Às vezes não tem o que jantar, diz moradora da Vila do Jacaré

Ribeirinhos do Amazonas sofrem com a seca recorde. Sem plantação ou pesca, comida precisa ser racionada

Lecticia Maggi, enviada a Manacapuru |

“Às vezes não tem o que jantar. A gente toma um café com farinha e vai deitar”. É assim que a aposentada Maria Moura de Souza, de 72 anos, começa a descrever à reportagem do iG como tem sentido os efeitos da seca em Vila do Jacaré, comunidade que fica a três horas de barco de Manacapuru, a quarta maior cidade do Estado do Amazonas (ver mapa abaixo).

Lecticia Maggi, enviada a Manacapuru
Dona Maria descansa na rede de seu flutuante

Dona Maria, como é conhecida, mora com o marido, Raimundo Fernandes Menezes, de 81 anos, em um flutuante no rio Solimões. A casa deveria boiar, mas está na terra. Com a seca, o Solimões bateu recorde no último dia 11, em Tabatinga (a 1.105 quilômetros de Manaus), com 86 centímetros negativos. O Rio Negro, um dos mais importantes da região e influenciado diretamente pelo Solimões, também registrou sua maior vazante com 13,63m, um centímetro a menos que o registrado em 1963, a maior seca até então.

Lecticia Maggi, enviada a Manacapuru
Flutuante do casal Maria Moura de Souza e Raimundo Fernandes Menezes está no chão por causa da seca

O fato de estar tão próximo ao rio fez não fez com que o casal de idosos deixasse de sofrer as consequências da maior estiagem do Estado em mais de 100 anos. Plantação alguma resistiu ao sol e os alimentos têm de ser comprados no centro de Manacapuru. “Tudo tem que comprar... E falta, ih, se falta”, diz dona Maria, da rede no pequeno cômodo de madeira, de onde, antes pelo vão do chão, dava para se ver água.

Lecticia Maggi, enviada a Manacapuru
Na geladeira, água e um pouco de peixe
“Nós somos aposentados, mas nosso dinheirinho não vale nada. Não dá até o fim do mês”, afirma. Na casa dela, a comida tem que ser dividida entre sete filhos. “Tem que ir regrando de pouquinho. A gente compra 3, 4 até 5 kg de arroz por mês, mas como é bastante gente não dá. É só na farinha”, diz. Antes da seca, era possível comer peixe todo dia. Mas eles, que antes apareciam na porta do flutuante do casal, desapareceram.

Kátia Soares da Cunha, de 29 anos, ex-mulher de um dos filhos do casal, conta que quando o rio vai secando uma grande quantidade de peixes fica acumulada nas poças que se formam. Porém, é preciso agir rápido antes que a água esquente demais e eles morram. “Agora só tem peixinho miúdo”, diz ela, enquanto abre a geladeira e mostra uma tigela com alguns peixes que fica em cima de garrafas pet com água. É tudo o que há. Na única prateleira, há vasilhas vazias, vidros de remédios e um pote de margarina. “Não tem biscoito, nem nada, é só café. As crianças vão para a escola sem comer", lamenta dona Maria.

As cestas básicas que estão sendo entregues pela Defesa Civil às comunidades mais prejudicadas pela seca ainda não chegaram ao Vale do Jacaré. “É uma calamidade essa seca”, afirma Kátia. “Nunca vi em todos estes anos de vida nada igual”, completa Menezes, marido de Dona Maria.

Vila Jacaré

O flutuante do casal Maria Moura de Souza e Raimundo Fernandes Menezes chega a ficar na altura das casas da comunidade quando o rio está cheio. Agora, para ir à vila, os donos de flutuantes têm de subir um barranco de mais de 7 metros de altura.

A Vila do Jacaré possui 300 casas e cerca de 1.500 pessoas, segundo a administradora local Kelly Cristina Vasconcellos de Albuquerque. Para chegar lá, além das três horas de barco, agora é necessário fazer uma caminhada de ao menos 50 minutos.

Muitos moradores contam à reportagem do iG que atualmente só deixam a comunidade “raramente”. E isso para receber o Bolsa Família. “Ia semanalmente a Manacapuru, agora só de mês em mês”, conta Elza Morais da Silva, de 36 anos.

Ao meio-dia de quinta-feira, a comunidade parecia estar abandonada. As escolas estavam fechadas, assim como o posto policial. A energia havia sido cortada. Motivo: economia de diesel. As balsas que levam combustível à localidade não conseguem mais chegar. Luz só até as 9h e depois do sol se pôr. O procedimento é adotado diariamente há quase um mês, desde que a estiagem atingiu o ápice. “Parou tudo aqui”, afirma Célia Assis dos Santos, de 36 anos, agricultora.

O posto de saúde local não tem médicos. A razão seria o acesso difícil dos profissionais de saúde à região devido à seca. “Uma enfermeira normalmente vem a cada 10 dias, fica 8 e vai embora. Agora que o pessoal mais precisa, não tem ninguém”, afirma Kátia. 

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