Festival de Veneza, ¿Insolação¿ é uma parceria de Hirsch ao lado de Daniela Thomas (¿Terra Estrangeira¿, ¿Linha de Passe¿), sua habitual colaboradora nos palcos, e tinha como desafio declarado emocionar quem assiste. O resultado foi uma obra difícil, que vem dividindo plateias por onde passa." / Insolação - Brasil - iG" / Festival de Veneza, ¿Insolação¿ é uma parceria de Hirsch ao lado de Daniela Thomas (¿Terra Estrangeira¿, ¿Linha de Passe¿), sua habitual colaboradora nos palcos, e tinha como desafio declarado emocionar quem assiste. O resultado foi uma obra difícil, que vem dividindo plateias por onde passa." /

Ao lado de Daniela Thomas, Felipe Hirsch estreia no cinema com o difícil Insolação

Na próxima sexta-feira (26), Felipe Hirsch estreia em dose dupla em São Paulo. O espetáculo ¿Cinema¿, mais uma produção da Sutil Companhia de Teatro, inicia temporada, curiosamente, no mesmo dia em que o primeiro trabalho do diretor atrás das câmeras chega às salas do País. Selecionado para uma mostra paralela do http://ultimosegundo.ig.com.br/veneza/2009/09/06/belo+insolacao+fala+da+utopia+do+amor+8286919.htmlFestival de Veneza, ¿Insolação¿ é uma parceria de Hirsch ao lado de Daniela Thomas (¿Terra Estrangeira¿, ¿Linha de Passe¿), sua habitual colaboradora nos palcos, e tinha como desafio declarado emocionar quem assiste. O resultado foi uma obra difícil, que vem dividindo plateias por onde passa.

Marco Tomazzoni, enviado a Curitiba |

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O diretor Felipe Hisch no set de filmagens de "Insolação", rodado em Brasília

A ideia inicial, segundo Hirsch, era fazer um filme que transmitisse a sensação de um conto russo, onde há pouca ação, mas que falasse sobre um sentimento amoroso. A partir daí, a equipe mergulhou na literatura russa e se inspirou em Tchecov, Tolstói, Búnin e Turguêniev, entre outros autores, para criar o roteiro. No fim, tudo ficou diluído na história e o que restou foi o espírito, como a frase que Paulo José, espécie de mestre-de-cerimônias, declara logo no início do longa-metragem: O amor não foi feito para sermos felizes, mas para nos sentirmos vivos.

No elenco, Leonardo e Antonio Medeiros (pai e filho), Josiane Spoladore, Leandra Leal e Maria Luísa Mendonça perambulam por uma Brasília rica em linhas retas, curvas e espaços vazios, como se os prédios abandonados e os longos caminhos de concreto focados pelas lentes de Mauro Pinheiro Jr. representassem o deserto amoroso e a inadequação dos personagens. Um garoto que se apaixona por uma pessoa mais velha, a mulher que procura o sexo para sentir alguma coisa, as trajetórias se cruzam em uma história com linhas nada definidas.

Em entrevista ao iG em Curitiba, Felipe Hirsch declarou que essa licença poética tem garantido uma relação de amor e ódio do público com o filme. O diretor reconhece que o trabalho é radical, mas, apaixonado, assegura a integridade do projeto (era o que gente realmente acreditava) e diz que retoma uma tradição do cinema brasileiro criada na década de 1960. Prefiro ver um filme do Domingos de Oliveira do que cinco filmes da última geração, alfineta.

Sobre o filme, a primeira coisa que queria saber é qual é a tua relação com os autores russos.
Não posso negar para você: como literatura, acho que existem os russos, os irlandeses e o resto. Nosso maior autor é influenciado por [Laurence] Sterne, que é inglês, mas irlandês em sua origem. Memórias Póstumas de Brás Cubas é A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, ninguém me convence do contrário. Isso não diminui Machado de Assis em nada, ele era um gênio. Godard falava isso: Não importa de onde as coisas vêm, importa para onde você as leva. É uma visão minha, mas é ali que me alimento. Em Tolstoi, Pushkin e muito em James Joyce, obrigatoriamente em Flann O'Brien, em Oscar Wilde. Cresci sabendo, através do [vocalista do The Smiths] Morrissey, que Wilde era obrigatório, tanto é que, sem brincadeira, está na minha cabeceira até hoje. Então sim, existem os russos, mas também os irlandeses.

