Aquecimento global reduzirá área apta para soja no Brasil

SÃO PAULO - A promissora agricultura do Brasil deverá enfrentar desafios climáticos nos próximos anos, com o aquecimento global reduzindo em cerca de 30%, até 2020, as áreas aptas para o principal cultivo do País, de acordo com um estudo divulgado nesta segunda-feira.

Reuters |

'Toda essa área do Rio Grande do Sul seria totalmente não-indicada para o cultivo de soja. O oeste de Santa Catarina e o Centro-Oeste também ficarão menos aptos', afirmou o agrônomo Hilton Silveira Pinto, do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), da Unicamp, que realizou o estudo em parceria com a Embrapa.

O Centro-Oeste é atualmente a principal região produtora de soja do Brasil, e o Rio Grande do Sul, o terceiro Estado no ranking dos principais produtores.

Segundo os pesquisadores, embora o Brasil hoje plante soja em cerca de 22 milhões de hectares, possui uma área apta para o cultivo, em todo o território nacional, de 279 milhões de hectares, que seria reduzida para 213 milhões de hectares.

'Isso (aquecimento) tem 95% de chances de ocorrer, não tem reversão. O Brasil tem que se preparar, e rapidamente', disse Silveira, observando a importância de se realizarem pesquisas para o desenvolvimento de variedades geneticamente mais resistentes à seca e ao calor.

A projeção considera um aumento de 1,5 a 2 graus Celsius nas temperaturas no país daqui a 12 anos, além de uma menor ocorrência de chuvas.

A mudança climática desafia o país à medida que especialistas acreditam que o Brasil tem chances de superar os Estados Unidos, nos próximos anos, como maior produtor de soja do mundo, justamente pela maior disponibilidade de área.

O Brasil tem hoje uma safra de soja em torno de 60 milhões de toneladas, contra pouco mais de 80 milhões de toneladas dos norte-americanos.

O milho, que possui uma área apta ao cultivo no Brasil de 438 milhões de hectares, teria uma perda menor que a soja, de 12%, com redução expressiva especialmente no Nordeste. Atualmente o Brasil planta 14,6 milhões de hectares do cereal.

'Todas as culturas não vão ser mais possíveis no Nordeste, a área agrícola será mínima lá. A tendência é que a região passe de semi-árida para árida', comentou Silveira.

No oeste da Bahia, sul do Piauí, sul do Maranhão, que hoje ainda suportam agricultura, incluindo soja e algodão, 'a tendência é secar'.

'É a área de maior de tendência de aquecimento no Brasil, de acordo com os modelos.'

Cana favorecida

Por outro lado, de acordo com estudo, as mudanças no clima devem permitir um aumento expressivo nas áreas apropriadas para cana no país, que já é o maior produtor global de açúcar e álcool fabricado a partir da gramínea.

'As áreas apropriadas para o plantio de cana poderão mais do que dobrar. Ao contrario da soja, a cana ganha 160 por cento de área com o aquecimento até 2020', disse o agrônomo, lembrando que as áreas aptas passariam dos atuais 62 milhões de hectares para 160 milhões de hectares.

Atualmente, o plantio de cana no Brasil não chega a 8 milhões de hectares. 'A cana é extremamente tolerante à seca e ao aumento do calor. Suporta 150 dias sem água, desde que se faça alguma irrigação na fase de crescimento.'

Já o café é outra cultura que sofrerá bastante diante do aquecimento global. 'É provavelmente a cultura que mais vai sofrer depois da soja, ele perde 10 por cento da área de produção em 2020', segundo o pesquisador. 'Isso já considerando a migração de café para outras áreas.

Com o aquecimento você passa a produzir mais no centro do Paraná e também no Rio Grande do Sul, onde as áreas vão ficar mais tropicalizadas.'

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