Água, sementes e afeto

Água, sementes e afeto Por Naiana Oscar São Paulo, 23 (AE) - Escritos a mão, no bloquinho de anotações de dona Amélia estão os registros do que ela já fez, anonimamente e sem pretensões, pela cidade. Em seis anos, gastou R$ 100 mil para deixar o clube Pelezão, na Lapa, na zona oeste de São Paulo, mais bonito e mais verde.

Agência Estado |

Num trabalho voluntário, contratou do próprio bolso um jardineiro e comprou mudas de roseiras, hortênsias, pingos d’ouro para plantar no clube municipal, que naquela época estava meio desprezado. A iniciativa da empresária de, 72 anos, além de ter gerado flores, motivou outro morador do bairro a contribuir sem esperar (eternamente) pelo poder público.

O compromisso de Amélia Haluko Iano com o clube começou depois que o marido dela morreu. Ele gostava de jardinagem. Ela nem tanto. Mas as flores acabaram servindo de conforto. Quando o jardim de casa e o que fica ao lado da igreja não tinham mais para onde crescer, Amélia lembrou do Pelezão.

Pediu autorização para a diretoria, que não iria recusar uma ajuda dessas, e iniciou seu voluntariado. As 60 caixas de pingo d’ouro que deram forma aos 60 anos do clube, na entrada principal, foi ela quem comprou e podou. "Senti que, com isso, eu beneficiaria várias pessoas e seria um relax para mim", diz, pausadamente, com um sorriso que não lhe sai do rosto.

Com essa mesma serenidade, ela caminha pelo clube mostrando as flores que já plantou. "Essas roseiras são o meu xodó. Não são lindas?" E dois passos adiante, suspira por uma outra paixão. "Ah, esses agapantos..." São cerca de 200 espécies diferentes. Uma parte foi adquirida nos viveiros da Prefeitura de São Paulo. Amélia se orgulha em contar que hoje, ali no clube, ela também fornece mudas para os criadouros municipais.

Antes dos trabalhos de jardinagem, quem caminhava no Pelezão tinha que andar em fila indiana para não esbarrar no matagal. Olhar o que se tornou o parque depois de suas intervenções é tão satisfatório para dona Amélia que ela nem se importa com o que deixou de fazer com o dinheiro investido ali em ferramentas, adubo, mudas e mão-de-obra. "Não deu para trocar o carro, fazia três anos que não pintava a casa, mas isso é o de menos", diz. "Até agora, só destruímos, é hora de agradar a natureza", afirma.

Todas as plantas são regadas com água de quatro nascentes que ficam dentro da área do clube. Nos últimos dois anos, dona Amélia ganhou um parceiro que se dispôs a recuperar a vegetação no entorno da mina d’água. O técnico automotivo Antônio Gaspar de Oliveira, de 50 anos, já plantou perto da nascente bananeiras, jenipapos, embaúvas, ingás, capixinguis - vegetação que, segundo ele, é capaz de reter a água e impedir que em períodos críticos de seca a nascente deixe de jorrar. Tudo devidamente pesquisado.

A primeira empreitada de Gaspar no clube foi a criação de uma trilha, onde ele pudesse correr e praticar exercícios com alguns obstáculos. Apresentou o projeto à diretoria e conseguiu autorização para fazer o serviço. Teve a ilusão de que, ao vê-lo ali com a enxada, um batalhão de pessoas se apresentaria para ajudar. Abriu a trilha praticamente sozinho. E ainda com calo nas mãos, começou a plantar as árvores. Já comprou cerca de 100 mudas de dez espécies diferentes. Ele encomenda em Sorocaba ou em São José dos Campos e vai buscar de carro. Não sabe dizer quanto já gastou.

Em casa, é claro, a despesa com as mudas gerou divergências no início, pelo menos até Gaspar aprender que precisava dividir a atenção. Quando vai comprar a muda, leva também um vaso de flores para a mulher. "Na verdade o presente não é só para ela ou para meus filhos, é para a cidade de São Paulo", diz. Ele vai ao clube todos os dias às 6h, corre, sente o cheiro da terra e rega o que ele chama de suas "crianças". "Sempre quis viver um milhão de anos. Um dia vou deixar as árvores como parte de mim."

Boxe:
SITES AJUDAM A DESVENDAR A ‘PEGADA ECOLÓGICA’
Uma árvore absorve, em média, 200 kg de carbono durante seu crescimento, tirando de circulação o principal gás do efeito estufa, o CO2. Sites na internet ajudam pessoas e empresas a calcular quanto geram de prejuízo para o planeta com seus hábitos diários e quantas árvores poderiam ser plantadas para ajudar a neutralizar essas emissões.

Um deles, o site www.carbononeutro.com.br disponibiliza uma ferramenta interativa que calcula a emissão de CO2 gerada com o consumo de energia, numa viagem de avião ou no transporte até o trabalho.

E ao fim do teste, indica quantas árvores teriam que ser plantadas para deixar a pessoa em dia com o meio ambiente. O site é mantido pela empresa MaxAmbiental que atua no mercado de finanças ambientais.

Já no site da WWF Brasil é possível descobrir a "pegada ecológica" - expressão criada para definir quantos planetas terras seriam necessários para suportar os hábitos de vida de cada um. O site www.pegadaecologica.org.br é possível fazer o teste.

De acordo com a ONG que divulga essa iniciativa no país, desde os anos 80 a demanda da população mundial por recursos naturais é maior do que a capacidade do planeta em renová-los. Os dados demonstram que estão sendo utilizados 25% a mais do que está disponível. "Ou seja, precisamos de um planeta e mais um quarto dele para sustentar nosso estilo de vida atual", diz o site.

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