Os contos que deram origem ao filme já tinham inspirado você antes de tudo acontecer?
Não. A ideia que eu tinha era fazer um filme com a mesma sensação de um conto russo, aonde parece que acontece pouca coisa, mas que ao final parece que se foi tomado por uma intensidade amorosa muito grande. Queríamos estudar isso, fomos atrás de literatura russa e aí que descobri o [Viktor] Schklovsky, teórico da peça Não Sobre o Amor. A partir desse momento, a gente começou a trabalhar com esse preceito. Mas depois de fazer 11 tratamentos no roteiro, isso foi ficando meio fantasmagórico, fica lá no fundo de tudo, principalmente quando Brasília entrou [no projeto].

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Leandra Leal e Antonio Medeiros em cena: amor com espírito da literatura russa

Insolação é um filme poético, de sensações. Qual é o sentimento especificamente que você queria passar com o filme?
Uma vez o Domingos de Oliveira me falou que eu tinha que me dedicar às obras sobre o amor. Escutei aquilo, tentei entender e cada dia que passa vou entendendo mais (risos). Acho que a gente queria fazer uma obra amorosa. Difícil falar isso, né? Parece que é sobre o amor, mas é algo que de alguma maneira se relaciona amorosamente. Cinema é assim também. Quero cada vez mais trazer gente para o meu lado assistindo arte e fazendo arte. Não me importam mais cisões, entendeu? A discussão artística não é uma cisão. Tudo que eu faço hoje é pensar em alguma maneira de emocionar quem assiste, e emocionar não é algo vazio e barato, pelo contrário. É difícil. Não existe truque. O truque não emociona mais. Você precisa ter uma relação, uma consistência muito grande com o projeto para que aquilo seja na essência emocionante, e não um truque barato e vazio. A gente queria ser o mais fiel possível às idéias que permeiam o filme, mas se você me perguntar qual é o sentido do tudo, acho que é esse, a minha relação com a arte, da mesma maneira que a peça "Cinema" tem, e de que outras que virão, terão.

Por que você resolveu chamar mais uma vez o [norte-americano] Will Eno (Temporada de Gripe, Thom Pain - Lady Grey) para trabalhar no roteiro?
O Will sempre foi um provocador muito grande, uma pessoa que abriu minha cabeça para como a gente pode lidar com dramaturgia, textos, idéias dentro da arte. É um grande parceiro, sempre foi e sempre será. Quando Brasília entrou na história, o Will se afastou um pouco porque ele não tem essa cultura. Consigo traduzir um pouco para ele, mas de alguma maneira existem essas barreiras. É um filme essencialmente brasileiro, feito no coração do Brasil, por mais que fale de uma utopia que aconteceu no mundo inteiro, que gerou aquelas arquiteturas inacabadas que estão sendo reaproveitadas agora, como por um menino que vai se apaixonar pela primeira vez. Na essência da ideia, Will sempre foi muito presente.

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Paulo José no meio da chuva: "O amor
não foi feito para sermos felizes"

Como vocês chegaram à conclusão de que Brasília serviria de palco para essas histórias?
Começou por um simples choque visual. Lembro que a Dani me chamou no galpão dela para me mostrar o ensaio de um fotógrafo estrangeiro que morava em Brasília e ficamos muito impressionados, porque além da periferia favelada, que cresceu como em qualquer outra cidade, e além do eixo monumental, existe em torno de Brasília um lugar que parou no tempo, esquecido, que não foi construído a partir de uma falha dessa utopia, como qualquer outra utopia é falha. Esse lugar é muito tentador porque é de ninguém, um lugar que se assemelha ao leste europeu, que também falhou, e que está sendo reaproveitado por outras pessoas, outros sonhos e outras utopias. Reaproveitar aquela arquitetura para outros sonhos foi para gente uma descoberta. Estudamos profundamente as locações. A gente sabia que aquilo seria também a emoção do filme, emocionalmente estaria ligado às pessoas. Lembro que li nalgum lugar um mulher revoltada falando algo assim do filme: aqueles lugares feios, uma fotografia feia. Achei tão curioso isso, como fotografia bonita só é cachoeira, pôr-do-sol (risos). Aí você vê um filme do [diretor chinês] Jia Zhang Ke, como Still Life, que é feito com uma câmera tosca, e aquilo é lindo, porque não se trata de técnica nem de lugar, e sim de como o enquadramento é emocional.

