As meninas de Fortaleza

Inimiga da máfia italiana, procuradora levou à prisão aliciadores de menores em Fortaleza

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

Com internet, pedofilia se espalha e vira "negócio"

O avião fretado partia toda semana de Roma e Milão com destino a Fortaleza (CE). Na bagagem, os cerca de cem passageiros, a maioria entre 40 e 50 anos, levavam camisinhas, Viagra e a expectativa de conhecer finalmente o lugar onde encontrariam “meninas bem novinhas, bem baratinhas, que se entregavam com um simples presentinho”, como descreviam os operadores de viagem italianos.

A suspeita sobre o esquema chegou, em 2005, às mãos de Diana de Martino, procuradora da República italiana e coordenadora do departamento ao crime organizado de Roma. Uma das principais responsáveis pelo combate à máfia italiana, hoje enfraquecida após 20 anos de cerco sobre os principais líderes das organizações, a procuradora assumiu a investigação do caso e determinou que agentes se infiltrassem nessas excursões para mapear a rede criminosa.

A ação, mais tarde batizada como “Operação Meninas de Fortaleza”, demonstra como funciona o mercado de serviços sexuais oferecidos no Brasil, uma rede combatida pelos mesmos responsáveis pelo cerco aos temidos grupos mafiosos como a Cosa Nostra (da Sicilia) e a Comorra (de Napoles). Mostra também, segundo ela, como o combate à pedofilia é efetivo quando existe cooperação adequada entre nações.

Diana esteve no Brasil, na última semana, para participar do 5º For-JVS (International Forum of Justice), que neste ano teve a pedofilia entre os principais temas a serem debatidos entre especialistas de vários países.

“Durante as investigações foi descoberto que o operador de turismo que providenciava esses voos em Fortaleza era um italiano que havia se radicado há muitos anos no Brasil. Todas as agências italianas contatavam esse italiano. Um inquérito feito a pedido da polícia brasileira, em Fortaleza, já apontava esse italiano em vários atos sexuais com menores de idade”.

Agentes infiltrados

Com base nessas informações, foi aberto um inquérito na Itália que contou com trabalho de escutas telefônicas entre o operador no Brasil e três agências de turismo, sediadas em Roma, Palermo, Torino. “Os policiais fizeram contatos com essas agências como se estivessem interessados no serviço”.

Enquanto isso, relata a especialista, um grupo de investigadores foi enviado ao Ceará para fazer um levantamento sobre o agenciador italiano. Descobriram com quem ele andava, quem recebia as pessoas no aeroporto e em quais hotéis os clientes eram levados. “Houve uma coordenação investigativa conjunta entre policiais brasileiros e italianos, que contou com militares da embaixada italiana no Brasil. Eles deram apoio aos três infiltrados, que partiram em datas diversas depois que a situação estava mapeada”.

Ao chegarem ao aeroporto, os policiais souberam que o operador italiano contava com a ajuda da própria mulher e um funcionário. Lá, o grupo recebeu instruções para alugar carros e se dirigir para determinado hotel, onde meninas iriam encontrá-los. Os funcionários do hotel já tinham instruções para garantir a noite dos clientes. Não pediam sequer documentos para identificação das meninas.

Já no hotel, os policiais fizeram fotos dos homens com as meninas e registraram a entrada delas nos quartos. “O principal problema processual era mostrar que as meninas tinham menos de 16 anos. Assim ficaria caracterizado um ato que prejudica uma pessoa de nacionalidade estrangeira. Com ajuda da policia do Ceará, algumas foram detidas e identificadas. As crianças foram acompanhadas até a casa delas e os policiais obtiveram dados. Com isso, a polícia voltou à Itália com todos os dados para solidificar a denúncia”.

Dias depois, conta a procuradora, o operador italiano voltou à Itália, para visitar parentes no Natal. Contra ele já havia uma medida cautelar determinando sua prisão – que, caso ocorresse no Brasil, teria o processo arrastado por conta de um eventual pedido de extradição. Com ele foi apreendido um computador com o registro de todas as viagens, contatos e pagamentos. “Ao mesmo tempo, Fortaleza começou a interrogar as pessoas no Brasil. Na Itália prenderam o casal e pegaram a lista dos homens e obtiveram confissões de todos eles, que não tinham como negar os fatos por causa das fotos. Tentaram mostrar que não sabiam que eram menores. Mas, pela lei italiana, não era justificativa”.

Condenados

Segundo Diana, todos os acusados foram processados. Os agentes de viagens foram condenados a quatro anos de prisão e os clientes fizeram acordo com a Justiça para cumprir penas reduzidas.

“Cheguei a viajar a Fortaleza durante as investigações. Pude ver que as meninas eram muito pobres e precisavam de um modo para ganhar a vida. Infelizmente casos assim ainda são comuns no seu País”, disse.

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