MONTEVIDÉU, 23 ABR (ANSA) - O poeta espanhol Marcos Ana, um dos maiores expoentes da luta contra o franquismo ¿ regime do qual foi prisioneiro durante quase 23 anos ¿, apresentou no Uruguai seu livro de memórias Decidme cómo es un árbol [Diga-me como é uma árvore, tradução livre], que Pedro Almodóvar planeja levar às telas.

Fernando Macarro Castillo (Marcos Ana) retornou a Montevidéu, após uma primeira visita em 1963, para apresentar na noite desta terça-feira a mais de 200 pessoas, que lotaram o auditório do Centro Cultural Espanhol, o livro em que evoca sua infância, seus anos de cativeiro devido à militância comunista e sua libertação em 1961, graças a um indulto.

"O mais difícil para mim foi a liberdade porque, eu era mais um ladrilho da prisão, mais uma pedra do cárcere, mas não estava preparado para viver, porque nascer aos 42 anos é uma coisa bastante séria", disse Macarro, de 87 anos, que se converteu em símbolo da luta anti-fascista.

Na prisão, quando tinha 33 anos de idade, Ana começou a escrever seus primeiros poemas "focados na liberdade, na solidariedade, fraternidade e no amor" -- que transcenderam os muros e o tornaram conhecido.

Após uma intensa campanha por sua libertação, que incluiu as vozes de poetas como o chileno Pablo Neruda e o espanhol Rafael Alberti, Macarro (cujo pseudônimo, Marcos Ana, reúne os nomes de seus pais) foi libertado e viajou imediatamente à França, onde recebeu múltiplas homenagens.

"Tive que descobrir as coisas quase às cegas" porque "o cárcere já era meu hábitat natural, minha incorporação à vida foi muito difícil, a adaptação, um dos problemas maiores", disse o poeta, que ficou preso entre 1939 e 1961, onde foi submetido a torturas, isolamento e condenado duas vezes a morte.

A vida de Macarro, nascido em 1921 em Salamanca, e condecorado hoje como Visitante Ilustre de Montevidéu, será levada ao cinema pelo espanhol Pedro Almodóvar, que se sensibilizou especialmente com a comovente passagem do livro em que Ana evoca seu primeiro encontro sexual com uma prostituta após recuperar a liberdade.

Com prólogo do Nobel de Literatura português José Saramago, "Decidme cómo es un árbol" já vendeu mais de 30 mil exemplares, em quatro edições. (ANSA)

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