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Amor utópico de Insolação fecha passagem do Brasil por Veneza

Miguel Cabanillas. Veneza (Itália), 6 set (EFE).- O amor utópico e quase febril que os cineastas brasileiros Daniela Thomas e Felipe Hirsch retratam no filme Insolação colocou fim hoje à participação cinematográfica do Brasil na 66ª edição do Festival de Cinema de Veneza.

EFE |

Os diretores apresentaram oficialmente hoje o filme dentro da seção Orizzonti, a mesma destinada às novas tendências na qual na sexta-feira passada foi exibida a outra obra brasileira no festival: "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo", de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz.

Em "Insolação", Thomas e Hirsch oferecem um angustiante percurso de 98 minutos pelas tentativas fracassadas de vários habitantes de Brasília para encontrar o amor, tentativas que os cineastas colocaram como um paralelismo com a capital, construída do nada, segundo eles, com base na utopia de uma nova sociedade.

"Por um lado, escolhemos Brasília pelo que significa social e politicamente, e, por outro lado, pelas fotografias que vimos. Vimos construções racionais como uma utopia na qual se imaginava um homem novo. E este projeto fracassou", disse Thomas hoje, durante a entrevista coletiva de apresentação do filme.

"No filme, a única coisa que se movimenta são os personagens.

Mas, em Brasília, a coisa não é tanto assim. O mérito esteve mais na capacidade da equipe de fazer desaparecer a população de cada fotograma. Em qualquer caso, a cidade é uma prova viva de uma utopia morta", acrescentou.

O filme mostra uma solitária e inóspita Brasília que, na ausência de qualquer vida humana alheia aos personagens protagonistas, se transforma ela mesma em mais uma utopia à qual os diretores querem evidenciar em "Insolação": a do amor.

A capital brasileira em si é para eles uma tentativa fracassada de construir uma cidade do nada e conferir um novo tipo de ordem social, algo parecido com a busca infrutífera do amor pelo ser humano, desde suas primeiras experiências de adolescência, até as últimas, à beira da morte.

"Brasília cresceu como qualquer outra cidade do mundo. Inflou, mas há um lugar, entre o centro e a periferia, que foi esquecido. É isso que buscávamos. Aí é onde se vê que a utopia fracassou", disse Hirsch.

"E queríamos comparar isso com um amor inalcançável. Tem algo a ver com esses amores inalcançáveis, com essas paixões que não podem se realizar. A questão era como traduzir esta ideia tecnicamente.

Era muito complicado, mas acho que, pelo menos, conseguimos", afirmou.

A paisagem desoladora e quase desértica de uma Brasília decadente e sem vida nas ruas, castigada por um sol de justiça que provoca essa insolação da qual fala o título, contribui para criar uma sensação de solidão na busca do amor que torna os personagens mais angustiados.

Neste sentido, Hirsch disse que "Insolação" é a palavra que reúne de um modo mais preciso o que queriam expressar, já que, inclusive eles, durante as filmagens, estiveram em "risco de sofrer uma insolação", devido às altas temperaturas em Brasília.

O filme, com a participação do ator Paulo José como o fio condutor das histórias dos outros personagens, é a primeira experiência cinematográfica de Hirsch, que chegava a este projeto com uma grande bagagem teatral.

"Sabia que podia aproveitar este primeiro trabalho me apoiando em uma certa irresponsabilidade diante de minha falta de experiência, e isso podia me dar certa liberdade. Mas, ao mesmo tempo, sabia que tinha que colocar na mesa também responsabilidade", confessou o diretor.

"Tinha a meu lado Daniela Thomas e tudo isso me deu o apoio técnico de que precisava. Tive que fazer um esforço para encontrar minha personalidade no âmbito do cinema", acrescentou.

Diante da boa experiência em "Insolação", Hirsch pretende repetir em breve a experiência de abordar um projeto cinematográfico em comum com Thomas, cujo filme "Linha de Passe" recebeu a Palma de Ouro de Melhor Atriz do Festival de Cannes de 2008 pela interpretação de Sandra Corveloni. EFE mcs/an

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