ANÁLISE-Agronegócio espera efeito de ação do BC nas exportações

Por Roberto Samora SÃO PAULO (Reuters) - A agricultura brasileira será afetada pela crise de crédito em 2008/09, uma vez que o plantio da safra de grãos começou no meio da turbulência financeira, mas as medidas anunciadas pelo Banco Central poderão, pelo menos, chegar a tempo de remediar o aperto sentido nas linhas de financiamento da exportação.

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"O principal problema que afeta hoje o agronegócio, e em particular as exportações do agronegócio, é a insuficiência de recursos para as operações de financiamento a exportações (chamadas de ACCs). E as medidas adotadas já pelo Banco Central visam, em parte, atenuar essa insuficiência de recursos", disse o ex-ministro da Agricultura Pratini de Moraes.

O agronegócio responde por cerca de 35 por cento do total exportado no ano pelo Brasil.

Para Pratini, a maioria dos agricultores já pisou no freio diante dos problemas para se obter crédito na hora da preparação da safra, e a área plantada "deve crescer muito pouco (em relação ao ano passado), se é que cresce".

Por isso, ressaltou ele, a priorização das ACCs (Adiantamento sobre Contrato de Crédito), que financiam metade das exportações totais do país, seria uma forma de compensar um problema que já afetou aqueles que estão no campo.

Nesta segunda-feira, o Banco Central realizou uma nova rodada de ajustes nas regras dos compulsórios, elevando os recursos que podem ser injetados na economia a 160 bilhões de reais.

Representantes do setor exportador e do segmento de insumos também avaliam que as medidas do BC podem surtir algum efeito.

"Tudo o que turbinar o crédito agora, temos que ser a favor, sobretudo com enfoque da safra de verão. Tudo o que der confiança... pois estávamos já vivendo um primeiro momento de crise de crédito", destacou Eduardo Daher, diretor-executivo da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda).

Já Sérgio Mendes, diretor-geral da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), espera que pelo menos uma parte do crédito gerado pelas medidas do BC possa atender à "agricultura de exportação", num momento em que as tradings multinacionais, que financiam especialmente a agricultura de larga escala, restringiram os financiamentos.

"Tudo o que puder fazer para minimizar o risco de produtividade, a gente vai fazer, mas vai fazer com atraso, vai fazer correndo, principalmente em Mato Grosso, onde as propriedades são extensas", comentou Mendes.

O Mato Grosso, o maior produtor brasileiro de soja, responde por 40 por cento das exportações do produto do país. A oleaginosa, incluindo o farelo e o óleo, lidera a pauta de exportação do agronegócio.

Apesar de admitir que uma parcela dos recursos liberados poderá ficar com os próprios bancos, o economista-chefe da Austin Ratings, Alex Agostini, salientou que ao menos parte do compulsório deverá chegar aos tomadores de financiamentos.

"A expectativa é de que (o crédito) seja repassado", disse ele, observando que os financiamentos respondem por parte importante dos "grandes lucros" do sistema financeiro.

PREOCUPAÇÃO COM 2009/10

Se a safra 2008/09 já está encaminhada, apesar das dificuldades, a atual turbulência financeira poderia colocar em risco a temporada seguinte (2009/10), caso os preços entrem em uma tendência descendente no embalo da crise e o governo não tome algumas precauções, disse Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura.

"Não vejo redução significativa (na safra) para 2009", disse ele, lembrando que boa parte das compras de insumos foi feita antecipadamente, a melhores preços.

"(Mas) em 2010 pode haver problema em caso de descasamento entre custo do plantio e preços internacionais de commodities", ponderou Rodrigues a jornalistas, durante seminário no Rio de Janeiro.

Para assegurar a oferta num cenário mais pessimista, acrescentou, seria importante o cumprimento da "lei do preço mínimo", que garante remuneração aos agricultores por meio dos mecanismos de política agrícola do Ministério da Agricultura.

"No passado, bastava o governo dar o sinal que ia garantir a renda que o mercado se ajustava", argumentou ele, que acredita que a garantia de renda seja mais importante que a concessão de novas linhas de crédito. "Você só paga os empréstimos se tiver lucratividade. Se as commodities caírem tanto, não adianta ter crédito."

(Com reportagem adicional de Rodrigo Viga Gaier, no Rio de Janeiro)

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