ANÁLISE-Brics dão um pequeno passo por mais influência global

Por Stuart Grudgings BRASÍLIA (Reuters) - Os principais países emergentes do mundo encontraram pouca coisa sobre as quais concordar na sua cúpula anual, na quinta-feira no Brasil, mas seu tom assertivo ao pleitear mais influência nas instituições financeiras globais e em estabelecer prazos para as reformas mostra que lentamente os chamados países Bric vão ganhando mais força como grupo.

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Na declaração final divulgada em Brasília, os governantes de Brasil, Rússia, Índia e China cobraram reformas imediatas no Banco Mundial e no Fundo Monetário Internacional, de modo a dar mais voz para as nações em desenvolvimento.

O apelo em si não foi novidade, já que o grupo nasceu junto com a crise financeira global, tendo como objetivo alterar o equilíbrio de um sistema que deixa o processo decisório com as economias avançadas.

O fato de os países reiterarem sua reivindicação uma semana antes das reuniões do G20 e do FMI em Washington, e de imporem novembro como prazo para as reformas, mostra uma crescente coesão e confiança do quarteto, segundo analistas e diplomatas.

"Citar momentos e datas é uma forma de colocar maior pressão e também um possível modo de os Brics declararem vitória ao dizerem que por causa dessa pressão conseguiram fazer as coisas", disse Michael Glosny, acadêmico especializado em China no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Enormes diferenças quanto aos objetivos nacionais e tensões em questões de segurança e política econômica impediram os Brics, responsáveis por 20 por cento do PIB global, de definirem uma cooperação concreta na maioria das áreas.

Eles recuaram das propostas do ano passado de criar uma nova divisa internacional para rivalizar com o dólar, e não avançaram na formação de instituições conjuntas.

Declarações vagas dos líderes do grupo sobre suas metas reforçaram a visão de que esses quatro países, dominados pela China em termos de tamanho econômico e influência, têm pouco em comum além de serem grandes nações em desenvolvimento.

PRESSÃO POR REFORMAS

Mas o grupo de fato tem interesses comuns no combate à desigualdade econômica e na defesa da segurança alimentar e energética. Sua pressão por uma reforma nas instituições financeiras pode levar os países avançados a lhes concederem mais poder de voto e com mais rapidez no FMI e no Banco Mundial.

"Acho que a sensação é de que essa é uma declaração muito mais agressiva do que já aparecera antes", disse um diplomata ocidental em Brasília, pedindo anonimato.

O Brasil, que parecia satisfeito com uma mudança de 5 por cento no peso das votações no FMI e Banco Mundial, agora parece disposto a se somar aos outros Brics por uma maior mudança. "Não estamos satisfeitos com o ritmo das reformas", disse o chanceler Celso Amorim à Reuters na sexta-feira.

O G20, bloco de países desenvolvidos e emergentes, concordou em dar mais 5 por cento de votos aos países em desenvolvimento, mas outros grupos que reúnem tais países pleiteiam 7 por cento.

"O FMI e o Banco Mundial precisam resolver urgentemente seus déficits de legitimidade", disse uma declaração conjunta dos Brics divulgada na noite de quinta-feira, defendendo que a reforma das quotas de votação seja completada até a cúpula de novembro do G20 na Coreia do Sul.

A falta de acordos ousados em outros campos não significa necessariamente que o jovem grupo não esteja avançando no fortalecimento dos seus laços e na construção de uma confiança mútua nos bastidores, disse Anthony Spanakos, acadêmico especializado em Brasil na Universidade Estadual Montclair, de Nova Jersey.

"Grande parte do que está acontecendo são consultas e construção de normas, mas o simbolismo da ação conjunta e de uma liderança que seja independente dos EUA e da Europa é importante também", disse ele.

Os Brics pediram que o G20 seja mais ativo na definição de uma estratégia para o mundo pós-crise, e reivindicou um papel nesse processo. Para além disso, no entanto, não surgiram muitos detalhes sobre a visão dos Brics para a nova ordem mundial financeira.

"Desempenhar um papel maior e ter maior influência é mais do que apenas aumentar a representação e as quotas de votação," disse Glosny. "Pela declaração (...) não fica claro como eles querem que seja esse papel, ou como eles querem exercer essa influência."

(Reportagem adicional de Emma Graham-Harrison e Raymond Colitt)

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