ANÁLISE-Mercados emergentes se voltam para o comércio sul-sul

Por Jonathan Lynn GENEBRA (Reuters) - Países em desenvolvimento, procurando compensar a queda de demanda dos países ricos e os preços mais baixos das commodities, buscam formas de aumentar um dos mais dinâmicos aspectos das suas economias: o comércio sul-sul.

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No mês passado, o Fundo Monetário Internacional (FMI) afirmou que países em desenvolvimento cresceriam cerca de 3,3 por cento neste ano, enquanto as economias avançadas encolheriam cerca de 2 por cento. Como um todo, a economia mundial ficaria estagnada.

A UNCTAD, organismo das Nações Unidas para comércio e desenvolvimento, prevê que as exportações dos países em desenvolvimento poderiam cair cerca de 9,2 por cento em 2009. O comércio sul-sul pode ser a única luz nesse túnel.

O secretário-geral da UNCTAD, Supachai Panitchpakdi, declarou que a crise financeira abalou as fundações econômicas do norte e ameaça as aspirações ao desenvolvimento do sul.

"O momento agora é para ver o quanto uma maior cooperação sul-sul pode ajudar os países em desenvolvimento a lidar com a crise", disse Supachai, ex-diretor da Organização Mundial de Comércio (OMC). Ele fez a declaração numa reunião da UNCTAD sobre o tema na semana passada.

DESLOCAMENTO DE PODER

O esforço de países em desenvolvimento, especialmente os grandes como China, Índia e Brasil, para cada um poder contar mais com o outro é mais um sinal do deslocamento do poder global que se concentrava nos Estados Unidos e Europa, no momento em que o mundo combate a crise econômica.

O ministro brasileiro de Relações Exteriores, Celso Amorim, encontrou-se com os ministros do Comércio indiano, Kamal Nath, e sul-africano, Mandisi Mpahlwa, durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos. O tema da conversa foi como incrementar o comércio mútuo.

À imprensa, Amorim afirmou que eles haviam concordado que a África do Sul organizaria um encontro num futuro próximo para discutir um acordo entre o Mercosul, o bloco do sul da África e a Índia.

"Também queremos estudar mecanismos que permitam que nosso comércio se mantenha, independentemente do que aconteça com os mercados financeiros", declarou Amorim.

Essa cooperação não será sempre fácil, já que a crise pode levar os países a criar barreiras para exportações.

A Índia aumentou as tarifas para o aço no ano passado, para impedir as importações chinesas. Também vetou importações de brinquedos da China por seis meses, o que pode acarretar em disputa na OMC.

Os avanços, porém, em anos recentes já são uma fundação para iniciar o trabalho. O comércio entre países em desenvolvimento aumentou.

Dados da OMC mostram que o comércio sul-sul representou 16,4 por cento do total de 14 trilhões de dólares de vendas globais em 2007. Esse percentual em 2000 era de 11,5 por cento.

"O comércio sul-sul tem sido um dos mais dinâmicos aspectos dos negócios entre países nos últimos 10 anos e nossa expectativa é que continue crescendo, mas em um ritmo menor por enquanto. Estamos otimistas de que torne-se um componente ainda mais dinâmico do comércio internacional", afirmou o economista Bonapas Onguglo, da UNCTAD.

Uma das razões pelas quais o comércio sul-sul continuaria a crescer é que, emergentes, esses mercados precisariam de mais comida, energia, entre outros produtos.

Isso encorajaria países em desenvolvimento a investirem nesses locais, como a China faz na África hoje.

As alternativas para fortalecer o comércio sul-sul incluiriam mais financiamentos de bancos regionais. Países em desenvolvimento também poderiam diversificar as suas reservas, comprando os débitos de outros.

Diferentemente do pregado nos anos 70 e 80, o apoio ao comércio sul-sul hoje não significa que esses países virariam as costas para as nações ricas.

"O comércio sul-sul é uma via. Não a usamos plenamente ainda. Agora é a hora", disse Onguglo.

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