Artista fará comida de peixe com corpo de condenado à morte nos EUA

Anxo Lamela. Copenhague, 5 set (EFE).- O artista chileno estabelecido na Dinamarca Marco Evaristti combinou com um condenado à morte dos Estados Unidos que este lhe cederá o corpo após ser executado, para que, então, possa transformá-lo em comida para peixes em uma exposição na qual fará uma reflexão sobre a pena capital.

EFE |

Sua idéia é que os próprios presentes na mostra alimentem os peixes, contou o artista à Agência Efe.

Evaristti conheceu no ano passado o condenado Gene Hathorn, de 47 anos e preso desde 1983 pelo assassinato do pai, da madrasta e do meio-irmão.

A aproximação aconteceu quando o artista trabalhava sua idéia de reflexão sobre a pena capital e tentava descobrir quem era o detento há mais tempo no corredor da morte nos EUA.

"Começamos a escrever cartas um para o outro, e depois fui visitá-lo na prisão no Texas. Na segunda vez que estive ali, ele me contou que alguns presos doavam seu corpo para fins científicos.

Perguntei a ele se consideraria doar o dele para uma obra de arte e ele aceitou", afirmou.

Lendo os papéis do processo, Evaristti viu que Hathorn era considerado um "detrito humano", razão pela qual decidiu transformar o "lixo" em algo positivo.

A idéia da comida para peixes veio de uma polêmica instalação que ele montou há vários anos em diferentes museus. Nela, peixes ficavam dentro de liquidificadores e os visitantes podiam matá-los apertando o botão que ligava o aparelho.

Como na época alguns o chamaram de assassino de peixes, o chileno decidiu dar uma "guinada de 180°" e se transformar em alimentador de peixes.

Evaristti respondeu às acusações de falta de ética em relação ao seu novo projeto dizendo que estas são incompreensíveis e proferidas por hipócritas.

"Como é possível que alguém reaja assim por um corpo que apodreceria de qualquer jeito e não diga nada de pessoas que são mortas? Como podemos aceitar que exista pena de morte atualmente? Não pode existir esse tipo de punição", defende-se.

Ainda segundo o artista de origem chilena, vão ser injetados em Hathorn três venenos desenvolvidos por um cientista nazista.

O que Evaristti reivindica é apenas o direito de fazer uma crítica construtiva. Além disso, espera que a obra provoque uma reflexão sobre a pena de morte e ajude a aboli-la, embora não saiba quando a mostra será inaugurada.

Já Hathorn, espera pelo resultado de sua apelação, processo que pode durar de um a cinco anos e que foi financiado por um grupo de pessoas, entre elas o artista, que, no entanto, consideram mínimas as chances de o condenado escapar da execução.

"Ele já foi torturado durante 25 anos. Quantos anos mais ele terá de esperar?", pergunta e, ao mesmo tempo, lamenta Evaristti.

A experiência de conhecer o réu proporcionou ao chileno mais "força" para trabalhar sobre o tema da pena de morte, apesar do sofrimento de ver nessa situação alguém a quem se refere como uma "biblioteca ambulante", a pessoa "mais inteligente" que já conheceu.

Evaristti afirma que todos os aspectos legais do acordo foram analisados e que não haverá nenhum problema em ficar com o corpo, que será congelado e triturado em uma fábrica, de onde será levado para o local da exposição, cujo nome não quer divulgar, mas que, segundo disse, será na Alemanha.

A mostra faz parte de um projeto mais amplo sobre a pena capital, que inclui ainda uma coleção de roupas desenhada pelo artista para que sejam vestidas por presos no dia da execução de Hathorn, a qual foi apresentada no mês passado na Semana da Moda de Copenhague.

De pai italiano e mãe russa, Evaristti nasceu "por acaso" no Chile, onde viveu até os 18 anos. Aos 20, se mudou para Copenhague para estudar na Real Academia das Artes.

Foi na Dinamarca, país no qual vive desde os anos 80, onde o chileno desenvolveu sua carreira artística, que é reconhecida por suas obras polêmicas como a venda de almôndegas feitas com sua própria gordura ou a tentativa de jogar tinta vermelha no topo do Mont-Blanc, nos Alpes Franceses.

Evaristti, no entanto, diz que não é nem chileno nem dinamarquês, mas "de todas as partes", e cita o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein para concluir que, "no fim, todos somos macacos com intelecto desenvolvido". EFE alc/bm/sc

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