Antonio Fagundes discute a morte no teatro e fala de sua obsessão.

Antonio Fagundes

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

Um imenso relógio de ponteiros foi colocado bem à frente da bilheteria do teatro dos Quatro, no Rio, a pedido de Antonio Fagundes. As pessoas, ao comprarem ingressos para a peça Restos, dão de cara com o aviso: ¿Acerte seu relógio com o horário de Brasília. Não toleramos atrasos¿. Para o ator, que apresentou o monólogo em São Paulo no ano passado, pontualidade é uma condição imprescindível de trabalho. Às 21h25, as portas do teatro se fecham, para que, cinco minutos depois, a peça comece com todos já devidamente alocados em suas poltronas. ¿Já fui processado seis vezes por gente que não entrou. Ganhei todas¿, diz ele, um tanto orgulhoso do feito judicial.

Fagundes recebe a reportagem do iG no camarim do teatro - para evitar qualquer imprevisto, bem antes da peça começar. Aos 60 anos, fala do seu primeiro personagem avô da TV (o empresário Leal Cordeiro, da novela Tempos Modernos ) e da sua total falta de intimidade com as novas tecnologias. Sou um analfabyte, brinca.

Maçãs, remédios para dor de cabeça e três cachimbos dividem a mesinha do seu camarim. A entrevista acaba e ele corre até a bilheteria para se certificar de que todos os ingressos foram vendidos ¿ a maioria como meia-entrada. Mais alguns minutos e, pontualmente às 21h30, lá está ele no palco. De terno, óculos escuros e descalço, o ator vive um viúvo que reflete não somente sobre a vida, mas também de que forma pode moldar o próprio destino. Isso tudo, em tempos de lei antitabagista, entre um cigarro e outro. Após a peça, ele puxa uma cadeira e discute o texto com o público por mais trinta minutos. E brinca. Quem gostou, volte de novo. Mas dessa vez pague inteira.

Dario Zalis

Fagundes no camarim do Teatro dos Quatro, no shopping da Gávea, no Rio

iG: De onde surgiu a ideia de colocar um relógio na bilheteria?
AF
: O relógio foi uma exigência minha, porque pedido não funciona. Uso há mais de 30 anos em São Paulo. Lá já virou objeto decorativo, o pessoal sabe o quanto sou rigoroso. No Rio, tenho que reforçar mais, porque o carioca não acredita do que sou capaz ( risos ).

iG: O que você é capaz de fazer com os atrasados?
AF
: Atrasado não entra, simples. Já fui processado seis vezes, fui até a julgamento. Ganho sempre, claro. Não tem lei que me diga que, se eu prometo uma coisa e cumpro, devo ser processado. Os caras levaram uma lavada na juíza, adorei isso. No dia que alguém ganhar, vira o caos. Eu iria até o Supremo Tribunal de Justiça se perdesse uma ação dessas. Teve um que me disse: Isso aqui não é a Inglaterra. Respondi: Infelizmente. Gostaria que fosse!

iG: Os cariocas são mais relapsos com pontualidade que os paulistas?
AF
: Os cariocas? Talvez sim, talvez seja só comigo... É que eles não sabem o quanto eu prezo por isso. Outras companhias aceitam qualquer coisa, entram atrasados, fazem barulho... O que vou fazer? O respeito que tenho pelo meu trabalho é o respeito que tenho pelo público que vem me ver. O problema é uma completa falta de educação do povo brasileiro. Fiquei aqui bolando o começo do espetáculo que é de uma delicadeza enorme, com uma musiquinha no black-out... e o sujeito vai entrar atrasado, twittando pelo celular? Negativo!

iG: O que mais te irrita na plateia, além dos atrasos?
AF
: Não entendo esse amor que as pessoas têm pelo celular. A vontade que eu tenho é de gritar: apaga essa merda!. Quando entro em cena, ainda há um blecaute, então vejo o público iluminado pelos seus celulares. As pessoas deixam para desligar essa porcaria no segundo sinal antes de começar a peça. É irritante. O que eles estão olhando? Hora de dar injeção? Eles não percebem que o último momento de humanidade que podem ter é aqui dentro. Onde mais se consegue reunir 300 pessoas para ver uma mesma coisa, para conversar sobre isso depois?

iG: Você é crítico às novas formas de tecnologia?
AF
: Sou absolutamente crítico, se usadas dessa forma. A internet está criando culturas distantes. Dependendo do que você buscou e o que eu busquei, nunca vamos conversar. Aqui no teatro, não. Olhamos para o mesmo fato, e ao vivo. Mesmo que entendamos coisas diferentes, podemos trocar ideias.

iG: Como é sua relação com a internet?
AF
: Sou coerente, sou um analfabyte ( risos ). Não acesso nada. Dia desses estava com meu filho, ele no computador e eu lendo um livro. Uma hora e meia depois, acabei o livro e ele limpou a lixeira da caixa de email dele. E aí? Vamos trocar informação? Não dá.

