Assassinato dos Villela completa um ano sem solução

Repleto de revezes, caso teve delegada afastada, acusações de tortura e falsa vidente como testemunha. Filha é principal suspeita

Fred Raposo, iG Brasília |

Vinte e oito de agosto de 2009. Um casal com patrimônio estimado em cerca de R$ 10 milhões é assassinado brutalmente em seu apartamento, em Brasília. A empregada também é morta. São desferidas 73 facadas. Durante as investigações, uma paranormal diz saber o paradeiro dos criminosos. Depois, se descobre tratar de uma farsa. Homens presos em função das indicações da vidente reclamam de terem sido torturados dentro da delegacia. A delegada é afastada e está sob investigação. Agora, a polícia trabalha com a hipótese de que o crime tenha sido motivado pela disputa por dinheiro na família. A principal suspeita: a filha do casal, que nega autoria do assassinato.

O triplo homicídio no Bloco C da 113 Sul completa este sábado um ano ainda sem solução. O crime voltou à tona nos últimos dias, depois que a Justiça decretou a prisão temporária de cinco pessoas – entre elas, a vidente Rosa Maria Jaques, 61, e o marido, João Tocchetto, 49 -, acusadas de tentar atrapalhar as investigações.

A única que continua atrás das grades é Adriana Villela, 46 anos, filha do casal. Ela é mantida no Presídio Feminino do Gama. A delegada da Polícia Civil Mabel Faria, da Coordenação de Investigação de Crimes contra a Vida (Corvida), afirma ter provas de que Adriana cometeu o crime. A defesa de Adriana nega: “Não há nada de concreto contra ela, nenhuma prova do crime”, disse ao iG o advogado Rodrigo de Alencastro. Mabel não atendeu a reportagem.

Exoneração

A reserva com que a polícia vem tratando o caso talvez se deva aos muitos revezes que marcaram as investigações neste um ano. O principal ocorreu em abril, quando o conturbado episódio da paranormal culminou com a exoneração da delegada Martha Vargas, então responsável pelo caso. Martha contou que a vidente Rosa Maria teria indicado uma casa, em Vicente Pires, onde supostamente morariam os assassinos.

Lá, polícia encontrou uma chave, que abria a porta dos fundos do apartamento dos Villela. Três pessoas foram presas. Uma perícia policial identificou, contudo, que a chave havia sido plantada no local. Após serem soltos, dois suspeitos afirmam terem sofrido torturas, por parte de policiais da 1ª DP (Asa Sul), para confessarem o crime.

A Corregedoria da Polícia Civil abriu sindicância para investigar o caso. A suspeita é que policiais da 1ª DP usaram a falsa vidente para tirar o foco da investigação dos verdadeiros culpados e da cena do crime. O episódio da vidente derrubou também o agente José Augusto Alves. Tido como braço direito de Martha, chegou a ir preso, mas foi liberado em seguida.

Cena modificada

A dificuldade em encontrar provas sobre o caso decorre de outra falha da polícia. Menos de duas semanas após os assassinatos, a cena do crime foi alterada. Provas foram removidas e novos objetos, inseridos no local. Ou seja, tendo hoje a filha do casal como principal suspeita do assassinato, a polícia tenta, ao longo do processo, desatar seus próprios nós. De quebra, investiga seus agentes.

Desde o assassinato, o apartamento dos Villela está interditado, disse um dos porteiros do Edifício Leme, onde ocorreu o crime. José Guilherme Villela, 73 anos, um ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e sua mulher, Maria Carvalho Mendes Villela, 69 anos, ocupavam um imóvel duplo no prédio.

Moradores e vizinhos evitam falar no assunto. Repetem que o assunto “já deu”. A veterinária Adriana Ferrari, 29 anos, que ocupa um apartamento no prédio, conta que não conhecia os Villela, mas que o episódio “ficou na memória”. “A vida continuou. Ninguém quer lembrar do assunto. Só que fica na história”, assinala. “Hoje temos câmeras de segurança ligadas 24h com a polícia. Trocaram a vigilância, deram cursos para os vigilantes. Espero que solucionem o caso”.

Assim também esperam a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-DF) e o Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB-DF). As duas entidades têm representantes acompanhando o andamento do caso. Raul Livino, do IAB-DF, cobra que as investigações sejam concluídas “o mais rápido possível”. “A delegada me garantiu que o caso seria solucionado até o fim do ano. Porém, é um caso complexo. Ainda há muitas interrogações”.

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