Aos 25 anos, MST vê na crise chance de mais ocupações

Por Carmen Munari SÃO PAULO (Reuters) - O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, conhecido pela combatividade na luta pela reforma agrária, comemora 25 anos este mês com uma aposta arrojada, a de que a crise financeira internacional deve funcionar como incentivo para impulsionar as ocupações de terra.

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Com as dificuldades que atingem os grandes proprietários, como a queda do preço da commodities, o movimento acredita que as áreas improdutivas vão se proliferar tornando-se presa dos acampados que aguardam pela reforma agrária.

"Em 2009 vamos potencializar a luta. Com a crise, o modelo do campo vai parar de crescer, gerando grandes terras improdutivas. E latifúndio improdutivo é terra ocupada", disse à Reuters Messilene da Silva, da coordenação nacional do MST.

O raciocínio faz parte da lógica dos sem-terra de que o maior inimigo ao avanço da reforma agrária no país é o agronegócio.

As organizações de sem-terra e pesquisadores especializados no tema acreditam que a ampliação do plantio de produtos agrícolas com grande participação no mercado internacional, como a soja, impedem a distribuição social da terra.

A participação cada vez maior das empresas estrangeiras na agricultura é outro impeditivo, segundo o movimento. Se este modelo se enfraquece, os sem-terra podem avançar, avalia o

MST.

A política de assentamento de famílias praticada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva também é fonte de decepção para o MST, que vê na administração petista uma aliança com o modelo agrícola vigente.

"A reforma agrária tem tido poucos avanços, diante da nossa expectativa. O governo divulga balanços, mas concretamente há poucos avanços. Deixou de ser pauta do governo e da sociedade. A prioridade é o agronegócio", afirmou Messilene Silva.

O MST, filiado à organização internacional Via Campesina, apoiou a eleição do presidente Lula em 2002, mas na reeleição, em 2006, aderiu apenas no segundo turno. Segundo seus dirigentes, a organização procura manter independência em relação ao governo e ao mesmo tempo manter aberto um canal de diálogo.

Como resume João Pedro Stédile, um dos principais líderes do MST, em um artigo desta semana, "não houve reforma agrária durante o governo Lula. Ao contrário, as forças do capital internacional e financeiro, através de suas empresas transnacionais, ampliaram seu controle sobre a agricultura."

CRÍTICOS

De 2003, primeiro ano do presidente Lula, a 2007, foram assentadas 449 mil famílias, segundo dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Houve um pico de 136,3 mil famílias em 2006 e apenas 67,5 mil em 2007. Os números do ano passado serão divulgados este mês, mas, segundo o MST, 2008 terá o pior desempenho dos últimos anos, com estimativa de 20 mil famílias assentadas.

Na estimativa do geógrafo Bernardo Mançano Fernandes, professor da Unesp e estudioso da questão da terra, o movimento do campo tem perspectiva de crescimento em todo o mundo em função da grande necessidade de assentamento de famílias.

Pelos seus cálculos, existem no Brasil 1 milhão de famílias já assentadas e há 7 milhões à espera de terra. Neste total, ele inclui pessoas do campo, bóias-frias e população desempregada ou do setor informal urbano.

O presidente da Sociedade Rural Brasileira, Cesario Ramalho, que representa os grandes proprietários, disse que o movimento pela terra se tornou uma questão puramente ideológica, contrária ao produtor rural.

"Sempre fomos críticos da reforma agrária", disse Ramalho, apesar de o tema constar da Constituição de 1988.

Ele admite que a queda de até 40 por cento no preço das commodities em decorrência da crise financeira global nos últimos quatro meses pode levar à redução da área plantada.

"Vai liberar área para eles (sem-terra). Então temos que buscar outra utilização para as terras", afirmou.

FESTA E FRAGMENTAÇÃO

Criado em 1984, o MST comemora os 25 anos com um ato em 24 de janeiro na fazenda Annoni, com a participação de políticos, representantes da sociedade civil e da Igreja. Foram convidados autoridades, como governadores, mas o governo federal não faz parte da lista.

A fazenda Annoni, em Sarandi, no Rio Grande do Sul, é o local da primeira ocupação organizada pelos sem-terra, em 1981. Três anos depois, os militantes se reuniram em Cascavel (PR) e fundaram o MST com representantes de 13 Estados.

A organização representa hoje cerca de 1,5 milhão de sem-terra, incluindo 120 mil famílias acampadas, à espera da terra, e 370 mil famílias assentadas. Apesar dos números, o MST se ressente da proliferação de organizações sociais no campo que, segundo a direção, enfraquece a luta como um todo.

"Eu acho que não é fragmentação, é diversidade e democracia", analisa Mançano, que conta 93 movimentos no gênero. Ainda assim, o MST tem a metade da representação dos sem-terra.

Principal instrumento de pressão dos sem-terra, as ocupações mantiveram uma trajetória estável no governo Lula, com um pico em 2004. Dados coletados pelo grupo do professor da Unesp indicam 703 ocupações em 2004 e cerca de 500 em cada um dos outros anos. Desde 1988, quando a pesquisa teve início, o maior número de ocupações ocorreu em 1999, no segundo governo de Fernando Henrique Cardoso, com 903.

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