Após 21 anos, jovem espera condenação do pai

Comerciante é acusado de matar ex-mulher, em 1989, por não admitir separação, e atirar contra filhos. Julgamento começa na terça

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

Em 12 de maio deste ano, a publicitária Nathália Just, de 25 anos, se preparava em silêncio para enfrentar o dia mais difícil de sua vida. Após mais de 21 anos, estava marcado para o dia seguinte o julgamento do assassino de sua mãe, Maristela Just. Pela primeira vez, ela ficaria frente a frente com o próprio pai, o comerciante José Ramos Lopes Neto, acusado de matar a ex-mulher e de atirar contra os dois filhos – então com dois e quatro anos – na casa do sogro, em Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana de Recife. Separado da mulher havia dois anos, ele decidiu matá-la por não se conformar com o divórcio, de acordo com a acusação.

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Nathalia, filha de Maristela Just, dá entrevista ao sair do Fórum de Jaboatão dos Guararapes, onde 1º Júri foi adiado
Dezoito dias se passaram desde o adiamento do julgamento – possivelmente o último de uma série de ações tomadas pela defesa para adiar uma possível condenação. Na ocasião, advogado e réu não compareceram ao Fórum de Jaboatão dos Guararapes (PE). Nathália estava engasgada.

Mas, diferentemente daquele dia, Nathália hoje fala sem medo. Com apoio de amigos e da internet, diz ter promovido uma mobilização para pedir a condenação do pai que não havia conseguido desde o dia do crime.

O apoio notado no dia do julgamento, segundo ela, aconteceu graças à repercussão do caso na internet, que praticamente resgatou a história do assassinato.

O novo Júri está marcado esta terça-feira, a partir das 9h. A previsão é que termina em três dias.
“Esse adiamento foi positivo. Foi o tempo necessário pra conseguir essa mobilização. Inicialmente, íamos nos pronunciar apenas depois do julgamento para nos preservar. Só com o adiamento vimos que tínhamos apoio da imprensa, das pessoas e das entidades”.

Nathália fala no plural. Fala por ela e pelo irmão, Zaldo, que, como ela, escapou com vida do ataque promovido pelo próprio pai – que classifica como um estranho. “Não sei como ele é. Dizem que é comerciante, mas quando era casado com minha mãe ele nem trabalhava. Para mim vão ser dois estranhos. Não existe vínculo afetivo nenhum. Ele nunca se aproximou. Foi sorte minha e do meu irmão nunca ter encontrado ele na vida. Nunca”.

Repercussão

Quando soube que o caso seria finalmente apreciado pela Justiça, em Júri previsto para ter início “entre maio ou junho” deste ano, Nathália decidiu, cerca de dois meses atrás, criar um blog para relembrar o episódio. Montou em formato PDF fotos de arquivo dos envolvidos e republicou as duas únicas referências encontradas no Google sobre a morte da mãe. Na segunda-feira à noite, quem procurasse notícias relacionadas sobre o caso, encontrava cerca de 40.000 referências. Um pouco antes do julgamento, ela conta, uma enquete feita no blog apontava que 70% das pessoas desconheciam o episódio. Hoje o blog possui mais de 30 mil acessos.

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Manifestantes realizam ato em frente ao Fórum de Jaboatão dos Guararapes
Parte da repercussão aconteceu graças a um contato feito pelo Twitter, microblog que Nathália mal sabia como funcionava até o início do ano, com a escritora Glória Perez. A autora de novelas, que teve uma filha assassinada no início dos anos 1990, publicou um “tweet” dizendo que considerava o caso uma “aberração”. Dali em diante, a repercussão do caso só aumentou – e fez com que a imprensa local aparecesse em peso ao fórum no dia do Júri, em 13 de maio.

Após o adiamento, e as primeiras entrevistas, Nathália diz que o apoio e as orações “só aumentaram”. Entre os apoiadores está Maria da Penha, mulher que ficou paraplégica após uma série de agressões do marido e que hoje dá nome à lei que tornou mais célere, e com penas mais duras, a punição a agressores contra mulheres. Em carta, Maria da Penha escreveu que conhecia a dor que a família da Nathália sente.

“Essa energia que estamos sentindo só se intensificou. É o dia que esperei em toda a minha vida. Mas estou forte, não estou ansiosa. A luta começa agora. Amanhã [terça] vai ser o primeiro passo”, diz Nathália.

Apesar da tragédia, Nathália diz ter vivido uma “infância maravilhosa” com a ajuda da família da mãe, que hoje luta para defender – quando morreu, Maristela tinha a mesma idade que hoje tem a filha. “Antes morria de vergonha e não fala sobre o assunto. Só depois, quando já tinha uma certa idade, que comecei a me perguntar: será que tenho primos?”, diz a publicitária, que hoje vive em São Paulo.

Embora revoltada com a impunidade, Nathália vê como ponto positivo o fato de o Brasil ter mudado a percepção em relação aos direitos das mulheres durante esses 21 anos. A família do pai até hoje defende a ação, alegando defesa da honra.

O pai do acusado, que Nathália se recusa a chamar de “avô”, já declarou à imprensa local que se o filho não tivesse cometido o crime não seria bem-vindo à sua mesa.

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Familiares fazem panfletagem na praia de Boa Viagem, em Recife
“Em 89, isso teria fundamento jurídico. E seria a palavra dele. Há 21 anos eles estão tentando passar uma certa imagem da minha mãe pra justificar o que ele fez. Agora, é muito fácil pintar e bordar em cima de quem já morreu. Encontrar meu pai vai ser horrível, mas vou defender minha mãe até o fim”.
A família que a criou, diz Nathália, estará em peso no julgamento. São 56 lugares entre o público que acompanhará o Júri, enquanto, segundo ela, a ala da defesa “estará vazia”.

“Independentemente de ele ser condenado ou absolvido alguém vai recorrer. Ou ele recorre ou eu recorro. Mas é um primeiro passo desses 21 anos. O primeiro ato simbólico. Nunca houve banco de réus para eles. Somos o único caso do Brasil que levou tanto tempo [para ser julgado]”.

O caso

Após o crime, o comerciante foi preso em flagrante e passou cerca de um ano detido no presídio Aníbal Bruno, em Tejipió. Foi liberado por meio de um habeas corpus. Em junho de 2001, o então juiz da 1ª Vara do Júri de Jaboatão, João Roberto Moreira, divulgou a sentença de pronúncia do comerciante. A expectativa era que o julgamento ocorresse naquele ano, o que não aconteceu.

Novo julgamento deveria ter sido realizado em 13 de maio deste ano, mas foi adiado em razão da ausência do advogado de defesa, Humberto Albino de Morais. Lopes Neto também não compareceu ao próprio julgamento. Desde então, a Defensoria Pública assumiu o caso, a pedido da juíza do caso, Maria de Albuquerque, da Vara do Tribunal do Júri de Jaboatão. Por não ter justificado a falta à época, o advogado foi multado em R$ 25,5 mil por determinação da juíza.

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