Advogado diz que militares sabiam do destino de jovens

Os endereços dos militares envolvidos na entrega de jovens do Morro da Providência a traficantes do Morro da Mineira - todos moradores em áreas de risco -, no Rio, mostram que eles sabiam exatamente qual seria o destino dos rapazes nas mãos dos criminosos. A afirmação é do advogado das mães das vítimas, João Tancredo, presidente do Instituto dos Defensores dos Direitos Humanos.

Agência Estado |

"Tenho pena da tragédia que também se abateu sobre a vida deles, mas a origem de todos indicam que eles conheciam bem a vida nestas comunidades", disse, após ter acesso ao inquérito policial enviado à Justiça Federal.

O inquérito mostra o contraste entre o desespero das famílias e a alegada alienação dos militares que, em maioria, sustentam nos depoimentos que não imaginavam o que aconteceria com as vítimas. Alguns usaram a mesma expressão nos depoimentos para afirmar que, apenas após entregar os jovens, fizeram "uma leitura mental" de que se tratavam de traficantes.

A tropa de dez homens é unânime em atribuir ao tenente Vinícius Ghidetti de Moraes Andrade, de 25 anos, a ordem de levar as vítimas para a Mineira. No entanto, o soldado Rafael Cunha da Costa Sá contradisse os colegas de farda e admitiu que viu os jovens sendo espancados enquanto "o tenente Vinícius voltava para o caminhão, rindo".

Em depoimento à polícia, Ghidetti é o único a assumir a ação. Em recente diligência à casa dele, em Inhaúma (zona norte da capital fluminense), a Polícia Civil encontrou fotos dele sem farda fazendo sinais de referência a facções criminosas. Vizinhos afirmaram que, em duas quitinetes no mesmo terreno onde mora Ghidetti, estariam refugiados traficantes da Favela Águia de Ouro, que ali teriam se abrigado após terem sido expulsos pela milícia.

'Ordens'

Os demais militares alegaram nos depoimentos que "apenas cumpriam ordens". Morador da Favela Parque Beira-Mar, em Duque de Caxias (Baixada Fluminense), o sargento Leandro Maia Bueno, de 24 anos, confessou que negociou com traficantes a entrega dos jovens, mas alegou que apenas "depois soube que se tratava de comunidade dominada por traficantes e passou a imaginar o pior".

Morador de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, o outro sargento da tropa, Renato de Oliveira Alves, de 22 anos, afirmou em depoimento que interpelou o tenente e alegou ao superior que "aquilo daria uma m... danada". Morador da mesma cidade, o soldado Eduardo Pereira de Oliveira acusou Ghidetti de impedir a fuga de um dos jovens da favela com uma "gravata" (golpe sufocante aplicado com o braço no pescoço) e de colocar uma arma na cabeça da vítima. Oliveira disse que temeu "avisar a superiores e que aquele grupo acabasse fazendo com ele o que fez com as vítimas".

Hoje, as mães de duas das vítimas da Providência participaram da missa em memória de um ano das 19 mortes no Complexo do Alemão, na zona norte da capital, ocorridas durante uma operação policial em 2007. Uma carta aberta à população classificou como execuções os 1,33 mil "autos de resistência" registrados em 2007 e acusou o governo do Rio de genocídio, racismo, tortura e fascismo. "Para esta sociedade hipócrita, é um favor que esta polícia tire nossos filhos negros do mundo", declarou, após a missa, a educadora social Mônica Cunha, de 42 anos, cujo filho morreu num suposto auto de resistência, em 2006.

O deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) anunciou que, na quinta-feira, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, prestará esclarecimentos sobre a presença do Exército na Providência, numa audiência pública das Comissões de Segurança Pública, Direitos Humanos e Defesa Nacional do Congresso. "Queremos explicações sobre licitações, antecipações de recursos, contratação de firmas e saber qual era o papel do Exército no Cimento Social", disse Chico Alencar.

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