Ao receber laudo, delegado afirma que não houve tiroteio em morte de menino no Rio

RIO DE JANEIRO - O delegado Walter de Oliveira, titular da 19ª Delegacia de Polícia (DP) do Rio, na Tijuca, zona norte da capital fluminense, afirmou nesta quinta-feira estar convicto de que não houve tiroteio entre os policiais militares envolvidos na morte do menino João Roberto Amorim Soares, de 3 anos, e os criminosos que haviam roubado um Fiat Stilo, no domingo. Oliveira recebeu o laudo do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) sobre o Palio Weekend da advogada Alessandra Amorim Soares, mãe de João.

Redação com Agência Estado |


O carro onde estava o menino foi atingido por 17 disparos - seis na traseira e 11 na lateral, segundo o laudo. O pára-brisa foi acertado por três fragmentos, mas só um perfurou o vidro.

"Não houve impacto na parte dianteira. Está confirmado que não houve troca de tiros", disse o delegado.

Segundo Oliveira, o parecer confirma o que as imagens feitas por câmeras de segurança de prédios próximos ao local do crime mostravam. "O Fiat Stilo passa em alta velocidade. Três outros veículos seguem atrás dele e só então o carro das vítimas encosta. Não houve troca de tiros."

O delegado informou que enviará os fragmentos para exame de balística, mas afirmou achar pouco provável que os peritos consigam determinar o calibre da arma. Os projéteis estão muito fragmentados.

Protesto

Cerca de 150 manifestantes participaram no Rio de um protesto em repúdio à morte de João Roberto nesta tarde. Colegas da mãe de João, a advogada Alessandra Amorim Soares, taxistas, profissão do pai dele, Paulo Roberto Soares, e parentes de vítimas da violência reuniram-se em frente ao prédio da Justiça Federal, na Rua do Acre.  

Muitos traziam cartazes em que recusavam "pedidos de desculpa e frases feitas" do governo do Rio.

Desabafo do pai

Na segunda-feira, o pai da criança, o taxista Paulo Roberto Amaral, de 45 anos, fez um desabafo emocionado na porta do hospital, onde o filho estava internado. Eu sou taxista e estava trabalhando no domingo para juntar um dinheirinho para o aniversário dele, que ia fazer quatro anos no dia 29.

AE
João Roberto tinha três anos
João Roberto tinha três anos
Eu estava com uma passageira, passando pela rua General Espírito Santo Cardoso (onde João foi baleado) quando ela notou que havia várias viaturas no local, mas eu nunca ia imaginar que iam executar a minha família. Metralharam o carro com uma mulher e duas crianças dentro. Minha mulher ficou cheia de pedaços de estilhaços pelo corpo, afirmou.

Segundo o taxista, Alessandra, sua mulher, voltava de uma festa infantil com os dois filhos do casal no carro. Além de João, estava no veículo o bebê Vinícius, de nove meses, que nada sofreu. Quando estava na esquina de casa, a mãe viu que um carro passou em alta velocidade e que ele estava sendo perseguido pela polícia. Ela encostou o carro para os policiais passarem, mas eles a teriam confundido com os bandidos.

"Mesmo atingida (por estilhaços), ela saiu do carro e jogou a bolsa do bebê para mostrar que tinha crianças. Isso foi a 200 metros da delegacia (19º DP)", contou o pai, muito abalado. O projétil que atingiu o menino na cabeça ficou alojado na quarta vértebra cervical. "Destruíram o cérebro do meu filho."

Baleado na cabeça

João foi baleado na cabeça durante uma perseguição de policiais do 19º BPM (Tijuca) a bandidos, na rua General Espírito Santo Cardoso, a poucos metros da delegacia do bairro. Eles seguiam criminosos que teriam assaltado pessoas momentos antes em ruas da localidade.

Testemunhas informaram que os policiais perseguiam um veículo Fiat Stilo preto, onde estariam os criminosos, mas acabaram atirando contra o veículo da mãe do garoto, um Palio Weekend cinza chumbo. Além de João, a advogada Alessandra Amorim estava com um bebê de nove meses, quando o carro foi atingido pelos disparos. Ela ficou ferida por estilhaços na barriga e na perna.

De acordo com testemunhas, a advogada chegou a jogar a mochila de um dos meninos pela janela, para mostrar aos policiais que os bandidos estavam em outro carro, mas há informações de que foram disparados pelo menos 15 tiros contra o carro que ela dirigia. As armas dos policiais que estavam na perseguição foram apreendidas para perícia.

Leia também:


Leia mais sobre:
violência no Rio

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG