Por Natuza Nery BRASÍLIA (Reuters) - O discurso da ética na política deve passar longe das plataformas eleitorais dos candidatos a presidente da República no ano que vem. Três dos partidos mais tradicionais do país, PT, PSDB e DEM, já exibem em seu DNA escândalos de compra de consciência. Na jargão popularizado, o mensalão.

O termo foi cunhado pelo ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) no maior escândalo de corrupção do governo Luiz Inácio Lula da Silva, em 2005. Delator, Jefferson acabou tendo o mandato cassado, mas dilacerou a bandeira ética do PT.

A gênese do mensalão passou pelo PSDB de Minas Gerais. Agora, chega à capital do país atingindo em cheio o oposicionista Democratas --crítico da moral governista--, num flagrante arrebatador.

Mais de 30 vídeos mostram políticos e o próprio governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), recebendo dinheiro supostamente irregular. Sua explicação oficial: "comprar panetone para os pobres".

"Isso tem uma consequência muito negativa para o DEM, pois ele é o único governador do partido, apanhado de maneira especialmente espetacular. Nem no mensalão do PT nem no do PSDB houve um flagrante tão feio", disse à Reuters o cientista político Fábio Wanderley Reis, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Às vésperas das eleições nacionais --em que o DEM pode levar a vaga de vice na chapa tucana--, "o discurso oposicionista ganha uma restrição a mais. O discurso da ética passa a soar negativo para quase todo mundo", acrescentou Wanderley Reis.

O impacto eleitoral do caso dependerá de sua ramificação e da resposta do partido à denúncia. O DEM decide mais tarde se pune o governador com expulsão.

Enquanto isso, o PSDB local nega a acusação de também participar do esquema.

BANDEIRA ÉTICA

O novo escândalo abala as estruturas do Democratas (antigo PFL), refundado em 2007 para tentar aplacar a desidratação eleitoral vivida nos últimos dez anos. A bandeira da ética e da transparência é justamente um dos pilares dessa refundação.

"Em política, você não pode perder o discurso. Se perder o discurso, você morre", sentenciou o deputado Ronaldo Caiado (GO), líder da bancada na Câmara, a favor da expulsão do governador.

Os dois líderes do partido no Congresso advogam pela pena máxima dentro da legenda por, ao menos, uma razão: sobrevivência. "O partido vai ficar marcado", argumentou Caiado.

Em 2001, então filiado ao PSDB, José Roberto Arruda pediu perdão por violar o painel de votações do Senado. Para não ser cassado, renunciou ao mandato às lágrimas, alegando não ter matado nem roubado dinheiro público.

Hoje, é o único governador do DEM. Ao lado de Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, era apontado internamente como exemplo de gestão administrativa. Nas apostas para composição da chapa presidencial com o PSDB em 2010, apareceu vez ou outra como cotado à vaga de vice.

O prefeito é integrante da Executiva Nacional, que se reúne nesta terça-feira para definir o futuro político do correligionário. São Paulo é um dos Estados de maior peso nesse fórum.

Se for abandonado pelo DEM à própria sorte, ficará muito vulnerável a um processo de impeachment, cuja ameaça já está no horizonte.

Arruda disse a colegas que vai resistir à crise e se reeleger governador. O preço disso pode ser o enfraquecimento ainda mais célere do partido que lhe deu legenda e que fica menor a cada eleição, proporcional ou majoritária.

CORDA BAMBA

Estão na corda bamba nada menos que os titulares dos três principais cargos na linha sucessória do DF. Além de Arruda, seu vice-governador, Paulo Octávio, e o presidente da Câmara Legislativa, Leonardo Prudente, todos democratas, estão no espectro da denúncia.

Prudente, inclusive, é flagrado em video colocando maços de dinheiro nas meias.

"A crise é do partido mesmo, ninguém pode negar", reconheceu o presidente da sigla, deputado Rodrigo Maia (RJ), inicialmente contrário à ideia da expulsão.

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