Apetite do PMDB no Senado ameaça partido na Câmara

Por Fernando Exman BRASÍLIA (Reuters) - A disputa entre o PMDB e o PT pela presidência do Senado tem potencial para fragilizar a candidatura do peemedebista Michel Temer (PMDB-SP) ao comando da Câmara. Ciente do risco, Temer, que preside o partido, tenta demover os senadores de sua legenda, mas alguns ainda resistem a abrir mão do comando do Senado.

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Em uma reunião no início da semana, Temer perguntou ao ex-presidente da República José Sarney (PMDB-AP) se ele pretendia voltar à presidência do Senado. Como a resposta que ouviu foi negativa, acertou-se que o líder do governo na Casa, senador Romero Jucá (PMDB-RR), passaria a costurar o apoio da bancada à candidatura do petista Tião Viana (AC) para a eleição marcada para fevereiro.

Entre os peemedebistas, no entanto, não há consenso sobre o assunto. "Não estou sabendo de nada. Isso não passou pela bancada", afirmou à Reuters o líder do PMDB no Senado, Valdir Raupp (RO). "Dentro da bancada, a decisão está mantida."

Segundo Raupp, Sarney tem dito com freqüência que não será candidato, mas poderá mudar de idéia. Além disso, o partido tem outras alternativas, incluindo o retorno dos ministros Hélio Costa (Comunicações) e Edison Lobão (Minas e Energia) ao Senado para entrar na disputa.

"O presidente Sarney nunca falou que é candidato. Quem não é candidato de repente pode ser, e a bancada tem 20 senadores", ressaltou. "Se em uma reunião da bancada ninguém quiser se candidatar, aí abre-se definitivamente a possibilidade de apoiar outro candidato", acrescentou o líder do PMDB.

Se fosse candidato, Sarney teria o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Como vem negando essa possibilidade, o presidente passou a fazer campanha para Viana, que sofre resistências de parte da oposição e de alguns senadores governistas.

CANDIDATURAS DISSIDENTES

A candidatura de Temer, por sua vez, tem como lastro o acordo fechado há dois anos entre o PT e o PMDB, segundo o qual as duas siglas se revezariam na presidência da Câmara. Como Arlindo Chinaglia (PT-SP) presidiu a Casa nos dois últimos anos, os petistas devem apoiar Temer na eleição de fevereiro.

A indefinição dessa situação colocou em xeque a eleição de Temer. Pelo menos outros três deputados que se lançaram na disputa pela presidência na Câmara passaram a apostar em uma reação dos demais partidos à possibilidade de o PMDB comandar as duas Casas do Legislativo: Ciro Nogueira (PP-PI), Milton Monti (PR-SP) e Osmar Serraglio (PMDB-PR), que, apesar de ser correligionário de Temer, mantém uma candidatura dissidente.

"Esse problema do Senado pode atrapalhar o Michel", declarou Nogueira à Reuters. "Hoje eu ganharia a eleição. Mas, a eleição é daqui a dois meses, e o cenário pode mudar."

Ciro Nogueira é considerado um herdeiro político do ex-presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), que teve de renunciar ao cargo e ao mandato depois de ser acusado de cobrar propina do dono de um dos restaurantes instalados na Casa. Assim como Severino, Nogueira é ligado ao expressivo número de deputados que não conquistaram expressão na política nacional -- o chamado "baixo clero". Severino foi eleito em 2005, depois que a base do governo não se uniu em torno de uma candidatura única.

Milton Monti tem a mesma percepção e se coloca como uma "terceira via" para os colegas que não quiserem votar em Temer ou Nogueira. "Sinto que as coisas no Senado estão consolidadas para ser PMDB e há uma reação que não é contra pessoas", disse à Reuters, em relação às dificuldades enfrentadas pelo futuro adversário.

Já Serraglio se lançou na disputa para enfrentar as decisões da cúpula do PMDB, que em sua opinião muitas vezes se impõem sobre as vontades dos parlamentares do partido. "Eu sou dissidente e vou avulso. O Michel tem dificuldades", afirmou à Reuters. "Embora seja muito educado e respeitoso, o Michel não tem muito contato com os deputados."

Perguntado sobre sua campanha, Temer desconversa. "As coisas vão indo muito bem, mas ainda faltam dois meses. Tem muita coisa para acontecer. Vamos esperar o futuro", disse à Reuters.

(Edição de Mair Pena Neto)

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