Arcebispo do Rio, sobre pedófilos: "Vamos ver onde está o erro e consertar"

Cardeal completa um ano à frente da arquidiocese da cidade, avalia a fé dos cariocas e comenta os casos de pedofilia envolvendo padres católicos

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |


Esta será a primeira Semana Santa do cardeal Dom Orani João Tempesta à frente da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Aos 59 anos, nascido em São José do Rio Pardo, em São Paulo, Dom Orani foi arcebispo metropolitano de Belém, no Pará. Quando assumiu o posto no Rio, no dia 27 de fevereiro de 2009, por nomeação do Papa Bento 16, em substituição ao Dom Eusébio Oscar Sheid, que completou 75 anos em 2007, o arcebispo disse que sua missão inicial seria conhecer melhor a cidade. Quase um ano depois, ele já se considera um carioca. E não gosta de ouvir que a capital fluminense tem, proporcionalmente, o maior número de ateus do país. A idéia de que carioca não é religioso é uma visão estereotipada. Só no Dia Mundial da Juventude, no dia 28, tivemos mais de 15 mil jovens reunidos, diz.

Em sua ampla sala, na sede da Arquidiocese do Rio, na zona sul da cidade, Dom Orani fala ao iG de seus hábitos. Não faz dieta, prefere as caminhadas como atividade física, acorda por volta das 5h da manhã e tem orkut. A cada momento, dá uma olhada em seus emails, pelo Iphone. A mesa é abarrotada de livros. Quadros e esculturas com temática religiosa enfeitam o ambiente.

Além de fazer um balanço sobre a atuação da Igreja na cidade, Dom Orani comenta os casos de pedofilia envolvendo padres católicos pelo mundo. A Igreja é a única que tem coragem de tentar resolver esta questão, ninguém mais tem. Nenhum outro grupo social ou igreja tem essa coragem. Nunca se disse que todo mundo é santo, todo mundo erra. Vamos ver onde está o erro e tentar consertar, afirma.

iG: Pesam sobre o Papa Bento 16 acusações de que, quando cardeal, em 1980, teria acobertado casos de padres pedófilos. Como o senhor tem acompanhado esta repercussão?

Dom Orani: Nós dependemos de algumas poucas agências de notícias no mundo. Todos os veículos repercutem o que diz apenas uma fonte, sem se importar em checar os fatos. A Igreja tem posição que contradiz muita gente e instituições poderosas, seja em relação a aspectos da vida ou a situações econômicas. Como não se deixa levar pelas pressões, ela precisa ser desacreditada e combatida, para não ser ouvida no que é falado.

Claudia Dantas
Dom Orani

iG: Mas há, pelo mundo, casos de pedofilia confessados pelos próprios padres.
Dom Orani: Não se nega que haja problemas de cá e de lá. Mas o número de pessoas erradas em sacerdócio nas igrejas é bem menor do que em casos de pais, padrastos, professores, educadores, pessoas do dia a dia... Há um número muito maior de pessoas assim do lado de fora do que dentro da Igreja.

iG: O senhor há de convir que não deveria haver nenhum caso de pedófilo.
Dom Orani: Mas o desejo é esse. Que não haja nenhum caso no mundo! Mas encontramos. A Igreja está fazendo suas punições, desde que haja provas. Não podemos cair no erro de queimar em praça pública sem escutar suas razões. Não se pode fazer uma pré-inquisição, sair queimando para depois perguntar ao pó. 

iG: Demorou para o Vaticano se pronunciar a respeito dessas denúncias. Houve conivência com o problema?

Dom Orani: A Igreja nao é conivente. Mas não há dúvidas de que há interesses por trás disso tudo, de pessoas que não estão interessadas em resolver os casos, e sim desacreditar o Papa e suas posições. Há uma libertinagem por tudo que é lado. Crianças de 13 anos já podem fazer suas opções sexuais na Holanda. Há um partido de pedófilos e tudo... Com filmes na televisão. A Igreja não concorda com a situação e chama atenção para isso.

iG: Qual é o sentimento que o senhor tem ao acompanhar estes casos?
Dom Orani: A Igreja é a única que tem coragem de tentar resolver esta questão, ninguém mais tem. Nenhum outro grupo social ou igreja tem essa coragem. Nunca se disse que todo mundo é santo, todo mundo erra. Vamos ver onde está o erro e tentar consertar.

iG: Qual é a melhor punição para estes padres?
Dom Orani: A orientação dada nos últimos tempos é a expulsão, ou melhor, a redução do padre ao estado leigo. Ele deixa de ser padre dali para frente. Ele sempre vai ser julgado como cidadão. Nunca vai perder o pré-nome padre, ou no caso, citado como ex-padre. Isso não isenta a pessoa de sua responsabilidade.

