Analista de SP coleciona sambas-enredo há 27 anos

Todo o início do ano o analista de processo Ricardo Bottura, 48 anos, percorre quadras de escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo. Ele não desfila nem trabalha no carnaval da Sapucaí ou do Anhembi.

Agência Estado |

Nem ao menos gosta de frequentar esses ambientes. Mas precisa. Ele é um colecionador de samba-enredo. Em 27 anos, Bottura juntou mais de mil músicas e cerca de 130 CDs e LPs de todas as divisões dos carnavais das duas cidades. E mais, todos os dias ele ouve as canções a caminho do trabalho e chegou a criar um ranking para classificá-las. Tudo para satisfação própria. "Às vezes as pessoas guardam para valorizar a coleção e depois vendê-la. A minha intenção é ter o samba-enredo", diz.

Tudo começou em 1982, quando o analista tinha 21 anos e nem de samba gostava. Bottura conta que foi ver o desfile das escolas, que ainda era na Avenida Tiradentes, no centro de São Paulo. Ele foi pela festa, mas se surpreendeu. "Achei aquilo muito interessante. Quis saber como os juízes julgavam os desfiles. Como funcionava aquilo? Também quis começar a julgar, para ver se acertava ou não. A partir daí, peguei os sambas-enredo para avaliar. Virou um hobby. Brinco de jurado até hoje."

Para conseguir material para julgar, ele diz que precisa peregrinar pelas quadras das escolas no Rio e São Paulo porque não há outro meio de obter as músicas dos grupos de acesso. "Os sambas de divisões mais baixas não chegam nem em lojas de discos usados. As escolas nem ligam, passou o desfile, não estão nem aí. Mas eles têm valor pra mim", diz. Agora ele passou a contar também com as facilidades do mundo virtual. "Geralmente sou tímido, acanhado, e não gosto de frequentar as escolas, por isso tenho certa dificuldade. Por esse motivo fui para internet", explica. Bottura não liga se vai conseguir a capa ou o encarte do disco. O que ele quer são as músicas, não importa o formato, para poder classificá-las.

Ele gosta tanto de ser "jurado" que chega a subdividir o ranking pelo número de vezes em que a música foi avaliada. No principal balanço, ele diz que avaliou nada menos que 17 vezes 647 sambas-enredo. O restante das músicas só não entrou neste ranking porque foi comprado mais recentemente e, por isso, não deu tempo. No Rio, o primeiro lugar é ocupado pelo "A Dança da Lua", que a Estácio de Sá levou para a avenida em 1993. Composta por Chiquinho Spinoza, a música recebeu 157,3 pontos, 4,5 a mais que a segunda colocada, "A Ressurreição das Coroas (Reisado Reino Reinado)", da Portela de 1983.

Já em São Paulo a disputa está mais acirrada. Com 150,2 pontos, a Colorado do Brás lidera com o samba-enredo "Mascaradas, Ilusões da Vida", de 1993, quando participou do Grupo Especial. Porém, a escola - que este ano vai disputar o Grupo 1 do carnaval paulistano - é seguida de perto pela Rosas de Ouro, com a música "Non Ducor Duco, Qual é a Minha Cara?" (150,1 pontos) e pela Mocidade Alegre, com "Do Rock ao Samba - Todo Mundo Maluco Beleza" (149,9 pontos).

Bottura tem critérios próprios para avaliar qual samba é melhor, e que para ele são muito mais abrangentes que os utilizados pelos juízes oficiais. Sua avaliação é feita sob três óticas: intérprete e equipe, em que ele verifica a "motivação" do cantor, a criatividade nos "cacos do samba" - que são os gritos do intérprete para chamar os passistas -, equilíbrio, tonalidade e afinação; letra, quando são observados o desenvolvimento e a facilidade de interpretação do tema, criatividade literária, rimas, o entusiasmo dos refrões e a repetição de palavras; e por fim, melodia, em que analisa a harmonia do samba, a facilidade para decorar a letra, o "incentivo ao canto", as quebras de ritmo, a "motivação à dança", os desenhos musicais e o entusiasmo.

