SÃO PAULO - Às vésperas da Lei 577/08, que entra em vigor no dia 7 de agosto e proíbe o fumo em locais fechados de uso coletivo, paulistanos ainda se dividem sobre a medida. A maior parte das pessoas ouvidas pela reportagem do Último Segundo diz ser a favor da restrição, mas não quer ser vista como o ¿dedo-duro¿ da vez.

AFP
Fumo fica proibido em qualquer lugar fechado
Além de 500 agentes para a fiscalização, o governo aposta na colaboração dos frequentadores de bares para "dedurar" quem estiver fumando. À disposição deles, estará o telefone 0800 771 3544, além de um ícone para realizar a denúncia no site . As pessoas também poderão preencher um formulário - que todo estabelecimento comercial será obrigado a disponibilizar - e entregá-lo em qualquer unidade do Procon ou da Vigilância Sanitária.

Muitos paulistanos dizem, no entanto, que, ao virem alguém fumando, devem sair de perto ou, no máximo, denunciar o fato a algum funcionário da casa. Comunicar diretamente aos fiscais ainda é uma possibilidade pouco cogitada. 

"Não denunciaria à Vigilância porque não quero me indispor"

O estudante de Direito Lucas Bulgarelli, de 18 anos, se inclui neste grupo. Ele diz que, se alguém estiver fumando próximo pedirá para a pessoa apagar o cigarro. Em caso de negativa, deve avisar o dono do local. Não denunciaria à Vigilância porque não quero me indispor. Se é uma pessoa na balada fumando, há como se fazer alguma coisa. Mas se é a maioria, não cabe a mim resolver o problema, afirma.

Arquivo pessoal

Pedro diz que se afastaria do fumante

O estudante Pedro Henrique Souza, de 21 anos, morou durante 1 ano no Canadá e conta que se surpreendeu com o rigor com que o vício é tratado no país. Nos prédios públicos, normalmente, há uma placa pedindo que as pessoas não usem substâncias que deixem cheiro, desde cigarros a perfumes e produtos fortes para o cabelo, diz.

"Não faria nada por acreditar que as pessoas fumam baseadas em um valor que trazem de casa e que não será facilmente mudado"

Porém, ele também assume que não denunciaria se visse alguém fumando, só se afastaria. Não faria nada por acreditar que as pessoas fumam baseadas em um valor que trazem de casa e que não será facilmente mudado, que é o respeito pelos outros, considera.

Criador de uma comunidade em favor da lei no site de relacionamentos Orkut, o vendedor Henrique Campos Ferrero, de 32 anos, conta que já largou a comida no prato e saiu sem pagar de um restaurante porque acenderam um cigarro ao seu lado e os funcionários do local não fizeram nada.

Uma coisa é estar em uma mesa que não dá para trocar, outra é em um bar ou balada, que é só ir para outro lugar

Com a lei, acredita que problemas assim não devem voltar a acontecer. Uma coisa é estar em uma mesa que não dá para trocar, outra é em um bar ou balada, que é só ir para outro lugar, explica. Ferrero diz que, caso a situação lhe incomode muito, pode avisar o gerente do local, mas não abordaria o fumante. Não sei com quem estou lidando, diz.

Além de não voltar para a casa com cheiro de fumaça, o estudante Caio Melzer de Oliveria, de 20 anos, acredita que não enfrentará mais incidentes como ser queimado com cigarros. Já encostaram cigarro em mim, mas não falei nada para não arranjar confusão. Com a lei, vou pedir para apagar. E, se não resolver, posso até mesmo chamar a polícia, destaca.

Fumantes

Arquivo pessoal
Vinicius defende áreas para fumantes

Na contramão da lei, estão os mais afetados: os fumantes. O universitário Vinicius Moreira Nunes, de 23 anos, defende que todos os lugares, tanto shoppings, como restaurantes e bares, deveriam ter áreas para fumantes. Ele diz ainda que não mudará seus hábitos pela proibição: Vou continuar fumando do mesmo jeito. Caso digam que não posso, me retiro do local.

Uirá Mariana Gamero, de 26 anos, que fuma um maço de cigarros por dia, considera que deveriam existir casas noturnas em que fosse proibido fumar e, em outras, liberado. Se não puder fumar, nem vou sair para a balada, justifica.

"Agora que proibiram, que pelo menos distribuam medicamentos para nos ajudar a parar pelo mesmo preço do cigarro"

A vendedora Débora Felippe, de 27 anos, critica a falta de contraponto do governo à lei, que, segundo ela, proíbe as pessoas de fumarem, mas não oferece alternativas para que larguem o vício. Fomos criados em uma sociedade em que era permitido fumar em qualquer lugar. Agora que proibiram, que pelo menos distribuam medicamentos para nos ajudar a parar pelo mesmo preço do cigarro, afirma ela, que diz querer largar o vício.

Enquanto isso não acontece, a vendedora explica que, antes de escolher o destino, vai se informar se o local oferece áreas abertas para fumantes.

Para a jornalista, T. , de 29 anos, a lei veio como um estímulo, já que ela deseja parar de fumar em agosto, quando completa 30 anos. Vou me acostumando, diz.

O meio termo

Arquivo pessoal
Rafael não fuma, mas se importa com o cheiro

Nem fumante, nem a favor da lei, o designer Rafael Zandoná, de 25 anos, diz simplesmente não se importar com o cheiro de cigarro. 

Freqüentador assíduo do Manifesto Rock Bar, considera que o local ficou menos interessante após a proibição. Curtia aquele clima de rock profano do bar, brinca ele, que notou também a diminuição do público nas últimas semanas.

A casa, localizada na zona sul de São Paulo, preferiu se antecipar à proibição para que os clientes estejam adaptados quando a lei realmente entrar em vigor.

"Na balada, cigarro praticamente faz parte da diversão"

O estudante de administração Paulo Severino Xavier, de 19 anos, começou a fumar aos 9 anos de idade e parou somente a cerca de um ano. Hoje, diz ter ficado enjoado de cigarro, mas admite que é difícil dele ser coibido em baladas. Praticamente faz parte da diversão, considera.

 Assista ao vídeo sobre a Lei Antifumo:

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