Santarém - Levar saúde e alegria às comunidades mais isoladas da Amazônia é a missão de uma ONG brasileira que implantou uma complexa rede de comunicação em aldeias remotas e percorre a região com um barco hospital para dar atendimento médico aos habitantes.

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ONG chega à Amazônia
ONG chega à Amazônia

O projeto surgiu em 1984, quando Eugenio Scannavino, um médico recém-formado, decidiu trocar o Rio de Janeiro pela floresta.

Três anos depois de sua chegada à região, Scannavino fundou a "Saúde e Alegria", uma ONG que começou trabalhando para 16 comunidades e hoje atende a mais de 30 mil pessoas às margens dos rios Amazonas, Arapiuns e Tapajós, em uma área do tamanho da Alemanha.

"Saúde e Alegria" não tem foco único no desenvolvimento, mas atua para abordar as deficiências comunitárias em diversas frentes por meio de um projeto integrado tendo a saúde como eixo principal.

"Não serve de nada resolver um problema se existem outros tantos ao mesmo tempo", explicou à Agência Efe, Caetano Scannavino, que decidiu seguir os passos do irmão Eugenio para utilizar na organização seus conhecimentos na área da comunicação.

Fruto do esforço de ambos surgiu a Rede Mocoronga de Comunicação Popular, um exemplo de superação e luta para tornar audível a voz daqueles que normalmente são excluídos dos círculos frequentes.

Nestes mais de 20 anos, a rede Mocoronga (em alusão aos nascidos na região) conseguiu organizar pequenos jornais e rádios locais na maioria das comunidades, o que permitiu estabelecer um sentimento de coesão inédito e um circuito de informação entre os povos que até então permaneciam completamente isolados.

Além disso, este incentivo à troca de informação exerce um papel muito importante, o de preservar a cultura amazônica por meio de gravações e depoimentos dos mais idosos de cada comunidade, que depois serão arquivados pela ONG.

"Perder todo esse acervo significaria perder uma parte da cultura de nosso país", avisa Caetano Scannavino, embora nenhum organismo governamental até agora tenha demonstrado interesse na conservação dessas gravações.

O trabalho dos dois irmãos não parou nestes anos e em 2006 ganhou um novo impulso com a inauguração do navio Abaré, um hospital ambulante que passa o ano singrando o rio Tapajós e levando atendimento médico às comunidades.

Com uma frequência de retorno a cada comunidade entre 30 e 40 dias, o "Abaré" representa um oásis de ajuda para estas pessoas com 25 médicos voluntários das mais diversas especialidades que partem de diferentes pontos do país.

"Que pessoa no mundo visita o dentista 12 vezes ao ano? Pois, eles podem", assinala orgulhoso o médico Scannavino, e aponta que o calendário de visita é acordado com as próprias comunidades e é decidido até com um ano de antecedência.

O navio hospital não é só motivo de satisfação para os pacientes atendidos, mas também para os médicos que decidem passar dias a bordo do "Abaré".

"Esta é a oportunidade da minha vida", explica a médica Marcia Yanagi, que enviou as filhas de férias e deixou sua clínica privada em São Paulo para passar dez dias atendendo neste hospital flutuante.

"Com o navio, o sonho das comunidades se realizou", comemora Scannavino. Um sonho partilhado por dois irmãos que um dia deixaram tudo para lutar pela saúde e a alegria em um dos mais remotos cantões do Brasil e oferecer um pouco de visibilidade a uma das regiões mais enigmáticas do planeta.

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