Ana Maria Pacheco expõe mitos através de esculturas em Londres

LONDRES ¿ Três tradições culturais ¿ a ameríndia, a europeia e a africana ¿ confluem com seus mitos, fábulas e superstições na pintora e escultora brasileira Ana Maria Pacheco e formam o rico húmus de uma obra muito pessoal, rica em ressonâncias e ambigüidades desta artista que expõe na galeria Osborne Samuel, em Londres.

EFE |

"Venho de um país colonial com mistura de culturas formando uma sopa espessa", diz à Agência Efe ela, que chegou à Inglaterra em 1973, via British Council, para estudar na Slade School of Fine Art, de Londres, e fez carreira artística e acadêmica, sendo artista associada da National Gallery e doutora honoris causa de duas universidades.

"A escultura é o meu", afirma Ana Maria, que diz se sentir mais escultora do que pintora, mesmo porque chegou à cor através de suas esculturas policromadas, como as dos imaginários do barroco português, importado ao Brasil pela Igreja.

"Quis saber mais da cor, e assim comecei a pintar. A pintura permitiu-me, ao mesmo tempo, me aprofundar na prospecção das imagens", ressalta ela, cuja obra tem forte elemento narrativo e até teatral.

Apesar de estar há 36 anos na Inglaterra, Ana Maria Pacheco afirma se sentir "profundamente brasileira" e lembra seu nascimento em Goiânia, em 1943, e em como o interior conservara muito do século XVIII.

"Desde menina, estive continuamente exposta às imagens das igrejas, mas ao mesmo tempo também à influência das tribos indígenas, que ainda existiam ali, ao contrário de no litoral", explica.

"Os índios têm uma relação mítica com o mundo e algo parecido ocorre com os africanos descendentes de escravos trazidos ao Brasil pelos colonizadores", acrescenta Pacheco, que se diz fascinada pelo caráter "circular" de muitos mitos.

"No meio desse mundo nasci eu", lembra, acrescentando que ela mesma recebeu, graças a seus pais, "uma educação maravilhosa": "Todos estudávamos música em casa e líamos muito".

As esculturas e pinturas que apresenta em Londres e outras que exibiu em cidades como Oxford, Oslo, Rio de Janeiro e Nova York, refletem múltiplas influências que vão desde Aleijadinho à fotografia de Robert Mapplethorpe, passando por pintores como o espanhol Francisco Goya e o inglês William Blake.

Seu olhar sobre a colonização europeia é ambivalente: por um lado fala de "memória roubada", título de uma de suas esculturas mais impactantes, em uma espécie de altar com prateleiras nas quais se mostram cabeças com gestos de grande sofrimento, em frente às quais a artista colocou um coração atravessado por várias adagas.

Mas também, segundo reconhece, graças a essa mesma colonização, ela pôde ler Homero, Dante e Cervantes, e se inspirar para muitas de suas obras em outras mitologias como a grega que a fascinam e a alimentam sua obra com seus particulares visões do mundo.

Na segunda versão de "Memória Roubada", mais tranquila, que expõe na galeria londrina, as cabeças dão uma impressão de maior serenidade e o coração foi substituído por uma grande concha, símbolo da fertilidade.

Enquanto isso, ela já prepara sua próxima obra, que exporá na mesma galeria no ano que vem: relevos policromados em bronze, alabastro e madeira, ilustrando a Odisseia e a Eneida-, os jardins encantados e a compaixão, sem a qual ressalta que "não poderemos sobreviver".

(Reportagem de Joaquín Rábago)

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