Análise do prêmio: após anos de glória, Oscar quer apenas ser visto

Uma das mais persistentes tradições das premiações da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas é que o Oscar de melhor filme quase que invariavelmente vai para um filme que não é o melhor. Isso não é novidade para qualquer pessoa que já tenha visto alguns genuínos ganhadores do Oscar do passado: filmes como ¿Cavalgada¿ (1933), de Frank Lloyd, ¿O Criador de Estrelas¿ (1936), de Robert Z. Leonard e ¿O Maior Espetáculo da Terra¿ (1952), de Cecil B. DeMille.

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Porém, mesmo quando os ganhadores são filmes bons, os outros indicados geralmente são tão ou mesmo até mais interessantes que os vitoriosos. Um episódio famoso ocorreu no emblemático ano de 1941, quando o magnífico filme de John Ford, Como Era Verde Meu Vale, foi intitulado o que a Academia chamou na época de filme destaque (uma reivindicação mais modesta e defensiva, talvez algo que a Academia deveria reinstituir), enquanto Cidadão Kane, de Orson Welles, foi para casa apenas com o Oscar de melhor roteiro original.

Se os Oscar não são um guia confiável de realizações artísticas, eles oferecem um índice infalível de como os líderes da indústria cinematográfica querem que seus negócios sejam vistos em um ano qualquer. Em 1933, por exemplo, havia uma pressão crescente de grupos civis e religiosos para que Hollywood mudasse os maus hábitos ¿ pressão que acabou resultando na instituição do Código de Produção de 1934.

Ao selecionar Cavalgada ¿ uma pomposa e entorpecida representação histórica baseada em uma peça de Noel Coward sobre um casal abastado (Diana Wynyard e Clive Brook), que mantém uma atitude comedida e moderada ao longo de 40 anos da história inglesa ¿ os membros da Academia se distanciaram dos temas picantes que dominavam as bilheterias na época.

Outros indicados na temporada de 1932-33 foram o musical Rua 42, o filme Uma Loira Para Três ¿ no qual Mae West canta a balada Where My Easy Rider Has Gone? ¿ e a adaptação de Frank Borzage a Adeus às Armas, de Ernest Hemingway, um filme tão direto ao retratar o sexo pré-marital que 12 minutos foram cortados quando o filme foi reeditado em 1938, no mundo mais pudico após a instauração do Código de Produção (prestem atenção à censura: a versão geralmente encontrada em DVDs tem 78 minutos).

Mistura de espetáculo e popularidade

Durante quase toda a década de 30, a Academia se alternou entre entretenimento popular (Aconteceu Naquela Noite, de 1934) e adaptações literárias de prestígio (O Grande Motim, de 1935), visando assegurar a possíveis sensores que Hollywood era um lugar digno, onde senhores fumando charuto trabalhavam arduamente para o aprimoramento moral do público americano.

A vitória do filme líder em popularidade E O Vento Levou (1939) pode ter sido historicamente inevitável, mas ela veio às custas de diversos filmes melhor finalizados, apesar de menos explicitamente edificantes. Os indicados daquele ano incluíram filmes de gênero superior como o melodrama Segredos do Coração, de Leo McCarey, a comédia romântica Ninotchka, de Ernst Lubitisch, e o faroeste No Tempo das Diligências, de Ford; assim como uma dupla de dramas abertamente políticos ¿ A Mulher Faz o Homem, de Frank Capra, e a controversa adaptação do livro de John Steinbeck O Elo Perdido. A lista dos indicados de 1939 (naquela época a Academia permitia mais de cinco) foi formada por adaptações literárias seguras: Vitória Amarga, Adeus  Mr. Chips, O Mágico de Oz e O Morro dos Ventos Uivantes.

Não havia nada melhor para cobrir com um manto a respeitabilidade de Hollywood do que um livro ou uma peça da Broadway. Durante a Segunda Guerra Mundial, as prioridades mudaram de desenvolvimento moral para fervor patriótico. O prêmio de "filme destaque" de 1942 foi determinado para ser a retratação de William Wyler de um casal inglês de classe média na época do Blitz na Grã-Bretanha ¿ Rosa de Esperança ¿ enquanto os outros indicados incluíam três filmes incitando, abertamente ou por sugestão, a intervenção norte-americana na Guerra européia: Paralelo 49, de Michael Powell e Emeric Pressburger, Abandonados, de Irving Pichel, e A Canção da Vitória, de Michael Curtiz. Não causa muita surpresa o fato de que o pungentemente nostálgico A Queda do Poder, a continuação de Cidadão Kane de Welles, tenha ido pra casa de mãos abanando: aquele não era o momento para uma auto-reflexão amarga.

