Amigo de delegado morto na BA crê em fatalidade

Para vice-presidente da associação de delegados da BA, vítima não tinha inimigos. "Perdemos uma batalha para a criminalidade", diz

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

No mesmo dia em que foi assassinado o delegado Clayton Leão Chaves, enquanto dava entrevista ao vivo para um programa de rádio, em Camaçari (BA), a Associação dos Delegados de Polícia do Estado da Bahia (Adpeb) publicou uma nota em seu site afirmando que a população está "refém" do crime organizado, da “desídia governamental” e da “incompetência generalizada que norteia a área de segurança pública”. Na nota, os delegados dizem fazer parte de um sistema que não se sustenta e que transforma em “vitimas” as suas próprias instituições.

Um dos signatários da nota, o vice-presidente da Adpeb, João Ricardo Gomes Barbosa, de 37 anos, foi amigo pessoal do delegado assassinado. Eles atuaram juntos Academia de Polícia, após estudarem direito na Universidade Católica de Salvador. Segundo Barbosa, Leão Chaves não tinha “inimigos pontuais”, a não ser a criminalidade. “Ele sempre foi considerado um delegado de excelência tanto pelos colegas de classe como pelos investigadores”. O dirigente diz desconhecer se a vítima estava sob ameaça.

Ele conta que o delegado, além da mulher, a dentista Simone de Oliveira, deixou dois filhos – um menino de três anos e uma criança de quase um ano. Segundo o também delegado, embora o inquérito sobre o crime não esteja concluído, é possível apontar que a morte do amigo foi causada por latrocínio (assalto seguido de morte).

Para o dirigente, porém, a morte de Leão Chaves é “simbólica”. “Perdemos uma batalha para o crime”. Na entrevista abaixo, ele cita a greve dos policiais baianos, demonstra preocupação com a estrutura do tráfico na região e afirma que mudanças imediatas no enfrentamento da criminalidade só terão efeito a longo prazo. Diz, porém, que “a situação já foi muito pior”.

AE
Carro do delegado é vistoriado pela perícia da policia baiana


iG – A polícia prendeu três suspeitos de participação na morte do delegado Leão Chaves e já diz ter elucidado o crime. É possível dizer que a versão de que houve latrocínio é definitiva?
João Ricardo Gomes Barbosa –
O diretor do Denarc [Departamento de Narcóticos, responsável pelas investigações], Cleandro Pimenta, vai concluir o inquérito no prazo de lei, mas os presos já foram apresentados. A polícia trabalhou com uma dedicação admirável. Passaram dia e noite em diligências, colhendo as informações, que nessas horas são de tudo quanto é tipo. Conseguiram elucidar o crime e isso já foi apresentado. O crime não foi contra um policial, foi contra uma instituição. Perdemos uma batalha para o crime.

iG – O sr. acredita que tenha sido crime comum?
Barbosa –
Tudo aconteceu no instante em que ele tinha estacionado o carro para atender um colega seu da imprensa. Tudo leva a crer que foi uma fatalidade, um latrocínio.

iG – Mesmo que não tenham levado objeto algum?
Barbosa –
O latrocínio é um delito que agride dois bens: o patrimônio e a vida. Quando há dolo, tanto no ataque ao patrimônio quanto no ataque à vida, independentemente de ocorrer a subtração ou não do bem visado, se terá crime de latrocínio, consumado. Não estou à frente da investigação, não posso confirmar. Há um depoimento informando o porquê dos disparos.

iG – Em algum momento o delegado relatou que sofria algum tipo de ameaça?
Barbosa –
Não temos notícias disso.

iG – O que a mulher dele, que estava no carro, disse sobre o que aconteceu?
Barbosa –
A doutora Simone ainda está em estado de choque. Prestou algumas informações, mas não sei se já houve depoimento formal. Agora vai fazer o reconhecimento dos suspeitos.

iG – O delegado tinha inimigos?
Barbosa –
Ele era um grande delegado. Tinha apenas seis anos de Polícia Civil e nesse período sempre foi considerado um delegado de excelência tanto pelos colegas de classe como pelos investigadores. Era atuante, responsável, cumpridor de deveres e disciplinado. Tanto que, tanto no sepultamento como na operação [de busca aos assassinos], houve ajuda dos policiais que estão em greve. A área [no velório] ficou lotada em homenagem a ele. Quem perdeu foi a luta contra a criminalidade. Ele não era mais um. Se tinha inimigos, era a marginalidade toda. Porque ele não tinha medo de lutar. Só quem não gosta de polícia é bandido. Não há que se falar em inimigos pontuais. Não foi o crime contra uma pessoa. Mas há uma simbologia nesse crime que deve ser considerada.

