Aos 50 anos, Islamabad enfrenta desordem e busca identidade

Igor G. Barbero.

EFE |

Islamabad, 28 mar (EFE).- No ano em que completa meio século, Islamabad, capital do Paquistão, se consolida como uma cidade moderna e funcional, mas cresce sem direção nem identidade claras, afastada da realidade do país e vulnerável.

Desenhada em 1960 pelo arquiteto e urbanista grego Constantinos Dioxadis, Islamabad (lugar onde habita o Islã) nasceu pensada para evitar lutas locais pela capital, numa zona estrategicamente segura e com um clima mais ameno, cercada de lagos e colinas não muito distantes do Himalaia.

Desde então, a cidade se desenvolveu como um centro de frenéticas atividades políticas e diplomáticas, embora órfã de vida cultural e vigor financeiro.

Alguns críticos dizem que Islamabad não é mais que uma bolha separada do país pelos 14 quilômetros que a distanciam da movimentada Rawalpindi.

"Em termos de qualidade de vida nesta parte da Ásia e no Paquistão, é talvez uma das melhores cidades. É ordenada, com muitas áreas verdes, com serviços, pouco poluída. Mas segue carecendo de uma identidade própria", disse à Agência Efe Humayun Khan, do governamental Instituto de Estudos Estratégicos.

Segundo Khan, ainda há poucas pessoas que podem ser consideradas de Islamabad, ponto de encontro de trabalhadores de todas as etnias e lugares do país.

O boom demográfico da capital paquistanesa é bem recente. Apenas nos anos 80 os habitantes da área urbana superaram os das zonas rurais no território de Islamabad, de 906 quilômetros quadrados.

Desde então, o crescimento populacional foi superior a 5% ao ano, o dobro da média do Paquistão. Com isso, a cidade passou de 340 mil para mais de 800 mil habitantes em 1998 (data do último censo), e algumas estimativas indicam que o número ronde hoje 1,5 milhão.

"Minhas lembranças de dez, quinze anos atrás são de que aqui era um povoado tranquilo. Agora se constroi muito, se arrancam muitas árvores", disse à Efe Sabeen Zafar, moradora da capital.

A tendência de crescimento vertiginoso e desordenado é, segundo especialistas, a raiz dos problemas que despontam em uma cidade que nasceu planificada, com setores e subsetores nomeados por letras e funções.

"A cidade enfrenta problemas graves no futuro imediato, de escassez de água e de trânsito, a não ser que se construa um metrô ou se projetem soluções alternativas", disse à Efe o engenheiro Shabbir Malik, que na última década dirigiu projetos de desenvolvimento urbanístico.

Opinião parecida é a do arquiteto Naeem Pasha, para quem a construção privada se desviou do esquema inicial e a cidade sofre co, uma edificação em massa nos arredores, em parte pelos altos preços dos terrenos no centro.

Se há algo que caracteriza Islamabad, onde a taxa de alfabetização (72%) é 30 pontos superior à média nacional, é ter crescido como uma densa área de poderosos no centro alterada apenas por algumas 'ilhotas de gente' nos arredores.

O aluguel de casas, frequentemente com jardins e terraços, costuma superar os US$ 1 mil de renda per capita do país, preços devidamente inflados pela presença estrangeira.

Também não existe uma boa oferta de transporte público, em parte porque o símbolo por excelência da mobilidade no sul da Ásia, o autorickshaw (triciclo usado sobretudo como táxi), é proibido na cidade.

Há carros usados como táxis, mas os menores, como o Suzuki Mehran amarelo, não podem entrar na chamada zona vermelha, um enclave cada vez mais protegido.

Ali estão prédios oficiais e embaixadas, protegidos por fortes medidas de segurança, que, no entanto, ainda não conseguiram deixar a moderna capital imune à violência terrorista que atinge o Paquistão. EFE igb/rr

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