Ataque em campanha não é uma prerrogativa da internet, diz especialista contratado por Dilma

Os candidatos à Presidência precisam esperar até julho para dar início, oficialmente, à campanha nas ruas. Mas as discussões sobre estratégias de comunicação com os eleitores já começaram. E os estrategistas do tucano José Serra e da petista Dilma Rousseff concordam em um ponto: a internet deverá ser um dos principais destaques na eleição. Tanto que ambos já contam com equipes de peso só para cuidar da área digital a camanha.

Andréia Sadi e Adriano Ceolin, iG Brasília |

Nesta semana, o sócio fundador da empresa que cuidou das estratégias de comunicação pela internet na campanha de Barack Obama em 2008, Joe Rospars, veio ao Brasil pela primeira vez para iniciar seu trabalho com Dilma.

O estrategista admitiu que existe uma barreira a ser enfrentada pela equipe norte-americana. Apesar de o Brasil ter 65 milhões de pessoas ligadas à rede, a imensa maioria ainda acessa a internet por meio de lan houses e conexões discadas.

Em entrevista ao iG , Rospars defendeu o Twitter e outras ferramentas da rede para envolver os brasileiros nas discussões sobre a eleição. No entanto, reconheceu que é uma mídia que facilita os ataques entre grupos que apoiam candidatos. "Acho que em qualquer mídia pode existir o ataque. Não acho que isto seja uma prerrogativa da internet, mas claro que o espaço pode facilitar", disse Rospars.

Apesar disso, Rospars insiste que a internet será usada pelos presidenciáveis para a divulgação de projetos e ideias, e não para troca de ataques.

Além de Rospars, a campanha petista contará com o reforço de Scott Godstein, que também trabalhou para Obama, e Andrew Paryze, especialista em marketing digital da Blue State Digital. A ideia da coordenação é que os americanos se reúnam periodicamente com os brasileiros envolvidos na campanha de Dilma -- que ainda não conhece Rospars.

Veja os principais trechos da entrevista ao iG:

iG: A internet é uma mídia que vai ser bastante explorada nestas eleições. Tanto o candidato José Serra como a ex-ministra Dilma recrutaram profissionais para a campanha digital. O Twitter deve ser uma das principais ferramentas utilizadas. Mas é uma plataforma que produz conteúdo limitado. O senhor acha que este fato torna o debate político superficial?

Joe Rospars: Bom, o Twitter tem espaço, sim, para produzir informações. Você pode notar que fatos que estão acontecendo diariamente aparecem ali na rede postados. Viram fatos comentados, trocados entre usuários e não fica apenas no debate raso. O tempo todo existem links e fotos postadas, inclusive, em primeira mão. 

iG: Você acha que a internet é uma mídia que facilita o ataque ao outro, durante a campanha política, em comparação ao jornal?

Rospars: Acho que em qualquer mídia pode existir o ataque, quem quiser fazer acusações, fará. Não acho que isto seja uma prerrogativa da internet, mas claro que o espaço pode facilitar. O importante é que a internet é uma ferramenta onde se pode rebater as acusações e informações falsas.

iG: O Marcelo Branco, contratado para coordenar a campanha digital da ex-ministra, disse que equipe dos americanos envolvidos na campanha deverá vir com frequência ao Brasil. O que ficou acertado?

Rospars: Bom, estou aqui esta semana para uma reunião com a equipe, mas ainda não sabemos o que vai ser discutido, qual estratégia será usada na rede. Vamos conversar e, aí sim, saberemos com que freqüência a equipe da Blue State terá de vir ao Brasil.

iG: Qual é sua primeira impressão sobre a campanha eleitoral no Brasil?

Rospars: É ótima. Há concorrência interessante uma real oportunidade para todos os twitters.  Os candidatos e todos partidos inovaram e realmente se abriram para as pessoas comuns.

iG: Nos EUA, o uso da internet para doações foi importantíssimo. É possível repetir isso no Brasil?

Rospars: É muito cedo para saber isso. Mas também não é o foco. Eu acho que o principal foco dos partidos e dos candidatos é realmente construir uma relação com as pessoas. Para nós na campanha de Obama, as doações foram apenas uma pequena forma para as pessoas se envolverem.

iG: Quais são as diferenças entre uma campanha na internet nos Estados Unidos e no Brasil, onde a maioria dos 65 milhões de internautas usa lan house e linha discada?

Rospars: A situação em ternos de acesso e tecnologia é obviamente diferente. Todos os países e culturas são diferentes, e nós teremos que trabalhar sobre essas diferenças também. Mas, como em outros lugares, as coisas também mudam aqui.  O quadro em 2010 será diferente do que foi em 2006.  Nós vimos a mesma coisa nos Estados Unidos. No Reino Unido está ocorrendo uma eleição agora e também as mídias sociais e as tecnologias estão diferentes do que foi em 2005 [a eleição anterior]. As coisas estão mudando muito rápido.

iG: Ben Self, que também trabalhou com Obama, já disse que a coisa mais importante numa campanha é saber o que as pessoas querem discutir. Vocês já sabem o que os brasileiros querem discutir nesta campanha?

Rospars: A coisa maravilhosa das mídias sociais e da internet é que nós veremos o que as pessoas querem discutir. É uma oportunidade para todos os diferentes candidatos e partidos realmente se abrirem e se engajarem no que as pessoas querem discutir. Isso é muito interessante e estou ansioso para ver como será no Brasil.

iG: Vocês terão de adaptar a experiência do modelo vencedor da campanha de Obama para o Brasil.

Rospars:  Com a web, temos a oportunidade de diminuir as barreiras e envolver as pessoas para construir uma relação afetiva com elas.  A cada eleição se apresentam novas oportunidades para envolver pessoas comuns nos debates. É isso que pretendemos fazer.

iG: O senhor já se encontrou com Dilma? O que pensa e sabe sobre dela?

Rospars: Ainda não, mas sei que ela é uma das pessoas que trabalharam na equipe que trabalhou nas coisas que estão acontecendo aqui [no Brasil]. Estou ansioso para ajudar no que for possível.

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