Segredo

Pouca gente sabe desse seu hobby. Muitos amigos do trabalho nem imaginam que, quando está com os fones no ouvido, Bottura está atento às métricas, às rimas e à afinação do cantor do samba. Ele não gosta de revelar o que faz nestes momentos porque "as pessoas não vão entender". "Como não é (um hobby) comum, não divulgo, fica pra mim mesmo. Em casa mesmo acham que eu sou meio doido, que não tenho o que fazer." Ele diz que faz de tudo para não incomodar a esposa e a filha, que não gostam de samba, e sim de canções evangélicas "e dessas músicas doidas de hoje em dia". Bottura também nunca foi procurado por pesquisadores de samba ou do carnaval, "talvez por falta de divulgação do que eu tenho". Mas, para ele, isso também não interessa.

Seus discos são guardados em um armário na sala da casa, sem cuidados especiais ou um catálogo. Por isso, revela, não procura outros aficionados por samba-enredo. "Eles vão querer dar palpite de como guardar os discos e como cuidar para que eles fiquem conservados. Só que não ligo para nada disso", afirma. "Além do mais, se eu encontrar um colecionador, ele não vai querer vender ou trocar." A única restrição é quanto a emprestar os exemplares. E só tomou essa medida depois que um conhecido pediu o LP dos sambas-enredo do Grupo Especial do carnaval de São Paulo do ano de 1981, se mudou e nunca mais foi achado para devolver a relíquia. Esse álbum, aliás, é um dos que Bottura mais procura para sua coleção.

Jurado de desfiles

A partir de 1996 ele decidiu ir além do acompanhamento dos sambas-enredo. Passou a colecionar também gravações em vídeo das transmissões da TV para poder fazer seu próprio julgamento dos desfiles. Além dos quesitos oficiais, ele colocou mais quatro: avalia o intérprete do samba - se consegue transmitir empolgação para a escola -, a ala das baianas - que no julgamento oficial, segundo ele, entra no quesito fantasia -, a ala das crianças e a rainha da bateria - se ela tem "samba no pé" e se representa a bateria da agremiação.

Com isso, chega a seus próprios resultados, que na maioria das vezes divergem do resultado oficial. "Sim, acontecem absurdos nos resultados finais dos desfiles", afirma. No ano passado, por exemplo, a campeã do carnaval de São Paulo foi a Vai-Vai, escola que, para ele, perdeu fácil para a Rosas de Ouro. No ano anterior, a Império da Casa Verde venceu, deixando a Mocidade Alegre, vencedora oficial, no chinelo. Atualmente, ele diz ter autoridade para dar as notas: "Até 99 eu era imaturo. Agora eu estou bem mais experiente".

Apesar da prática em avaliar os desfiles, o analista de processo nem pensa em ser jurado de carnaval. Para ele, a pessoa que vai avaliar "oficialmente" a bateria de uma escola de samba - que por acaso é o quesito em que se vê menos preparado para dar notas - tem que ser músico, quem vai decidir sobre as alegorias deve ser artista plástico, e assim por diante. "Eu vou apenas no embalo da empolgação. Não tenho essa formação", confessa.

No final, Bottura quer mesmo é curtir sua brincadeira a seu modo, sem ter que justificar a ninguém, a não ser a ele mesmo, o que deixou o samba-enredo da Paraíso do Tuiuti de 2005 0,1 ponto atrás da líder Estácio de Sá de 2004, depois de 11 avaliações das músicas dos grupos de acesso do Rio. Ou que raios aconteceu para que a Acadêmicos do Dendê de 1997 e a Acadêmicos do Cubango de 1995 ficassem empatados em 209º lugar na mesma classificação. Em meio aos seus milhares de sambas-enredo, ele é quem detém o poder de dar um dez ou um 7,5. Nesse mundo, o carnaval é só dele.

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