iG – Nesse tempo em que ele esteve à frente da delegacia em Camaçari, teve algum grupo específico com quem tenha se indisposto?
Barbosa –
Digo a você que o tráfico sofreu muito com ele. Camaçari é um ponto delicado, uma cidade onde há trânsito muito grande, um litoral grande. Se tem venda de droga é porque tem demanda. A procura é muito grande. Depois da lei 11.343, que despenalizou o uso da droga, o tipo de crime foi diluído. Isso ajudou no boom do crack. A gente ouve manifestações referentes também à defesa da maconha, dessas marchas, mas é preciso lembrar que não temos políticas informando o que é aquela droga. Estudos feitos na Nova Zelândia há uns dois anos dizem que um cigarro de maconha é 20 vezes mais cancerígeno do que um cigarro comum. Porque não tem filtro, é muitas vezes misturado com esterco...

iG – Ele investigou também crimes relacionados a roubo de bancos e venda ilegal de combustível. E Camaçari é o 9º município mais violento do Estado.
Barbosa –
Roubo a banco, veículos, estupro...tem uma série de crimes relacionada ao tráfico. Camaçari é uma cidade rica, um dos PIBs mais altos da Bahia. A criminalidade envolve também morte de bandidos, do usuário, de quem não paga. Estouramos uma boca de fumo e no outro final de semana aparece outra que segue de vento em popa. E a polícia sozinha não vai resolver. Quem vai resolver é um novo sistema de saúde, de educação.

iG São Paulo
Enterro do delegado Clayton Leão Chaves nesta quinta-feira
iG – A associação, da qual o sr. é vice-presidente, fez uma nota dura em relação a um suposta “desídia” e “incompetência” governamental.
Barbosa –
Não tenho nada a acrescentar em relação a essa nota. É assinada pela nossa diretoria. É fato que precisamos de diretrizes. Policial é a segunda profissão mais estressante do mundo, só perde para a de minerador. Nossa expectativa de vida é menor que a média.

iG – Na nota vocês dizem Leão Chaves foi a segunda vítima da criminalidade do Estado neste ano.
Barbosa –
Citamos o caso de uma delegada que viu um assalto contra outra senhora, com vários homens e, no instinto de tentar socorrer, um dos bandidos acertou nela uma coronhada na cabeça. Houve um corte, mas ela está fora de perigo.

iG – Essa suposta incompetência é um problema de Estado ou de governo? Hoje mesmo o senador Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM) criticou o fato de o governo gastar mais com publicidade do que com segurança.
Barbosa –
É interessante falar nisso. A situação está ruim. Mas a impressão é que já esteve pior. Hoje, embora ainda estejamos precisando de tudo, temos democracia. Temos como fazer justiça. Mas na Bahia tinha que se ter cuidado com o que se falava. Só digo que antes também não tínhamos muita coisa, não. O problema é mais complexo. Como disse, não é só a polícia. É o enfrentamento do tráfico, é o Judiciário, que na Bahia ainda é muito lento, é a questão dos presídios. O governo precisa atentar pra tirar presos das delegacias, pra colocar efetivo na rua para investigar. Mas quando mudar os resultados não virão em menos de cinco ou dez anos. Não queremos discursos inflamados e sim que nossos parlamentares votem as PECs (Propostas de Emenda à Constituição) necessárias à reestruturação das polícias. Precisamos de uma polícia Civil e Militar preparada, bem paga, bem treinada. E a educação está num primeiro plano. Se não for assim não teremos como combater o tráfico de drogas. E o menino pobre não vai pensar duas vezes entre ganhar R$ 100 por dia para levar droga pra playboy ou ficar em escola ruim comendo merenda estragada.

iG – Programas federais como o Pronasci, que buscam redução de violência por meio de convênios com os municípios, não amenizam o problema? Porque em Camaçari havia convênio e nem o delegado se salvou.
Barbosa –
As soluções vêm de forma gradual, mas é precisa acelerar isso. Precisa implementar com mais competência. Resolver o imediato não vai resolver. O Pronasci é uma ideia que todos aplaudimos, possui cursos interessantes para reciclagem de policiais, mas a carência é tão grande que você não vai ter um efeito tão rápido. O programa tem que ser feito de forma mais contundente. Como em qualquer área, na polícia temos muito incompetentes.

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