Depois da guerra, uma segunda geração passou a dirigir os estúdios de Hollywood, membros de uma elite mimada de nível universitário que havia vivenciado muito pouco das ansiedades sociais de seus pais. Eles achavam menos importante ostentar suas credenciais culturais do que reformar o mundo que haviam herdado. Por esta razão a ascensão de filmes retratando problemas sociais, liderada pelos ganhadores do Oscar de melhor filme como Farrapo Humano, de Wilder (alcoolismo, 1945), Os Melhores Anos de Nossas Vidas, de Wyler (veteranos de guerra, 1946) e A Luz É Para Todos, de Elia Kazan, aumentada pela indicação de Assassino de Aluguel, de Edward Dmytryk (anti-semitismo entre veteranos de guerra, 1947) e A Cova da Serpente, de Anatole Litvak. Ao longo de alguns anos, diversos roteiristas e diretores desses filmes se viram não recebendo indicações ao Oscar, mas intimações para comparecer diante do The House Un-American Activities Committee - HUAC, o Comitê de Atividades Anti-Americanas.

Televisão muda a cena

Na década de 50, Hollywood se viu novamente sob ataque ¿ não de censores, mas da televisão, aquela estranha força que estava seduzindo números substanciais de espectadores fora das salas de cinema. A mensagem enviada pelas indicações ao Oscar se tornou simples: Não somos TV. Por algum tempo os filmes abordando problemas sociais, filmados em um sombrio preto e branco, continuaram a dominar os ganhadores do Oscar de melhor filme (A Um Passo da Eternidade, 1953; Sindicato de Ladrões, 1954; Marty, 1955), mas de maneira crescente os outros indicados foram dedicados a espetáculos históricos ou turísticos, filmados em cores, widescreen e som estereofônico ¿ filmes como O Manto Sagrado (1953), A Fonte dos Desejos (1954) e Suplício de Uma Saudade (1955), que prometiam movimentos impetuosos e extensões que a TV em casa não poderiam oferecer.

Somente no final da década de 60 Hollywood se desvencilhou daquele círculo, e muito disso se deu graças ao colapso do Código de Produção, aquele os manda-chuvas tinham estado tão ávidos para impor. Palavrões foram ouvidos, ações sujas foram conduzidas em indicados como Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? (1966), Uma Rajada de Balas (1967), A Primeira Noite de um Homem (1967), O Homem Que Não Vendeu Sua Alma (1966) e Oliver! (1968) acabaram levando a estatueta para casa. Ali estava algo que a televisão realmente não podia oferecer, resumido pelo ganhador do Oscar de melhor filme de 1969, o sentimentalmente obsceno Perdidos na Noite, o primeiro e único filme considerado pornográfico a ganhar a grande premiação (embora logo depois o filme tenha sido reclassificado como indicado para maiores de 17 anos).

Em meados dos anos 70, os elementos básicos de um filme apto ao Oscar foram fixados: valor literário, crítica social, grande espetáculo e conteúdo adulto ¿ critérios que poderiam ser misturados e combinados à vontade. O problema com esta formulação é que, como os filmes americanos se desenvolveram para produções de massa destinadas ao público adolescente, apenas o critério espetáculo permaneceu como um elemento no qual os estúdios poderiam confortavelmente investir. Desde os anos 80, os estúdios vêm preferindo terceirizar a produção de filmes para o Oscar através de produtoras independentes ou de suas próprias divisões especializadas.

Os prováveis indicados de 2008 incluem dois filmes abordando problemas sociais, Slumdog Millionaire, de Danny Boyle, e Milk, de Gus Van Sant, dois filmes baseados em peças (Frost/Nixon e Doubt); além de dois tirados de romances célebres de tema agressivamente adulto (The Reader e Apenas um Sonho). Os únicos dois filmes espetaculares, Batman ¿ Cavaleiro das Trevas e O Curioso Caso de Benjamin Button, também são, não por coincidência, as duas únicas produções da casa de grandes estúdios nesta curta lista de possibilidades.

Os próximos Oscars são, potencialmente, um momento decisivo. Depois de anos de vencedores independentes na categoria fr melhor filme ¿ e quedas contínuas da transmissão da cerimônia de entrega das premiações ¿, há uma noção crescente de que Hollywood quer e precisa conseguir se restabelecer. Se as premiações da Academia estão aí para responder a pergunta Como é que Hollywood quer ser vista neste ano?, a resposta para 2009 poderia ser: Hollywood ficaria contente de simplesmente ser vista.

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