Aos 80 anos, Cinédia começa a digitalizar acervo

Uma das primeiras companhias de cinema do País, com 700 curtas e médias-metragens e 56 longas na bagagem, a Cinédia comemora 80 anos na segunda-feira e anuncia o início do trabalho de digitalização de parte do seu acervo de fotografias e documentos históricos, além de uma série de cursos sobre cinema no Rio de Janeiro. Um ciclo de filmes da casa está prometido para o fim do ano no Instituto Moreira Salles.

Agência Estado |

Segundo a diretora Alice Gonzaga, filha do fundador da produtora, o jornalista Adhemar Gonzaga, o aniversário da Cinédia está sendo lembrado também nos bilhetes de loteria do dia 20 de março, que trazem a imagem das irmãs Aurora e Carmen Miranda em "Alô Alô Carnaval". O filme, de 1936, traz a famosa cena em que Carmen Miranda e sua irmã Aurora interpretam "Cantoras do Rádio", vestidas com fraques, cartolas e calças de tecido brilhante ¿ figurino ousado para a época e criado pela própria Carmen.

Autora de livros sobre cinema, entre eles "50 anos de Cinédia", a pesquisadora e empresária Alice cresceu inteirada das discussões e decisões de seu pai sobre a produtora, "mas sem maiores responsabilidades". "Sempre trabalhei no arquivo, que era um trabalho que uma mulher poderia fazer naquela época. Depois, lá por volta de 1966, virei acionista e meu marido teve de fazer uma autorização em cartório para isso", lembra. "Mas só quando meu pai adoeceu é que eu assumi oficialmente a produtora".

A partir da década de 1970, sob o comando de Alice, o foco da Cinédia passou ser a preservação do acervo. A diretora já esteve à frente da restauração e recuperação de cerca de 20 clássicos do cinema nacional, entre eles "Mulher" (1931), de Octavio Gabus Mendes.

Atualmente, desenvolve projetos de restauração de "Bonequinha de Seda" (1936), de Oduvaldo Viana filho, "Berlim na Batucada" (1944), de Luiz de Barros, além de cinco filmes do diretor, produtor, diretor de fotografia e montador Moacyr Fenelon, realizados entre 1948 e 1951 ¿ "Obrigado, Doutor", "Estou Aí?", "Poeira das Estrelas", "Dominó Negro" e "A Inconveniência de Ser Esposa". "São filmes exibidos apenas em mostras e festivais, porque as TVs não se interessam por material em preto e branco, mas são filmes cult, que contam a nossa história", afirma.

Instituto

Para ampliar o trabalho de preservação de acervos fílmicos, como o de Fenelon, foi criado há 13 anos o Instituto para Preservação da Memória do Cinema Brasileiro, que Alice preside. Em agosto, o Instituto prepara a Mostra Fenelon, com os filmes recém-restaurados e, em seguida, recebe o acervo do ator e diretor Ronaldo Lupo para restauração.

Por esse trabalho de preservação da cultura nacional, Alice recebe ainda este mês um prêmio da Academia Brasileira de Cinema. "A preservação representa um investimento em organização, tratamento físico, catalogação e armazenamento. É um trabalho minucioso, elaborado e estressante. A Cinédia se mantém com a venda de fotos e trechos de filmes. Temos um acervo para manter, é um acervo de 80 anos. Meu pai já juntava documentos e papéis antes de fundar a Cinédia", diz ela.

Alguns dos filmes do auge da produtora não existem mais como película, outros contam apenas com trechos, mas todos estão documentados em fotos. "Nesse momento eu queria encontrar 'Aguenta Firme', 'Isidoro', que é dos anos 50", diz ela. Alice costuma pedir a colecionadores e cinéfilos que cedam, vendam ou troquem suas cópias de material da produtora para que os filmes sejam completados. "Um filme acaba completando o outro. '24h de Sonho', por exemplo, de quatro cópias fizemos uma inteira."

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