País registra mais de dois mil óbitos por conta da doença respiratória que não deveria ser letal

A inflamação crônica das vias respiratórias, popularmente conhecida como asma, acomete 20% da população brasileira. Embora não tenha cura, quando diagnosticada, é facilmente tratada. Requer controle e cuidados do paciente, mas na prática, não deveria ser mortal. Dados do Ministério da Saúde, porém, revelam um índice surpreendente de óbitos provocados por conta da doença: duas mil pessoas morrem e mais de 300 mil são internadas com crises agudas.

Nesta sexta-feira, 07, é comemorado o Dia Mundial de Combate à Asma. A data serve de alerta para a população e entidades públicas, pois marca o início da temporada de internações - de maio a julho -provocadas pela doença.

Esses números, segundo Jaquelina Ota, pneumologista do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, e presidente da Sociedade Paulista de Pneumologia, deveriam ser nulos ou próximos de zero. “A asma não mata. Os dados são alarmantes e revelam o descontrole no trato da doença.”

A especialista revela que a mortalidade da asma é provocada por uma conjunção de fatores. Falta de cuidado do paciente, automedicação e atendimento ambulatorial precário encabeçam a lista. A morte, segundo ela, só ocorre em uma crise maltratada, seja pelo paciente, que não deu a devida importância e deixou de procurar por atendimento, ou pelo serviço médico não adequado.

“O paciente, no dia a dia, é capaz de controlar a doença. O grande problema é não respeitar a gravidade da crise e se automedicar sem limite. Quando a tosse começa a ser muito freqüente e a falta de ar não é sanada com o auxilio do medicamento, é necessário procurar um pronto-socorro. Essa deve ser a orientação dos médicos e a postura do paciente. Se ele não chegar a tempo no hospital, o atendimento não é capaz de reverter os danos da crise a pessoa morre por falta de ar.”

Levantamento feito pelo Delas no DATASUS, banco de dados do Sistema Único de Saúde, abastecido por todos os hospitais do Brasil, mostrou que o nordeste é a região que tem os mais altos índices de internação do País. De janeiro de 2008 a fevereiro de 2010, a Bahia registrou aproximadamente 80 mil internações por conta da doença. Para Jaquelina, a liderança do Estado pode ser um alerta na questão da qualidade do atendimento médico nos hospitais. “A falta de qualificação dos especialistas e as condições hospitalares precárias estão diretamente associadas a esses dados.”

No interior de São Paulo, em cidades onde há queima da cana-de-açucar, a internação por crise de asma tende a ser maior, pois a fumaça gerada no processo compromete o sistema respiratório da população. Nesse mesmo período, a capital paulista teve 38 mil casos registrados.

Conviver com a asma

Para controlar a doença é preciso estar atento aos sintomas. A asma provoca tosse seca, chiado, aperto no peito e dificuldade para respirar. Durante a crise, esses três fatores são freqüentes e agressivos, o que facilita o diagnóstico clínico. Jaquelina revela que a maioria das pessoas manifesta o problema logo na infância, o que não impede que eles só venham a aparecer na fase adulta. “É mais comum ela aparecer ainda quando criança, mas não é uma condição única da doença.”

O tratamento varia conforme a intensidade da doença, mas em geral é feito com inaladores. As famosas bombinhas de ar dilatem os brônquios e resgatam o paciente de uma crise de fraca a média intensidade. A médica revela que existem diversos mitos que pairam sobre as formas de cuidar da doença. “Há uma crença equivocada de que a bombinha pode matar. Não é o aparelho que provoca o óbito. Quando o uso dela passa a ser necessária em um intervalo curto de tempo, é sinal de crise severa. A bombinha não dá conta de reverter o quadro e é preciso procurar um atendimento médico com urgência. Se o paciente usar mais de três vezes o aparelho já deve procurar um pronto-socorro.”

Em casos mais graves, é recomendado, paralelo ao uso da bombinha, o tratamento com corticóides. Os possíveis efeitos colaterais da cortisona – inchaço, hipertensão, diabetes, aumento de peso – também comprometem o tratamento. “Muitas pessoas, por medo desses efeitos, deixam de fazer o uso via oral. A asma fica sem controle e as crises passam a ser freqüentes.” Hoje, a cortisona também pode ser inalada, o que diminuiu bruscamente danos comuns ao medicamento.

Dicas de prevenção

No frio, as pessoas tendem a ficar em ambientes fechados, com pouca circulação de ar. Jaquelina Ota explica que não é a temperatura mais baixa que acentua os sintomas da asma, mas o comportamento das pessoas perante o clima. “A baixa umidade diminui a defesa do sistema respiratório, deixando-o mais suscetível à doença.”

Para conviver bem com a doença, a especialista dá dicas simples que podem ser incorporadas ao dia a dia dos pacientes. Melhorar o ambiente em relação ao pó, varrer a casa todos os dias, passar um pano úmido nos quartos, manter a casa sempre ventilada e evitar o ar condicionado são pequenas atitudes que afastam as crises. A vacinação contra a gripe também é fundamental para o portador da doença. Qualquer vírus que comprometa as vias respiratórias pode prejudicar os sintomas da asma

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