Apenas 10% das vítimas de AVC passam por reabilitação imediata

Demora no tratamento compromete a recuperação do paciente e aumenta o risco de sequelas definitivas

Bruno Folli, iG São Paulo

Thinkstock / Getty Images
Paciente passa por exercício de reabilitação para recuperar os movimentos do braço
Apenas uma em cada dez vítimas de lesão na medula ou de AVC (acidente vascular cerebral) passa por tratamento de reabilitação na fase aguda, período compreendido pelos 60 dias após o incidente.

Sem este atendimento, o risco de sequelas definitivas é maior. E mesmo quem pode se recuperar acaba passando mais tempo em reabilitação na fase crônica, depois que o quadro clínico estabilizou.

Os dados são da Associação Brasileira de Medicina Física e Reabilitação, que fez um alerta para o problema na semana passada, dia 21, durante congresso em São Paulo.

“É na fase aguda que o paciente pode trabalhar por melhores resultados no futuro”, ressalta a fisiatra Marta Imamura, presidente da Associação. Mas ela lamenta que muitos dos pacientes acabam entrando na reabilitação tarde demais. “Alguns esperam até seis meses para iniciar o programa”, afirma.

Tratamento imediato

As medidas para ajudar vítimas de AVC e de lesões na medula são simples. “É preciso manter a força muscular que elas ainda não perderam”, ressalta a fisiatra Priscila Guarino, responsável pelo ambulatório de lesão da medula, no Instituto Lucy Montoro. AVC e lesões na medula provocam danos imediatos na capacidade de movimentos da pessoa. Durante a recuperação, o paciente passa muito tempo imóvel. “Isso é perigoso”, alerta a fisiatra.

Sem se mexer, a pessoa perde massa muscular e também sofre um processo chamado de encurtamento da musculatura. Este encurtamento é considerado uma deformidade muscular que, em muitos casos, não há como reverter. “Isso pode ser evitado com exercícios de fisioterapia”, diz a médica.

Infecções

Outra medida importante é mudar o paciente de posição constantemente, no caso dele estar acamado. “Isso evita feridas na pele que podem se tornar infecções”, alerta Priscila.

Estas infecções podem agravar o quadro clínico do paciente e dificultar ainda mais a recuperação.

Em pacientes com lesão na medula, a médica explica que não é difícil haver repetidas infecções por problemas urinários. “É outro ponto que requer muita atenção, pois pode dificultar bastante o trabalho de reabilitação”, afirma.

Problemas cognitivos

Uma das maiores dificuldades para trabalhar a reabilitação do paciente acontece quando ele sofre alguma perda cognitiva. “A reabilitação é uma parceria entre o trabalho do médico e a colaboração do paciente. Quando ele sofre alterações cognitivas fica mais difícil explicar como proceder na recuperação”, explica a fisiatra.

Outra agravante comum é a síndrome metabólica, especialmente em pacientes que sofreram AVC. Isso porque o incidente muitas vezes é resultado de combinações perigosas, como má alimentação, pressão alta, obesidade e diabetes. “Estes problemas dificultam a estabilidade do quadro clínico, o que pode prejudicar o andamento da reabilitação”, aponta.

O AVC, popularmente conhecido como derrame, figura entre as principais causas de morte no País há anos. Ao lado de outras doenças vasculares cerebrais, como aneurismas e malformação, o AVC soma quase 100 mil ocorrências anuais.

E este número deve crescer por causa do envelhecimento da população e pela falta de atendimento apropriado. Uma estimativa recente de especialistas em geriatria e gerontologia aponta que faltam 8.800 geriatras no País .

Outro fator de risco grave é o excesso de peso, que também está aumentando na população brasileira. Um levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgado no final de agosto, revela que excesso de peso e obesidade juntos atingem cerca de 60% dos brasileiros .

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