Após cinco meses separados, Dengo leva “bronca” de leoa

Em zoológico de Brasília, tratadores dizem que Elza rugiu um “agora não” ao rever o leão. Casal é mantido em jaulas vizinhas

Fred Raposo, iG Brasília |

Quando o leão Dengo entrou em uma das jaulas especiais do zoológico de Brasília, na tarde da última quinta-feira, a leoa Elza já o espiava por entre uma grade de ferro. Com cautela felina e um andar um tanto torto, devido a uma formação errada nos ossos, Dengo aproximou-se lentamente da ex-companheira, com quem conviveu por pelo menos cinco anos . No caminho, Dengo estranhou quando sua pata afundou levemente ao pisar a terra – sua jaula no zoológico de Niterói, no Rio de Janeiro, de onde chegara há poucas horas, era toda de concreto.

Superada a surpresa arenosa, o felino deu mais uns passos em direção ao pequeno portão metálico. Foi quando, para espanto de veterinários e tratadores que assistiram à cena, a leoa eriçou os pelos e soltou um rugido que levantou uma pequena nuvem da terra na frente de Dengo. Foi o suficiente para frear o avanço do rei das selvas, que recuou, recuou, até parar no meio do pátio e deitar-se sobre a própria barriga.

Fazia cinco meses que Dengo e Elza estavam separados por mais de 1.100 quilômetros. No zoológico fluminense, o casal de felinos, respectivamente com 11 e 10 anos, dividia a mesma jaula e intimidades peludas. A transferência de Elza foi marcada por um imbróglio animal. Por recomendação do Ibama , que considerou os recintos em Niterói inadequados, mais de 200 bichos foram levados para diversas partes do país. A leoa veio parar Brasília. Dengo ficou no Rio.

"O rugido dela não chegou a ser de ‘nunca mais’ ou ‘eu te odeio’. Foi um rugido de ‘agora não’”, explicou ao iG a bióloga Liane Cristina Carpi, uma das responsáveis pelo treinamento dos animais no zoológico da capital. “A reação dela foi de estranhamento, de não aceitar Dengo. Pelo menos no primeiro contato, não demonstraram ser o casal que viveu quase seis anos junto”.

Os veterinários brazilienses dizem que Elza se adaptou rapidamente à nova casa. Já Dengo teria sofrido com depressão, parado de comer e perdido peso no Rio, segundo os tratadores fluminenses. Dengo chegou em Brasília com 130 quilos e sua juba é profusa e volumosa. Entre os tratadores, porém, é possível ouvir definições como “tortinho” ou “desengonçado”, quando se referem a ele.

Criado em cativeiro, Dengo sofre de deficiência de cálcio nos ossos, o que faz com que seu corpo seja menor, mais “compacto” em relação aos demais felinos do mesmo porte – mesmo Elza é maior do que ele. Às vezes, Dengo passa a impressão de que sua cabeça - e, principalmente, o focinho avantajado – foi tirada do corpo de outro leão.

As pernas traseiras sofrem levemente do que se convencionou chamar “jarrete de vaca”- quando os tornozelos viram para dentro e as patas apontam para fora, como nos cães da raça buldogue. O perfil “exótico” de Dengo inclui uma prisão de ventre, devido a um estreitamento da bacia, além de ser portador, assim como Elza, do Vírus da Imunodeficiência Felina (FIV) – doença similar à Aids nos seres humanos.

Segundo os veterinários, no entanto, os sintomas da doença não se manifestaram em nenhum deles. Tantos problemas com Dengo, contudo, ensejam cuidados especiais. Em Brasília, ele foi posto sob uma dieta diferente dos demais felinos do zoológico. Enquanto os outros leões comem cerca de 10 quilos, três vezes por semana, Dengo é alimentado todo dia e come de 4 a 5 quilos por refeição.

Por enquanto, ele segue a mesma dieta de quando estava em Niterói: vísceras de frango. Aos poucos serão introduzidos alimentos gordurosos, como pele do frango, para ajudar a digestão, e carne vermelha. Depois de adaptado, passará a receber a mesma alimentação dos outros felinos.

Reaproximação

Até a semana que vem, Dengo será mantido em observação, para então começar o adestramento. Neste meio tempo, sua casa se resume a um recinto de 60 metros quadrados cada, vizinho ao de Elza. Desde que levou o primeiro “chega pra lá”, entretanto, Dengo não se arriscou a voltar ao portão que dá para o lado da ex-companheira.

“A ideia é ver se, com o tempo, haverá uma reaproximação. Até porque se colocarmos eles juntos e tiver briga não tem quem separe”, assinala a coordenadora de pesquisas do zoológico, Carolina Lobo. “É um trabalho de readaptação. Cinco meses longe é muito tempo. É uma forma de precaução. Se voltarão a ficar juntos, é imprevisível. Só o tempo dirá”.

    Leia tudo sobre: dengoelzazoológicoibamaleão

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG