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Sambódromo virtual faz carnaval durar o ano inteiro

A escola de samba Mocidade Leopoldense, do Rio Grande do Sul, disputa o título do carnaval de 2009 com a Altaneiros do Samba, do Maranhão. Já a Imperatriz Paulista é uma das campeãs no número de integrantes: 16 - uma superpopulação perto da maioria das rivais, que têm de 3 a 5 componentes.

Agência Estado |

Os barracos dessas escolas ficam abertos 24 horas por dia aos visitantes, os desfiles não ocorrem nem no Anhembi nem na Sapucaí e o carnaval não é em fevereiro. Elas são as escolas de samba virtuais, criadas para realizar o sonho dos aficionados do samba de ter desfile de carnaval o ano inteiro, em uma espécie de "sambódromo virtual".

São 14 escolas no Grupo Especial, vinculadas à Liga Independente das Escolas de Samba Virtuais (Liesv), uma iniciativa de amigos que se ressentiam de ter apenas o mês de fevereiro para viver o clima dos desfiles. Eles queriam que a criatividade que envolve o carnaval fizesse parte da rotina e encontraram na internet o meio de reunir outros entusiastas com a mesma vontade. Criaram então um desfile cibernético com tudo o que tem direito: compositores de samba-enredo, carnavalescos, figurinistas, intérpretes etc. No site da Liesv , o resultado, segundo seus inventores, é "o maior espetáculo da tela".

"Começou como uma brincadeira, mas hoje todos levam a sério", explica Théo Valter Knetig, o vice-presidente da Liesv - cujo idealizador e fundador, em 2003, é o atual presidente de honra da Liga, o carioca Miguel de Oliveira Paul. Hoje a Liesv reúne escolas de vários Estados, como Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul, além dos já citados Rio Grande do Sul, Maranhão e São Paulo, e tem comunidade com mais de 600 membros no Orkut.

Os desfiles virtuais ocorrem entre os meses de julho e agosto, mas a preparação do espetáculo é assunto do ano todo e as apresentações podem ser vistas sempre que o internauta quiser. Os participantes tomam as decisões em reuniões realizadas em chats pelo programa de mensagens instantâneas Yahoo! Messenger. No dia dos desfiles, a transmissão online também é pelo serviço do Yahoo! Depois o resultado pode ser conferido no site da Liesv.

As fantasias e alegorias dos desfiles virtuais podem ser feitas com desenhos, fotos ou maquetes. O samba-enredo, que é cantado no dia da apresentação, é escolhido por meio de concurso e não pode ter a participação de integrantes da diretoria da escola nem de autores do enredo - que é o tema sobre o qual foi feita a música. O intérprete de uma escola não pode cantar o samba que compõe. Após a escolha do samba e de sua gravação, as músicas são compiladas no CD oficial da Liga, disponível no site.

No ano passado a campeã foi a União do Samba Brasileiro, que levou ao "sambódromo virtual" 38 alas, oito carros alegóricos, comissão de frente, velha guarda e quatro casais de mestre-sala e porta-bandeira. O site da Liga é mantido pelos integrantes e não busca lucro, segundo o publicitário Luiz Butti, representante do núcleo de divulgação e marketing da Liesv.

A rigor, não é necessário nenhum pagamento para disputar o carnaval virtual. Contudo, se a intenção é vencer o desfile com maquetes mais elaboradas, por exemplo, e um intérprete profissional, é possível que algum investimento seja feito. "Acho que acaba gastando uns 500 a 700 reais para fazer um desfile bonito, contando pagamento ao intérprete", estima Butti. "Mas dá para fazer um desfile sem gastar nada." A Imperatriz Paulista, da qual Butti é presidente, tem como intérprete Anderson Paz, puxador da Acadêmicos da Rocinha, escola "real" do Rio de Janeiro.

As escolas são obrigadas a respeitar rigorosamente os prazos para entrega do material do desfile. A comissão julgadora, formada de convidados que tenham alguma ligação com o carnaval, é responsável por atribuir as notas que determinarão o vencedor. Alguns dos avaliadores são profissionais. Alguns trabalham no carnaval de Campos, no Rio de Janeiro. Os quesitos são: samba-enredo, enredo, conjunto, alegorias e adereços, e fantasias.

As regras da Liesv nem sempre são bem aceitas por escolas. Algumas agremiações virtuais romperam com a Liga e fundaram outra liga, a Virtuafolia, criada em 2006. No site da Virtuafolia , todas as referências são relativas ao carnaval do ano passado. A reportagem tentou entrar em contato com representantes da liga, mas não obteve sucesso. Outras dissidentes também fundaram ligas menores.

Do virtual ao real

Por conta de suas características, a Liesv possibilita que integrantes revelem seu potencial artístico. Entre os diversos participantes amadores - compositores, cantores, carnavalescos e figurinistas - há casos como Luiz Eduardo Tannus. Ele começou a participar da Liesv em 2004, quando tinha 14 anos. Hoje estudante de Indumentária na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele foi à luta usando seus desenhos do carnaval virtual como portfólio.

Atualmente ele trabalha desenvolvendo figurinos para a escola Boi da Ilha, do Grupo de Acesso do carnaval do Rio de Janeiro. Na Liesv, é carnavalesco da escola Falcões da Serra. "Corri atrás de quem pudesse me indicar e, no ano passado, trabalhei como estagiário no ateliê do Samuel Abrantes (professor da UFRJ, figurinista de teatro e que trabalha com escolas de samba). Ajudei a fazer composições para a Vila Isabel, Salgueiro e Beija-Flor", conta Dudu Tannus, nome artístico de Luiz Eduardo. Também trabalhou até o início do ano na Viradouro, como estagiário, onde atuava na parte de figurinos.

No caminho inverso de Tannus há exemplos como o do carnavalesco Raphael Soares, profissional responsável pelo enredo da escola "real" Consulado do Samba - seis vezes campeã do carnaval de Florianópolis - e que posteriormente decidiu entrar também na disputa no mundo virtual: ele é carnavalesco da União do Samba Brasileiro, atual campeã da Liesv. "Acho que a liga virtual pode ajudar a lançar uma carreira. Sei que há um pessoal da (escola de samba paulistana) Águia de Ouro que assiste às transmissões. Outros da Gaviões da Fiel também às vezes aparecem", diz Luís Butti.

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