Em uma casa gelada, mãe, filho, filha, genro e empregada remoem suas angústias e vociferam verdades dolorosas, tornando a convivência familiar em uma sessão contínua de troca de insultos. A violência verbal e emocional é uma das marcas definitivas de O Pelicano, peça que estreia hoje no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.

Há muita semelhança com a forma como Nelson Rodrigues via a família, comenta Denise Weinberg, diretora da montagem. Os pensamentos são perversos e sofisticados.

Escrita em 1907 como uma peça de câmara, "O Pelicano" pertence ao grupo de textos com que o sueco August Strindberg (1849-1912) iniciava a militância por uma nova linguagem teatral - É a forma dramática densa, de confrontos entre seres humanos que não param para conceder ao espectador o alívio de uma mudança de tonalidade ou a diversão de uma frase espirituosa que persiste em grande parte da sua obra, como um procedimento aprendido com a poética naturalista, escreveu a crítica Mariangela Alves de Lima, em artigo publicado no Caderno 2 em 2000.

De fato, a mãe (Sheila Gonçalves) orgulha-se de ser uma espécie de pelicano para os filhos, ou seja, a ave que dá o próprio sangue para alimentar a cria. Na verdade, trata-se de uma mulher diabólica que, depois de apressar a morte do marido, casou a filha (Patricia Castilho) com seu próprio amante (Flavio Baiocchi), além de condenar o filho (Flavio Barollo) a um desespero alcoólico. Como testemunha da amoralidade e da avareza dessa família que, embora pobre, insiste em manter a aparência burguesa, está a empregada Margret (Mari Nogueira), há anos convivendo com a sordidez da casa.

Além de interpretar o papel do filho, Flavio Barollo é o produtor que viabilizou o projeto, que continua, agora com a intenção de realizar um longa-metragem. A montagem que estreia hoje foi convidada pela direção do Teatro Íntimo de Estocolmo para se apresentar lá em 2012, ano do centenário da morte do autor - afinal, foi "O Pelicano" que inaugurou aquele teatro, em 1907. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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