Em tratamento no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (HC), em São Paulo, oito crianças que carregam o peso da dor e abandono ensaiam uma peça enquanto provam o figurino - entre vestidos de fadas, bruxas e coroas de reis. Elas enfrentam problemas que vão do transtorno bipolar, depressão e hiperatividade até a esquizofrenia.

Se a vida trouxe os problemas, as respostas vieram dos livros de contos de fada. Assim, voluntários levam pela leitura e brincadeiras uma terapia para jovens hospitalizados.

“Todos os casos aqui são graves, são crianças que não conseguiam se inserir na sociedade”, explica a psicóloga Adriane Bacellar Duarte Lima, terapeuta e diretora da peça. Da fábula em que o personagem se torna órfão à história da princesa rejeitada, está tudo ali. Em pouco tempo é possível perceber avanços, como a melhora no comportamento social, na criatividade, na coordenação motora e na fala.

A iniciativa partiu da Associação Viva e Deixe Viver, uma entidade dedicada a recrutar e treinar contadores de histórias para crianças e adolescentes hospitalizados. A entidade existe desde 1997, mas essa é a primeira experiência com pacientes de um hospital psiquiátrico. O objetivo é utilizar as possibilidades terapêuticas que o brincar pode trazer. “Cada patologia incide de uma forma diferente em como a criança brinca”, diz a psiquiatra Marisol Montero Sendin. Quando chegaram, algumas delas não sabiam como brincar.

Os médicos e Valdir Cimino, fundador e diretor da associação, perceberam que mais do que mostrar a eles que podiam brincar, os pais também precisavam participar. Decidiram então estudar os pais de 65 crianças atendidas no instituto. O resultado mostrou que foram criados em um ambiente repleto de histórias e brincadeiras. Mas o mesmo não se repetiu com seus filhos. Com o nascimento de uma criança com patologia psiquiátrica, até os pais que foram mais estimulados na infância se sentem impotentes. “O objetivo é ensiná-las a brincar com seus filhos para que possam fazer isso também em casa”, afirma Cimino.

AE

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