SÃO PAULO ¿ Neste domingo São Paulo completa 455 anos, e um dos aspectos que mais pesam sobre o futuro da cidade e dos seus mais de 11 milhões de habitantes é a questão ambiental. Segundo levantamentos da Prefeitura e da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMMA), a área verde da cidade é de aproximadamente 40% do território, número que deve oscilar nos próximos anos por conta de uma série de cortes de árvores para aliviar o trânsito e reflorestamentos para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos.

Segundo os dados da prefeitura, a área verde de São Paulo tem apenas 21% de mata nativa ¿ os outros 19% são referentes a qualquer vegetação, como jardins, parques, canteiros e eucaliptos. Porém, os dados são de 2003. Segundo informações mais recentes do Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, houve um aumento do desmatamento da vegetação nativa da Região Metropolitana entre 2005 e 2008. Neste período, 437 hectares foram suprimidos, ou seja, quase 437 campos de futebol de mata desmatada.

É uma corrida de Sísifo, evocando o a história da mitologia grega. No mito, Sísifo é condenado pelos deuses a levar uma pedra ao alto de um morro, mas a pedra sempre volta ao começo antes que ele cumpra o objetivo.

O índice, divulgado pela Fundação SOS Mata Atlântica e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), é nove vezes maior do que o medido no período anterior, entre 2000 e 2005, quando o número foi de 48 hectares. De acordo com os dados do Atlas, quase metade dessas ocorrências aconteceu na região da Cantareira, na região norte da capital, cuja bacia é responsável por abastecer mais da metade da população da região metropolitana de São Paulo.

Outros 201 hectares de desmatamento foram causados pela construção do Rodoanel (veja imagens abaixo). Esta perda de vegetação está diretamente relacionada com a implementação do Rodoanel sobre as áreas de mananciais [no trecho sul], onde está a maior parte de mata nativa remanescente, aponta a arquiteta Marussia Whately, do Instituto Socioambiental (ISA).

Porém, nos últimos anos, as sucessivas administrações na capital paulista vem trabalhando para aumentar a área verde da cidade.

Marussia afirma que, apesar dos efeitos limitados, os esforços para ampliar a área verde da cidade ajudam, ao menos, a melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. Ela aponta o Programa Arborização Urbana, que faz o plantio de 150 a 170 mil árvores por ano, e o Projeto 100 parques como boas iniciativas. Nos últimos três anos, o número de parques saltou de 37 para 50. Diminuiu a quantidade de subprefeituras que não tinha nenhum parque, e isso é muito bom para a população. Há uma agenda de implementação que deve ser cumprida para chegarmos numa melhoria efetiva da vegetação, avalia Marussia, que, no entanto, faz uma ressalva.

Ela afirma que as áreas implantadas, como jardins, praças, parques e canteiros, não necessariamente contribuem para o conforto térmico e a qualidade do ar.

Google Maps / Área aproximada da cidade de São Paulo

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Para Renato Tagnin, especialista em planejamento urbano e professor de gestão ambiental do Centro Universitário SENAC, de São Paulo, é possível detectar apenas um aumento localizado da área verde na cidade. A tendência histórica é de expansão urbana sobre a vegetação pré-existente. Cada vez está mais difícil identificar a transição de um município para o outro na grande São Paulo. As regiões metropolitanas também estão se aproximando. Essa expansão dos usos humanos sobre as áreas verdes nitidamente reduz a vegetação, explica Tagnin.

Ainda segundo Tagnin, quando um local torna-se acessível, por meio de transportes rodoviários, principalmente, a procura imobiliária aumenta. Com as melhorias decorrentes do acesso à região, a especulação imobiliária aumenta e a população pobre acaba mudando para bairros mais distantes.

O maior prejudicado neste processo é a sociedade como um todo, porque os serviços prestados pela mata deixam de ser prestados, como a purificação do ar. Este preço será muito mais salgado para as gerações futuras, alerta ele. 

Essa é a principal crítica feita pelos ambientalistas em relação ao Rodoanel.  Como o anel rodoviário passa por áreas mananciais de mata nativa, cortando parte da cidade e alguns municípios da região metropolitana, a tendência, apontam especialistas, é que as regiões do entorno sofram com possíveis desmatamentos provocados pela expansão imobiliária.

O modelo de crescimento, do ponto de vista de sustentabilidade ambiental, precisa ser revisto, avalia Marussia. Segundo a arquiteta, os principais problemas ambientais de São Paulo decorrem da expansão da cidade. Com os empreendimentos imobiliários indo cada vez mais para as áreas periféricas, a população passa a fazer deslocamentos maiores. Sentimos o reflexo no trânsito, no aumento da frota de carros, na poluição do ar. Além disso, a expansão segue em direção a áreas frágeis, como os mananciais.

Google Maps

Área desnatada pelo Rodoanel na zona sul de São Paulo
Área desnatada para o Rodoanel na zona sul de São Paulo

Águas e mananciais

Hoje, a região metropolitana de São Paulo possui uma das menores disponibilidades hídricas por habitante do País, em torno de 203 m³/habitante/ano (índice oito vezes menor do que o considerado crítico pela ONU). Para evitar novas ocupações e proteger as áreas de mananciais, a prefeitura e o Estado de São Paulo têm a Operação Defesa das Águas, que conta com rondas diárias da Guarda Ambiental Municipal nas represas Guarapiranga e Billings.

Temos a comemorar a intensificação da fiscalização das áreas de mananciais, por parte da prefeitura, em relação às irregularidades, mas, infelizmente, o procedimento não vem sendo acompanhada pelos outros municípios da região, afirma Marussia, pesquisadora da região.

Segundo Fernanda Bandeira de Mello, assessora de Projetos Especiais da Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo e responsável pelo Projeto Estratégico Mananciais, os problemas das áreas de mananciais da região metropolitana de São Paulo são as ocupações irregulares que se fizeram ao longo do tempo. Isso culminou numa situação muito precária, de moradia e saneamento, que comprometeu a qualidade do manancial, conta Fernanda.

Segundo a coordenadora, o projeto tem como objetivo acelerar as ações já em curso nas áreas de manancial e informar a população sobre os que aquela situação não pode se perpetuar, sob pena de comprometer o abastecimento da região como um todo. Precisamos que as áreas das bordas dos mananciais possam estar livres de ocupação e de esgoto, para que elas funcionem como coletores, filtros de drenagem natural das águas da chuva, de maneira que o manancial esteja em condições de abastecimento, afirma.

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