Ao valorizar mulheres com nanismo, estilista propõe moda democrática

Ao valorizar mulheres com nanismo, estilista propõe moda democrática Por Ciça Vallerio São Paulo, 04 (AE) - À primeira vista, A Moda Está em Baixa é apenas o nome da coleção criada pela estilista Carina Casuscelli, feita exclusivamente para mulheres com nanismo. São roupas descoladas e elaboradas com as medidas apropriadas para quem tem em média 1 metro de altura - umas menos e outras poucos centímetros mais.

Agência Estado |

Mas a grife das pequenas, como as anãs preferem ser chamadas, tem propositalmente duplo sentido: por trás dos modelitos, Carina, que tem em seu currículo prêmios importantes, transformou seu negócio em uma maneira de contestar a camisa de força que a moda impõe à beleza.

"A diversidade feminina é desprezada na moda", ressalta a criadora da marca de 31 anos, que também é atriz e diretora de teatro, videomaker, maquiadora e figurinista. "O padrão de beleza é tão forte que as mulheres não se sentem à vontade com seus corpos e suas características." O resultado disso é a eterna insatisfação. O pior, no entanto, é vivenciado pelas mulheres com deficiência física que sequer são lembradas, uma legião invisível, apesar de ter poder de compra e desejos de consumo.

Para Carina, ao não abrir espaço para essa fatia - que incluem pequenas e cadeirantes, por exemplo - a moda está perdendo a conexão com suas consumidoras. "Muito mais legal do que padronizar, é dar espaço ao que chamo de democratização dos corpos", ressalta a estilista, fã do universo do cineasta Pedro Almodóvar, povoado por personagens excêntricos.

A aposta na inclusão também rende dividendos. A partir da propaganda boca a boca, a marca virou objeto de desejo de mulheres não-portadoras de deficiência e até de homens. Isso mesmo, marmanjos que descobrem as camisetas com estampas estilizadas de anã e passam a desfilar pelas ruas paulistanas sem preconceito. Elas, por sua vez, curtiram tanto a proposta de Carina que abraçaram a causa encomendando modelitos desenhados para qualquer tipo de corpo (e curvas).

A grife surgiu oficialmente no ano passado. Tinha apenas alguns vestidos e camisetas. Mesmo sem ter ponto fixo de venda - pelo menos por enquanto - Carina vende tudo. Em maio, ela se prepara para lançar a segunda coleção, intitulada Cabaré, em um desfile com pequenas e cadeirantes no Teatro Commune.

MUSA

A modelo número um da marca e musa inspiradora de Carina é a atriz Priscila Menucci, de 34 anos. Amigas de longa data do teatro, Carina começou ajudando-a a escolher roupas, por causa da dificuldade que tinha - e ainda tem - em encontrar peças bacanas que coubessem nos seus 91 centímetros de altura. "O que me salvou foram as roupas infantis quando passaram a ser cópias de modelos de adulto", conta Priscila, que é supervaidosa e nunca sai de casa sem estar nos trinques. "Mas o difícil mesmo é encontrar roupa para sair à noite, porque não dá para usar vestido de boneca com babadinho."

Juntas, as duas amigas começaram a pesquisar sobre nanismo e, com a orientação do médico especializado João Tomazelli, levantaram as necessidades desse grupo. Hoje, mesmo sem dados oficiais, estima-se que 1% da população brasileira convive com o problema. O que representaria quase dois milhões de pessoas. Entre um estudo e outro, aprenderam que as roupas necessitam de um cuidado todo especial.

Anões não podem, por exemplo, usar peças com tecidos que impedem a transpiração, explica Carina. Isso levaria a um superaquecimento corporal, causando pressão alta e taquicardia. Também não é aconselhável vestir peças apertadas, especialmente nas pernas, porque aumenta ainda mais a dificuldade de caminhar nas suas passadas já curtas. Outro problema: por terem medidas bem diferenciadas nos troncos, braços, seios, quadril e, principalmente, bumbum, é impossível padronizar a produção com os tradicionais tamanhos P, M e G.

"A modelagem é exclusiva e feita sob encomenda", avisa a estilista. "Mas do mesmo jeito que adapto para as pequenas, tenho feito para todo tipo de mulher porque esta é uma moda democrática."

E A MÍDIA?

"Não adianta, porém, fazer roupa sem retratar as diferenças também na publicidade", diz Carina. "Mas são poucos os que têm coragem de ir contra a maré".

Um exemplo que deu voz à diversidade foi a grife italiana Nolita que, em 2007, apostou em uma cadeirante e numa fisiculturista como garotas-propaganda. Depois, usou a imagem de uma anoréxica como uma forma de alertar para o problema.

Com a ideia na cabeça e seu projeto embaixo do braço, Carina iniciou uma peregrinação entre empresários da moda e fabricantes de cosméticos para convencê-los a colocar pessoas com deficiência nas campanhas publicitárias. Alguns nem chegaram a atendê-la, outros diziam que não queriam suas marcas associadas a anãs. Outros falavam que era bizarrice. "Até que resolvi ter minha própria grife e transformar minha amiga Priscila no meu maior cartão postal."

Priscila, que é casada e tem um filho de 3 anos, comemora. Além de trabalhar como atriz na Rede Bandeirantes, prepara-se para interpretar no teatro a história real de uma anã que sobreviveu ao Holocausto. A peça chama-se "Lembranças de Perla", deve estrear no segundo semestre e o texto é de Carina.

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