¿Atuação dos estudantes na UnB fortalece movimento estudantil¿, comemora líder de ocupação

Líder da ocupação da reitoria da Universidade de Brasília (UnB), Fábio Félix acredita que os alunos que ocupam o prédio desde o dia 3 de abril deixa o local nesta sexta-feira vitoriosos.

Sarah Barros, Último Segundo/Santafé Idéias |

O motivo não seria apenas a renúncia do ex-reitor Thimoty Mulholland e sua diretoria, acusada de irregularidades no uso de recursos públicos, mas também porque mobilizações como as da UnB ajudam a juventude "a voltar a acreditar na luta como um instrumento de mudança da realidade".

Ele aponta para um novo cenário do movimento estudantil, sem o comando de entidades que, no passado, estiveram à frente de ações como essa, como a União Nacional dos Estudantes (UNE). "A sociedade muitas vezes não acredita na juventude, daí vem pessoas achando que estamos sendo manipulados ou dirigidos. O protagonismo juvenil, a luta da juventude e sua capacidade formuladora deve ser a grande lição que todos devemos tirar desta ocupação", destacou Félix em chat promovido pelo Portal iG em parceria com a Santafé Idéias.

A semelhança com as ações assumidas por estudantes durante a ditadura também são indicadas por Fábio como sinal de novo vigor na atuação da juventude nas questões políticas. "No passado os estudantes tinham um sentimento de luta mais acirrado por conta do regime autoritário, mas atualmente os estudantes voltam a se mobilizar por outras pautas como a luta contra a corrupção, por exemplo, e também questionando a política educacional de sucessivos governos", afirmou.

A disposição dos estudantes em permanecer na UnB durante 15 dias, de acordo com Fábio, demonstra que os jovens têm razões concretas para protestar. "As pessoas hoje não abrem mão do seu conforto ou de suas atividades para ficar 24h por dia em uma reitoria sem ter uma razão muito concreta para isto. A consciência do estudante era muito grande sobre o tamanho desta tarefa", ressalta.

Porém, Félix criticou a atuação de instituições representativas como a União Nacional dos Estudantes (UNE). Para ele, a entidade tentou levar o bônus da ocupação sem ter participado ativamente do movimento. "A direção majoritária da UNE apareceu no final do processo e tentou levar um bônus que não era dela", disse. Ele chamou maioria dos componentes da união de "oportunista". "A UNE perdeu sua representatividade porque começou a apoiar mais o governo do que a luta independente dos estudantes. Ela se tornou uma burocracia parlamentar", disse.

A ocupação

De acordo com o estudante de Serviço Social, a ocupação surgiu de maneira espontânea uma vez que as tentativas de diálogo com a reitoria não surtiram efeito. "Fazíamos uma série de movimentações para pressionar a última gestão da UnB, como assembléias e atos, mas não imaginávamos fazer uma ocupação de reitoria", descreveu.

Ele reconhece que foi uma medida radical, mas que a ocupação "foi uma forma do estudante se sentir ouvido". Para Félix, a maior tensão vivida pelos estudantes foi provocada por pressões da Justiça para a desocupação do prédio. Uma ordem judicial determinava a desocupação. "Também houve muita pressão da Policia Federal devido ao processo de reintegração de posse", disse.

O acordo de desocupação fechado nessa quinta-feira inclui a retirada de multa pela permanência dos estudantes apesar da ordem judicial. Em contrapartida, dentro do prédio, o clima foi bom entre os estudantes, organizados em comissões de segurança, logística, negociação e comunicação, entre outras.

A organização teria permitido a manutenção das instalações da reitoria, restando, em termos de ressarcimento, o conserto da porta da reitoria, cujo pagamento será subsidiado com recursos recolhidos nas salas de aulas pelos estudantes. "Também pedimos às autoridades que compareceram ao local para entrar no prédio e escrever cartas reiterando a preservação do patrimônio", explicou. Na desocupação, prevista para 12h desta sexta-feira, uma comitiva formada por estudantes, reitoria e imprensa fará vistoria para testificar o estado das instalações.

Atividades culturais, festas, debates e aulas beneficiavam o clima tranqüilo dentro do prédio. Porém, Fábio rebateu críticas a respeito do comportamento dos estudantes. "Ao mesmo tempo em que a ocupação foi pacífica, foi tensa. Não é tão fácil quanto possa parecer se manter ocupado em uma reitoria, enquanto todas as instituições repressivas do Estado querem te pegar", desabafou.

Futuro

Sobre o reitor interino, professor Roberto Aguiar, Fábio destacou que o movimento não deve opinar para manter "independência" e "poder de pressão" em prol das reivindicações pendentes como eleições paritárias e mudanças no estatuto da universidade. "Acredito que os estudantes devem se manter independente e pressionar com mobilização para que nossa pauta possa se concretizar, porque nós sabemos que a luta é o melhor instrumento para o movimento estudantil", argumentou.

Ele destacou ainda que Aguiar fez o compromisso de não se candidatar à reitoria permanente "para garantir o processo de transição". Fábio não teme que o movimento perca força com a desocupação. "A desocupação vai acontecer na sexta, mas a mobilização continua, e forte! Desocupamos a reitoria para ocupar toda a universidade", finalizou.

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