O roteiro levou cinco anos para ficar pronto. Por que tanto tempo?
Porque eu e Dani levamos às raias da loucura nossa busca por algo que realmente fizesse sentido para gente. Tem pessoas que amam e outras que odeiam o filme. Mas a única coisa que eu peço pras pessoas que não querem se relacionar com o filme é que não sejam precipitadas, porque ali está algo muito pensado, sério, emocionalmente delicado. Essa é a nossa obrigação, de ser o mais íntegro possível. E a gente foi, por isso Insolação é radical, porque a gente realmente foi íntegro em relação ao que acreditava. Não tem concessão no filme, era exatamente o que imaginávamos. Tanto que vejo Insolação hoje e ele é ainda tão pleno em mim que em nenhum momento me trai. Olho e poxa... Tenho muito orgulho. Foi se tornando cada vez mais um filme difícil. Foi preciso tempo para que a gente conseguisse filtrá-lo, absorvê-lo, lapidá-lo até o final.

Falando dessa relação de amor e ódio, senti isso quando saí da sessão. Eu estava sensibilizado, enquanto outras pessoas acharam o filme um pouco árido, digamos assim. Como está sendo a relação das plateias?
Pelo lado internético, a gente foi muito agredido. Sinto que, principalmente a pessoa mais jovem, que está pouco interessada em perder seu tempo em uma obra que não seja de entretenimento, fica sem paciência. Nas sessões em que o público chega pensando que é uma obra de entretenimento, em dois minutos percebe que isso não vai acontecer, daí vai embora ou se desliga do filme. É uma relação difícil. E existem sim as pessoas que de alguma maneira conseguem se envolver com aquilo, se identificar e fazer essa troca entre o filme. Temos consciência de tudo isso. Por isso que a gente fala que é um filme difícil, não que ele seja, mas na relação com os diversos tipos de público que ele terá.

Reuters

Felipe Hirsch e Daniela Thomas posam no Festival de Veneza, em 2009

É um filme diferente do que vem sendo feito no Brasil.


Insolação é um filme que fizemos com a liberdade conquistada na década de 1960 nesse país, através do Paulo José, do Domingos de Oliveira, do [Júlio] Bressane. Sem essa liberdade, não teríamos feito, porque a partir de lá passamos a aprender a fazer cinema. Às vezes, percebo que a gente abriu mão um pouco dessa liberdade. O grande trunfo do cinema europeu, de maneira geral, é compartilhar as duas coisas: saber fazer cinema e ser livre. Fiz uso dessa liberdade que o Domingos me deu e continua me dando. Prefiro ver um filme do Domingos de Oliveira do que cinco filmes da última geração do cinema brasileiro. Nunca ninguém vai emplacar uma coisa dessas comigo, de fazer um laboratório de roteiro em Sundance ou de utilizar o último modelo da nova câmera... Vou fazer isso porque sou inteligente, porque gosto de trabalhar tecnicamente ¿ isso é nítido no meu trabalho ¿ e vou atrás disso para traduzir a minha ideia e meu conceito. Mas não parto disso, nunca parti. Insolação se presta a outras coisas.

Como é que foi a relação entre você e a Daniela no set? Vocês se dividiam nas filmagens, acompanhavam tudo juntos?
A gente estava tão afinado, tinha tanta história... Filmamos depois de seis anos, por isso as coisas aconteceram quase que organicamente. A gente tinha feito um trabalho tão violento anterior que no set eu estava mais presente, já que a Dani estava lançando o Linha de Passe [dirigido com Walter Salles] e finalizando o projeto do Museu do Futebol. Então toquei muito mais no set, apesar dela estar do meu lado, e a Dani tocou muito mais na montagem, porque eu estava fazendo a excursão pela Europa com os 15 anos da [Sutil] Companhia.

Teu próximo filme vai ser uma coprodução com a França, é isso?
Quem falou isso? (risos). Não, não é bem assim. A partir do Insolação, há um interesse de nosso distribuidor francês de produzir uma parte do filme e é possível que isso aconteça. Mas existem outras coisas que estou estudando... As coisas para mim sempre acontecem a partir de uma ideia. Sou uma pessoa muito desastrada com minha relação econômica. Às vezes a pessoa coloca um monte de dinheiro do meu lado e não sei o que fazer com ele. Geralmente eu vou para o lugar onde não tem um monte de dinheiro (risos), é uma droga. Aí do outro lado, que tenho uma puta ideia, não tem uma nota. Geralmente tento juntar as duas coisas, pegar esse monte dinheiro e colocar noutro lugar, e tenho convencido muita gente a fazer isso. Tenho outras idéias, planos. De qualquer maneira, em 2012 devo estar filmando alguma coisa.

Assista ao trailer de "Insolação":

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