terceiro terminal. O motivo são indícios de irregularidades nas licitações e a falta de parâmetros para se chegar a um padrão de custo de construções aeroviárias (hoje é usado como referencial o padrão de obra rodoviária).

Guarulhos hoje está acima de sua capacidade, com 18 milhões de passageiros ao ano. Se crescer um pouco, não conseguirá atender a demanda. Tem que investir urgentemente, acrescentou Oswaldo Sansone. Mas os investimentos estão devagar, quase parando, conforme admitiu a própria ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, ao fazer o último balanço do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

De acordo com Dilma, entre todas as ações do PAC em infra-estrutura, as obras aeroportuárias são as mais atrasadas, pelas complicações ainda na fase de projeto e planejamento. Isso inclui um terceiro aeroporto para São Paulo, em virtude da sobrecarga em Congonhas e Guarulhos, e na ampliação do aeroporto de Viracopos, em Campinas.

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