Autoridades da França e Brasil descartam atrito por autópsias

Por Tim Hepher e Peter Murphy PARIS/SÃO PAULO (Reuters) - Peritos franceses estão participando como observadores nas autópsias realizadas no Brasil em vítimas do acidente com o avião da Air France, apesar da queixa de que um profissional francês teve acesso negado, disseram autoridades da França e do Brasil nesta quarta-feira.

Reuters |

Paul-Louis Arslanian, chefe da investigação do acidente com o avião que fazia o voo AF 447 (Rio-Paris), se declarou descontente nesta quarta pelo fato de um patologista francês não ter obtido permissão para tomar parte nas autópsias realizadas no Brasil nos corpos recuperados após a tragédia.

Autoridades brasileiras e francesas no Brasil, no entanto, afirmaram que a cooperação entre os dois países tem funcionado bem. A investigação da queda do Airbus A330, que decolou do Rio com 228 pessoas a bordo no dia 31 de maio, está a cargo da França.

"Simplesmente eu posso dizer que os patologistas têm tido acesso e sido autorizados a entrar no Instituto Médico Legal (do Recife) e acompanhar as operações. Isso foi autorizado e tem havido uma perfeita cooperação entre médicos franceses e brasileiros", disse um diplomata francês no Brasil que pediu para não ter seu nome divulgado.

"O presidente do Senado francês, Gérard Larcher, destacou a cooperação muito boa com os brasileiros e nós estamos muito impressionados com o profissionalismo dos brasileiros e a boa cooperação entre as autoridades brasileiras e francesas", afirmou.

A Secretaria de Defesa Social de Pernambuco informou que quatro peritos franceses estão credenciados para participar dos trabalhos na condição de observadores, conforme acordo entre o Itamaraty e a embaixada francesa.

"A Polícia Federal e a Secretaria de Defesa Social de Pernambuco informam que a participação de qualquer autoridade francesa nos trabalhos realizados pelo Instituto de Medicina Legal deverá ser feita pelas vias diplomáticas necessárias, isto é, junto à Embaixada Francesa e à Polícia Federal", disse um comunicado divulgado pela secretaria, acrescentando que os quatro franceses credenciados "participam dos trabalhos na condição de observadores desde o dia 10 de junho".

"Essa declaração nos pegou de surpresa", disse um assessor da secretaria, após saber da reclamação de Arslanian.

QUEIXA FRANCESA

Arslanian, chefe da agência BEA, encarregada de investigar o acidente, disse em entrevista coletiva que um patologista francês enviado ao Brasil não tinha sido autorizado a participar das autópsias dos corpos recuperados e a França não teve acesso aos resultados.

Durante a entrevista, ele se negou a falar mais sobre o assunto, mas depois foi pressionado por repórteres a dizer se estava insatisfeito com a falta de acesso do especialista francês às autópsias.

"Não estou contente. No fim, espero obter uma explicação. No momento isto é um fato e nada mais. Por favor, não tentem criar problemas entre a França e o Brasil", afirmou ele.

Mas, segundo o diplomata francês ouvido pela Reuters, "há vários legistas e alguns foram autorizados a entrar no IML, mas não foi possível a entrada de todos".

"Foi isso o que aconteceu. Um investigador da BEA não pôde entrar, mas ele pôde tomar parte da análise da fuselagem do avião. (O material) chegou ao Recife em 14 de junho e ele (o investigador) pôde participar."

CAUTELA

Embarcações brasileiras e francesas ainda estão procurando destroços e corpos do avião que caiu no oceano Atlântico.

Até o momento, 50 corpos foram resgatados em alto-mar.

Arslanian pediu cautela nas especulações quanto às causas da tragédia, mas disse que os peritos estão chegando um pouco mais perto de compreender o que aconteceu.

"Estamos chegando um pouco mais perto de nossa meta, mas não me perguntem qual é a porcentagem de esperança", disse Arslanian em uma coletiva de imprensa, enfatizando que as condições em uma área afastada da costa estão entre os maiores desafios na investigação do acidente aéreo.

Um número quase igual de passageiros brasileiros e franceses morreu na queda do Airbus A330 e os dois países se empenham em mostrar que estão fazendo o máximo que podem para recuperar corpos e compreender as causas do acidente.

Arslanian pediu que o público mostre "muita paciência" e se restrinja aos fatos em vez de se deixar levar por especulações.

A agência de investigação informou até o momento que os dados transmitidos do aparelho antes da queda indicam leitura inconsistente de velocidade pelos sensores da aeronave, mas afirmou que ainda é muito cedo para dizer se isso contribuiu para o acidente.

Para estabelecer as causas da queda, a pior na história da Air France, equipes de busca têm de recuperar as caixas-pretas com registros do voo. Mas o fundo do mar, onde se acredita que o avião tenha caído, tem terreno irregular e profundidade de até 4 mil metros, segundo investigadores.

"A meta é compreender o que aconteceu e para isso nós precisamos de ferramentas e essas ferramentas têm de ser fatos. Os registros (do vôo) são registros de fatos. Se nós os tivéssemos teríamos mais fatos à nossa disposição", disse Arslanian.

(Reportagem adicional de Fabio Murakawa, em São Paulo)

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