iG: Quando assumiu a Arquidiocese, o senhor disse que o primeiro desafio seria conhecer a Igreja e o povo do Rio. Qual é o balanço que faz desse período de quase um ano à frente da Igreja no Rio?
Dom Orani: São mais de mil capelas na cidade. Mesmo que visitasse duas por dia, não teria dado tempo de conhecer tudo. Digamos que já conheço em torno de 60%. Uma das coisas que eu noto, é que o Brasil não conhece as belezas do povo carioca. Conhece o Cristo, as músicas, as praias, as paisagens, o carnaval... Mas não sabe o quanto este povo é acolhedor.

iG: Segundo dados do IBGE, a capital do Estado tem, proporcionalmente, o maior número de ateus do país - 15,5% da população, o dobro da média do Brasil. Saberia explicar o porquê?

Dom Orani: É uma questão de interpretação de estatística. A ideia de que carioca não é religioso é uma visão estereotipada. Só na Jornada Mundial da Juventude, no dia 28, tivemos mais de 15 mil jovens reunidos. Tenho visto exemplos bonitos de jovens estudantes cristãos, trabalhando para necessitados, tendo uma vida correta. Só se divulga o outro lado, mas a cidade não é só tiro e violência.

iG: A violência na cidade afeta a fé do carioca e sua rotina junto às igrejas?
Dom Orani: Creio que este aspecto não afeta a ida à igreja. Acaba o tiroteio e as pessoas saem de casa para irem à missa. Fiz uma missa no Complexo do Alemão e percebi o quanto havia de participação popular.

iG: Pode-se dizer que o profano e o sagrado convivem pacificamente no Rio de Janeiro?
Dom Orani: Essa é uma linguagem que surgiu nos anos 60. A igreja faz parte da história e, por isso, está em todo lugar. Deve dialogar com todas as realidades culturais e sociais. Tem gente da igreja que trabalha de forma social em áreas de prostituição, em escolas de samba, em vários setores. A igreja precisa dialogar com todos.

iG: Neste ano, pela primeira vez, a Arquidiocese liberou o uso de imagens sacras nos desfiles das escolas de samba. Por que tomou esta decisão, que sempre foi alvo de polêmicas?
Dom Orani: Escola de samba é uma ópera popular. Há um tema, roupas de acordo com o enredo escolhido, música composta para a ocasião. O que se divulga é o lado do nu, que é uma minoria. Cada vez as pessoas estão até mais vestidas, apesar do calorzão. O samba é parte da cultura carioca. E a igreja precisa valorizar o que o povo vive, precisamos conhecer melhor isso tudo.

iG: De que forma a Igreja deve se posicionar quanto à próxima eleição presidencial?
Dom Orani: A Igreja não é partidária. É, sim, preocupada com o povo para eleger pessoas honestas. Trabalhamos na campanha Ficha Limpa, para que votem com base e conhecimento. Pedimos que examinem a vida dos candidatos, se informando de que forma eles já usaram os cargos públicos anteriormente.

iG: O senhor se preocupa com a possibilidade de candidatos à presidência terem visão favorável ao aborto?

Dom Orani: O mundo de hoje é muito plural. Não sei se tem um candidato que não tenha esta visão, devido à pressão que existe em torno do assunto. Se alguém falar que é contra o aborto, vai perder muitos votos. Isso porque há uma pressão mundial pela legalização.

iG: Os católicos são então minoria condenando o aborto?
Dom Orani: Não, somos maioria. Basta ver as pesquisas, a maioria dos brasileiros condena. A minoria grita forte e faz pressão, mas não é a vontade da maioria. É como a questão das pesquisas com células-tronco. A Igreja não tem conflito com a ciência, é a favor do progresso humano.

iG: Impedir pesquisas com células-tronco não é ir contra o progresso humano?
Dom Orani: O que se tem de resultado concreto são as pesquisas com células adultas e não as que são tiradas de embriões. Você destrói embriões e não capta resultados positivos. Não dá para utilizar um ser vivo como cobaia ou pedaço de experimento.

iG: De que forma a Semana Santa deve ser comemorada?
Dom Orani: A Semana Santa é sempre nova, sempre renova a Igreja. Não precisa de novidades para ser celebrada. Cada ano temos a Quaresma, o período de 40 dias, como tempo de renovação interior. A Páscoa é para celebrar esta nova vida. Precisamos celebrar que Cristo ressuscitou, é uma experiência que cada cristão precisa viver. Cristo deu a vida a nós na cruz. Cada ano é novo, porque é um recomeço de vida.

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