ANÁLISE-Inflação global pode minar lucros agrícolas do Brasil

Por Roberto Samora SÃO PAULO (Reuters) - A agricultura brasileira, até agora beneficiada pelos altos preços internacionais, corre o risco de ter a sua competitividade minada por uma deterioração da economia mundial resultante dessa mesma crescente inflação das commodities, disseram analistas.

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A forte alta dos preços dos grãos e de outras matérias-primas exportadas pelo país tem compensado a desvalorização do real frente ao dólar e deve garantir um crescimento da próxima safra (2008/09), mesmo que pequeno em relação à atual escalada das commodities.

No entanto, um 'estouro da bolha' das commodities, que alguns vêem como iminente, revelaria o problema dos custos e de infra-estrutura do Brasil, encobertos pela alta dos preços.

'Tem um ganho do ponto de vista dos preços de commodities, que beneficia a receita das exportações do Brasil, mas a economia mundial está totalmente desequilibrada, já há muito ela não responde aos fundamentos econômicos e é objeto de um forte movimento especulativo', disse o analista Fábio Silveira, da RC Consultores.

Segundo ele, ganha-se de um lado, mas perde-se de outro, 'com a inflação mundial ganhando uma velocidade relevante', o que em algum momento exigirá uma ação mais firme dos bancos centrais.

'Os bancos centrais vão ter que subir os juros, e em algum momento os mercados vão perceber isso, e as posições mais compradas vão ser desmontadas, adotando uma postura baixista, e aí o movimento de queda, o furo da bolha pode se iniciar', acrescentou o analista, admitindo que ninguém sabe se a bolha vai se esvaziar gradual ou abruptamente.

Ele observou que o Brasil vai continuar se beneficiando dessa alta de preços enquanto a bolha se mantiver cheia, embora já sinta também efeitos da inflação internacional de alimentos, mesmo sendo exportador agrícola.

'Isso vai levar o Banco Central a persistir nessa política de elevação de juros, como forma de tentar defender uma inflação dentro dos limites da meta, mas é uma situação que não tem muito efeito, a política monetária no país tem efeito limitado, porque há uma importação de inflação externa.'

ENQUANTO A BOLHA DURAR

Para o coordenador científico do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), Geraldo Sant'Ana de Camargo Barros, os preços deverão continuar elevados por um longo tempo, mas o Brasil 'não vai tirar vantagens espetaculares desse fato'.

'A razão básica é a mesma: os custos deverão permanecer elevados. A previsão que prevalece é a de que a produção agropecuária brasileira vai continuar no seu ritmo histórico (entre 2 a 3 por cento ao ano, em média) nos próximos dez anos', declarou ele.

Segundo ele, um aumento mais forte da produção ocorreria se a produtividade retomasse o crescimento dos anos 1990, 'o que não se espera que aconteça'.

Camargo Barros destacou ainda que seria necessário um volume considerável de investimentos em infra-estrutura (logística e energia) para um aumento mais consistente de produção, investimentos esses 'que não estão caminhando bem'.

O especialista disse ainda que se houver uma 'aceleração inflacionária por descontrole monetário e fiscal, então as condições para investimento podem se deteriorar ainda mais e a economia brasileira pode regredir à marcha lenta conhecida'.

Outro analista, José Carlos Hausknecht, da MB Agro, também acredita em um aumento de área plantada na próxima safra de verão, especialmente com as informações de que a lavoura norte-americana de milho não será tão boa, em função das enchentes no Meio Oeste.

'Os custos tiram muito a rentabilidade do produtor brasileiro em algumas regiões, mas com essa subida que teve agora acreditamos em um aumento de área. Só não vai ser maior pelo aumento de custo e o problema de crédito.'

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