Aumento dos preços dos alimentos já dificulta o trabalho das agências da ONU

O aumento dos preços dos alimentos está causando os primeiros problemas logísticos para as organizações que combatem a fome no mundo, incluindo o Programa Mundial de Alimentos (PAM), da ONU.

AFP |

"Distribuímos quatro milhões de toneladas de provisões a cada ano, por isso o aumento de 55% dos preços dos alimentos desde junho de 2007 tem um enorme impacto em nossas operações", declarou à AFP a porta-voz do PAM, Christiane Berthiaume.

Metade dessa ajuda é comprada diretamente pelo Programa nos mercados regionais, enquanto a outra fica a cargo de países doadores.

Os preços dos alimentos básicos dispararam nos últimos meses, levantando uma onda de protestos em muitos países como Egito, México, Haiti, Camarões, Etiópia, Madagascar, Filipinas e Indonésia, que já deixaram várias dezenas de mortos.

O PAM alimenta 73 milhões de pessoas em 78 países, mas se depara com crescentes dificuldades para realizar sua tarefa devido não apenas à inflação galopante, como também aos maiores custos dos transportes ou à intervenção dos governos nas exportações de produtos.

"Encontrar comida se tornou algo muito difícil", disse Nicole Menage, chefe do Departamento de Compra de Produtos do PAM.

"Muitos países limitaram suas exportações na Ásia, na África e na América Latina", acrescentou.

Para o PAM o desafio consiste em encontrar um "equilíbrio" entre as provisões de comida sem comprometer a segurança alimentar nestes países.

Mas a agência da ONU também enfrenta outros problemas. Na África Ocidental, os custos operacionais aumentaram 30% devido aos altos preços do petróleo e seu impacto no transporte.

Em novembro, a diretora executiva do PAM, Josette Sheeran, alertou que essa região da África se expõe a uma "tempestade perfeita" de crise, reforçada pelas mudanças climáticas, pela inflação dos gêneros alimentícios e pelo aumento da população.

A organização pediu cerca de 500 milhões de dólares complementares (325 milhões de euros) para cobrir os custos.

Muitos dos doadores do PAM condicionam seu apoio. Por exemplo, Japão e Canadá exigem que seu dinheiro seja utilizado para a compra de produtos de seus agricultores e granjeiros, segundo Berthiaume.

Da mesma forma, a maior parte da ajuda norte-americana se baseia em comida e não em dinheiro, o que permite ao governo controlar seu excedente agrícola e manter ao mesmo tempo os subsídios, segundo Mickey Chopra, do Medical Research Council da Cidade do Cabo, na África do Sul.

Esta combinação de fatores deixa as nações em desenvolvimento em clara desvantagem.

"O excedente agrícola que os Estados Unidos dão ao PAM levou em um primeiro momento à queda dos preços dos alimentos na África e depois à falta de investimentos no setor agrícola nesses países", disse Chopra à AFP.

Com infra-estruturas em mau estado, os países africanos se vêem agora incapazes de tirar vantagem da escalada dos preços, acrescentou.

Chopra considerou que o PAM deveria invertir na produção local na África e proporcionar aos países pobres a assistência técnica necessária.

Trinta e sete países enfrentam neste momentos uma crise alimentar, advertiu na semana passada a Organização da ONU para a Agricultura e a Alimentação (FAO).

"Existe uma verdadeira urgência frente às revoltas que estão sendo registradas no mundo, como na África e no Haiti", declarou a autoridade máxima da FAO, Jacques Diouf, que pediu ao Conselho de Segurança da ONU que tome as rédeas na questão.

"Fico surpreso de que o Conselho de Segurança não tenha sido convocado", apesar de muitos dos temas abordados pelo organismo não terem tantas "conseqüências para a paz e a segurança no mundo" nem para "os direitos humanos das pessoas que precisam ser alimentadas" como a crise alimentar atual, defendeu Diouf em uma entrevista coletiva à imprensa em Roma.

Além disso, a alta dos preços dos alimentos cria o risco de que muitos pais desistam de enviar seus filhos à escola nos países pobres, advertiu nesta terça-feira o Fundo das Nações Unidas para a Infância e Adolescência (Unicef).

"O aumento dos preços dos alimentos obrigará as famílias a reduzir seu orçamento, a cortar os gastos com a educação e a tirar os filhos da escola para fazê-los trabalhar", explicou a porta-voz da Unicef em Genebra, Véronique Taveau.

O impacto da alta dos preços é particularmente forte nos países pobres, onde a comida representa até 75% do orçamento das famílias, contra 15% nos países ricos, acrescentou.

No Nepal já se constatou uma queda da assistência escolar, enfatizou, por sua vez, a porta-voz do PMA, Christiane Berthiaume.

O Nepal está particularmente ameaçado pela crise alimentar mundial porque, para sua alimentação, depende das exportações da China e da Índia, que reforçaram os controles nesse setor, explicou.

Em muitos países, a comida fornecida pela escola é muitas vezes a única refeição que as crianças têm durante o dia, mas no Camboja, por exemplo, o PMA se viu obrigado a suspender a distribuição de alimentos aos estabelecimentos de ensino porque os fornecedores locais preferem vender os alimentos por fora de contratos com a ONU, pois ganham mais assim.

ama/dm

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