Por Natuza Nery BRASÍLIA (Reuters) - Um limbo de três meses. Esse deve ser o destino de um partido à espera de um candidato à Presidência da República.

No governo de Minas Gerais há sete anos, Aécio Neves anunciou nesta quinta-feira que desistiu de se lançar à sucessão e acabou antecipando o que o governador e pré-candidato José Serra (SP) queria adiar: a corrida eleitoral.

Único nome do jogo oposicionista, Serra agora é alvo fixo da disputa e dos ataques governistas.

Aécio sai de cena jogando no colo do correligionário uma forte dose de pressão, mas não ficará ele próprio imune à crescente cobrança de assumir a vaga de vice.

"Vai haver pressão do PSDB e dos partidos da oposição --DEM e PPS-- tanto de um lado como do outro", disse à Reuters o deputado Bruno Araújo (PSDB-PE).

Em minoria, Aécio não queria ser o plano B dos tucanos. Na noite de quarta-feira, maturou sua decisão e telefonou ao adversário interno convidando-o a dar um pulo em Minas o quanto antes: tinha um comunicado a fazer.

Serra não compareceu. Temeu a foto que o lançaria automaticamente à condição de candidato.

Foi o presidente do partido, senador Sérgio Guerra (PE), quem ficou com a incumbência de receber a missiva mineira.

"Não podia sustentar esse segredo por mais 15 dias", disse Aécio a Serra, Guerra e ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, segundo relatos de um interlocutor próximo ao governador mineiro.

PRESIDÊNCIA, VICE OU SENADO?

No bastidor, José Serra é candidatíssimo. Em público, é menos superlativo. Há incertezas ainda alimentadas pelo imprevisível placar das pesquisas de opinião daqui a três meses, com poder eventual de minguar sua ambição nacional.

Ele administra o maior colégio eleitoral do país, tem uma reeleição praticamente garantida no Estado e não negocia anunciar seu nome antes de 31 de março. Resiste apesar da cobrança de aliados e partidários, e mesmo sob apelos de Aécio para acertar um prazo mais flexível que lhe desse chance de continuar no páreo.

"Agora, haverá mais tempo para o limbo e mais tempo para Serra ficar no ringue com Lula, do alto de seus 80 por cento de popularidade", disse uma fonte do partido sob condição do anonimato.

Assim como incertezas, há também vantagens, sustentaram observadores políticos ao longo do dia. Com apenas um candidato, perde-se os constrangimentos e as alianças nos Estados podem entrar em ritmo de cruzeiro.

"Ele saiu sem dissidência, na possibilidade de ser chamado para qualquer coisa: candidato a presidente, senador e com o risco de ser candidato vice", comentou, sorrindo, um tucano serrista.

E é justamente essa imprevisibilidade que dá corda às confubalações. Minutos após o anúncio, um político de seu entorno já confidenciava que Aécio Neves ainda pode recuperar o status de presidenciável. O faria por aclamação, no entanto, não por dissidência. "Se o destino o chamar, ele vai."

"Muita coisa ainda vai rolar debaixo da ponte da sucessão. Pode ter ainda muita mudança nos próximos meses", ponderou o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília.

Coincidência ou não, os últimos parágrafos do documento assinado nesta manhã trazem um curioso adeus: "Nos encontraremos no futuro."

Sabe-se lá quão distante ele está.

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