Os assassinatos de um prefeito, no interior do Paraná, e de um secretário de governo em Porto Alegre, ocorridos em menos de uma semana, deixaram assustados os chefes da administração da região. É o que afirma o presidente da Associação dos Municípios do Paraná (AMP), Moacyr Elias Fadel Júnior, para quem a profissão de político tem se tornado ¿cada vez mais árdua¿.

Prefeito de Castro, cidade de 68 mil habitantes do interior paranaense, Fadel Júnior afirma que a sensação de insegurança tem aumentado na região. O número de políticos assassinados é expressivo e preocupa, afirma.

Só no Paraná, segundo levantamento do jornal Gazeta do Povo, 16 políticos foram mortos de maneira violenta nos últimos dez anos. No ano passado, o estado já havia sido palco do assassinato do prefeito de Barbosa Ferraz, Mário Cesar Lopes Carvalho (PMDB) ¿ o corpo dele foi encontrado em uma rodovia próxima à cidade com cinco tiros no abdome.

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Amigos e familiares acompanham enterro de prefeito de Rio Branco do Sul, no Paraná

Estamos saindo do meio político e virando assunto criminal. É difícil explicar por quê. Mas são quase sempre problemas localizados, em que a coisa sai do âmbito político e vira pessoal. O Paraná hoje é um estado violento. Antes não era. Só víamos notícias de crimes em outros estados. E o Sul é uma região desenvolvida, diz o prefeito.

Na última segunda-feira, o prefeito de Rio Branco do Sul (PR), Adel Rutz (PP), foi morto com cinco tiros disparados por motociclistas quando estava dentro do próprio carro.

Três dias antes, outra autoridade política, o ex-vice-prefeito de Porto Alegre e então secretário municipal de Saúde da capital gaúcha, Eliseu Felippe dos Santos, de 63 anos, foi assassinado, também a tiros, numa área com alto índice de roubo de carros da capital gaúcha. Ele carregava uma arma calibre 380.

Os crimes acontecem numa época e região distantes dos tempos em que lideranças políticas eram eliminadas em acerto de contas, como o Piauí do final dos anos 1990, palco do assassinato de oito prefeitos que resultou na criação da União de Viúvas e Familiares de Ex-Prefeitos Assassinados do Piauí.

Nos últimos cinco anos, o Maranhão assistiu a ao menos quatro assassinatos de prefeitos: em Buriti Bravo (ocorrido em 2005), em Governador Fiquene (2007), em Presidente Vargas (2007) e em Barreirinhas (2009), além de um atentado contra o prefeito de São João do Caru, em 2006 e da morte do presidente da Câmara de Governador Edison Lobão (2005). Em Alagoas, um vereador de Delmiro Gouveia foi assassinado em 2007, supostamente a mando de um deputado estadual.

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Policiais chegam ao local onde secretário de Porto Alegre foi assassinado

As mortes de Santos e Rutz não indicam que a pistolagem esteja impune na região Sul, mas, segundo especialistas ouvidos pelo iG, mostram que nem mesmo as autoridades políticas estão livres da violência urbana.

No caso do prefeito de Rio Branco do Sul, o crime teve elementos de filme de faroeste. Até o momento, foram presos dois suspeitos: a própria ex-mulher do político, Josiane Portes de Barros Ruts, 31 anos, suposta mandante do crime, e Fábio Faria, que confessou ter disparado os dois primeiros tiros de revólver calibre 38.

Em depoimento à Polícia Civil do Paraná ele disse que dividiria com outros dois envolvidos R$ 25 mil pela execução. Os outros dois suspeitos ¿ de 25 e 27 anos ¿ foram identificados pela polícia e estão foragidos. Um deles já possuía mandado de prisão em aberto por homicídio em Rio Branco do Sul, em 2005.

Para o delegado Miguel Stadler, do Centro de Operações Policiais Especiais (Cope), a motivação do crime tem relação com a separação do casal.

Afronta

Segundo o cientista político Ricardo Costa de Oliveira, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), se for considerar que o Estado possui cerca de 400 prefeituras, milhares de vereadores, além de parlamentares na esfera estadual e federal, os casos de assassinatos de lideranças políticas não são tão altos se comparados com outros grupos sociais mais vulneráveis, como adolescentes da periferia, policiais militares ou mesmo motoboys.

As taxas de assassinatos nesses grupos são mais elevados. No Brasil não se tem uma cultura de crimes políticos porque não temos uma guerra civil declarada, ou grupos políticos com ligações com grupos militares, paramilitares ou envolvidas com o narcotráfico, como acontece na Colômbia. Nesse sentido estamos melhor que a Espanha, por exemplo, que ainda enfrenta problemas com o [grupo separatista] Eta.

A situação, segundo ele, já foi pior. Na década de 1950 e 60, por exemplo, com a expansão da fronteira agrícola pela região, prefeitos, vereadores e donos de cartório se envolviam em disputas, muitas vezes sangrentas, pelo controle do espaço e poder. Hoje, com a expansão dos centros urbanos, os políticos se tornaram, também, vulneráveis à violência cotidiana. De qualquer forma, é um afronta contra a autoridade, o que é grave e tem que ser apurado.

Segundo Oliveira, ainda existem áreas em que o poder público é vulnerável a ação de criminosos. De acordo com a Secretaria da Segurança do Paraná, porém, não há um levantamento de casos de homicídios que discrimine vítimas de crimes políticos ou comuns.

Em Foz de Iguaçu, uma das cidades mais violentas do Brasil, essa situação é explicada porque é área de fronteira, de contrabando. Mesmo assim a situação está melhor lá. No interior, já teve caso de prefeito assassinado por um primo distante em Reserva, município com um dos menores índices de desenvolvimento da região, diz o especialista.

Nascido na Colômbia e naturalizado brasileiro, o professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Juan Mario Fandino Marino, especialista em violência, diz que os atentados contra autoridades em determinadas regiões do país podem indicar uma mudança de padrão dos tipos de crime envolvendo políticos. Podem ser resultado, segundo ele, do próprio aumento da repressão sobre irregularidades relacionadas às administrações.

A Polícia Federal tem feito ações sobre grupos envolvidos com corrupção, que podem estar se sentindo acuados. Pode ser que a própria ação da polícia esteja encurralando e eles comecem a fazer denúncias uns contra os outros. As pessoas envolvidas viram alvo antes de um escândalo. Vimos isso, não faz muito tempo, na morte do prefeito [de Santo André] Celso Daniel. É uma afronta à instituição e isso acontece em várias regiões. Na Colômbia, as pessoas são mais vulneráveis, mas aqui ainda não se pode dizer que a política virou uma profissão de risco.

Raul Seixas

O presidente da Federação das Associações de Municípios do RS (Famurs) e prefeito de Sentinela do Sul (RS), Marcus Vinicius Vieira de Almeida, minimiza a situação: Tem até aquela música em que o Raul Seixas dizia não quero ser prefeito, pode ser que eu seja eleito e alguém pode querer me assassinar. Ele tinha medo, mas a situação não é mais assim.

Para ele, qualquer atividade política, ligada à gestão publica, está sujeita a conflitos e desgastes, mas não a esse ponto, de se levar às vias de fato.

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