Dario Zalis

"Atrasado não entra, simples. Já fui processado seis vezes", conta o ator

iG: Há alguns vídeos de bastidores da peça Restos no site You Tube. É uma tentativa de dialogar com o inimigo?
AF
: ( risos ). Eu tenho vídeos no You Tube, making of de Restos . Dez filminhos de cinco minutos cada um, contando os processos de criação. São detalhes básicos de produção teatral. Meus filhos é que pediram para eu fazer. A maior explosão de exibicionismo universal é o que vivemos na atualidade. O cara filma a transa com a mulher e coloca na internet pros outros verem. Ele ainda fica rezando para outras pessoas acessarem. Que é isso, onde vamos parar?

iG: Após a peça, você conversa com o público. Por quê? É a carência que um monólogo traz?
AF
: Também ( risos )! Estou retomando o que fiz por muitos anos, no Cultura Artística, em São Paulo, quando tinha a Companhia Teatro de Repertório. O bate-papo demorava mais que o espetáculo. Observo que as pessoas ficam mexidas. É uma forma diferenciada para me aproximar do público, que não tem orientação sobre teatro. Dia desses, num desses bate-papos, um cara me perguntou o que é cenografia. Eu ri um pouquinho e depois vi que o público estava todo querendo saber sobre isso.

iG: A internet não ajuda a solucionar esse problema?
AF
: A internet é um veiculo extraordinário, mas é paralisante. Você aperta um botão e entra na biblioteca de Washington, que tem 30 milhões de títulos. A internet cria a ansiedade da informação. Você tem acesso, mas não sabe o que procurar. Papel da educação é propagação de cultura. A nossa função é fazer arte.

iG: A peça discute a morte e a velhice. Como você encara isso?
AF
: Não pensar na velhice, e por extensão na morte, é um problema da civilização ocidental. Nossa formação judaico-cristã é aliada à culpa e ao pecado. A morte é um castigo, desde a expulsão de Adão e Eva do paraíso. Aqui a gente não olha para a velhice, porque acha que nunca vai acontecer com a gente. Ninguém observa: Cacete! Aquele cara que eu cuspia e xingava na rua serei eu um dia. O papo de que éramos um país de jovens já foi. O Brasil envelheceu e não percebeu isso. Me surpreendi com uma frase de Goethe: A velhice nos pega de surpresa.

iG: Ela te pegou de surpresa?
AF
: Eu tenho 15 anos ( risos ). A juventude está diretamente relacionada à saúde. Não sem razão, associamos a velhice à doença. Para mim, é o único mal que a velhice traz. No mais, é tudo maravilhoso. Você pode estar bem financeiramente, teve tempo de fazer sua vida, tem sabedoria, carga profissional e emotiva nas costas... Estando com tudo isso e com saúde, eu só posso falar que me sinto com 15 anos.

Dario Zalis

"O ar que respiro nas ruas faz muito mais mal que o charuto", defende Fagundes

iG: Durante a peça, você fuma várias vezes. Dá para ter saúde fumando tanto?
AF
: Causava mais mal o cigarro que eu fumava antes. Agora, eu fumo charuto, cachimbo, essas coisas... Digamos então que eu estou melhorando. O ar que eu respiro nas ruas, cheio de monóxido de carbono, faz muito mais mal que o charuto. A gente já não nota mais a concentração de gás carbônico que tem no ar. Pode ir para a praia que será a mesma coisa, já nos acostumamos a esses altos níveis de poluição.

iG: Mas como ter saúde sem parar de fumar?
AF
: O segredo é querer estar saudável. Mas tem um limite para isso também. Se você entrar aquela de que não come, não bebe, não respira, você não vive nada. Viver já é muito perigoso. Oxigênio faz mal. Você respira e o oxigênio mata células. Se pararmos para pensar muito nisso, a gente se mata de vez.

iG: É a primeira vez que você interpreta um avô (na novela Tempos Modernos ). Para quem sempre interpretou galãs, isso deve incomodar num primeiro momento, não?
AF
: ( risos ) Avô eu não tinha feito ainda, é verdade! E agora já pintaram os netos. O bom da nossa profissão é que sempre haverá um bruxinho velho para eu fazer. Melhor pensar assim.

iG: Por que, mesmo tendo conseguido autorização do Ministério da Cultura para captar dinheiro via Lei Rouanet, você optou por não usar o recurso na montagem dessa peça?
AF
: Não me arrependi de ter negado esse recurso, mas tive prejuízo financeiro. É uma coisa quase imbecil da minha parte, mas precisamos retomar a relação direta com a plateia. A gente vive do dinheiro das pessoas que vêm ao teatro. A partir do momento que tem dinheiro de outra parte, isso deixa de ser teatro. Teatro profissional é eu ganho para fazer isso. Não vou vender carne para vegetariano. Preciso acreditar no que estou fazendo. Só me sinto à vontade de arriscar com o meu dinheiro.

Serviço :
Teatro dos Quatro ¿ shopping da Gávea
Rua Marquês de São Vicente, 52 - 2º piso ¿ Gávea, RJ. Tel.: (21) 2274-9895
De quinta a sábado, às 21h30 - R$ 70,00 / Domingo, às 20h - R$ 80,00
Duração: 70 minutos

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