Após mais uma tentativa frustrada de conciliação ontem entre funcionários e diretoria, a greve dos Correios entra hoje no 16º dia com mais de 100 milhões de correspondências e encomendas atrasadas ou paradas. Empresas que dependem da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) para suas atividades já começam a contabilizar os prejuízos, enquanto os consumidores têm de procurar meios de pagar as contas vencidas (veja texto ao lado).

Segundo a assessoria da estatal, até ontem, 19% dos empregados e 28% dos carteiros estavam em greve.

"Estou com 70% dos meus pedidos parados", diz Ricardo Beraldo, proprietário da Talento Moda, fábrica de roupas femininas em São Paulo. O empresário conta que, nas últimas duas semanas, a maior parte de seus clientes, de todo o País, não recebeu os catálogos que divulgam a última coleção da fábrica.

"Normalmente, nessa época, meus compradores já teriam recebido a mala-direta e já estaríamos vendendo." Além disso, segundo Beraldo, contas que venceram na última quinzena não foram entregues no endereço comercial. "O jeito tem sido correr atrás dos fornecedores."

Outro empresário que tem sofrido com a paralisação é Fábio Seixas. Dono da loja virtual Camiseteria, que vende camisetas pela internet, ele afirma que os produtos estão demorando dois a três dias a mais para ser entregues. O prazo normal é de três dias úteis. "Para os casos mais urgentes, estamos usando os serviços de uma transportadora", diz Seixas. A empresa recebe uma média de 400 encomendas por semana - todas são enviadas por Sedex.

Já as grandes empresas de comércio eletrônico não estão sendo tão afetadas. Isso porque usam serviços de transportadoras privadas. É o caso da Submarino e das Lojas Americanas. Procuradas, elas informaram que não tiveram alteração nas entregas.

Lojistas e bancos de São Paulo também enfrentam dificuldade para receber pagamentos, segundo a Associação Comercial de São Paulo (ACSP). Marcel Domingos Solimeo, economista da entidade, diz que a demora na entrega das correspondências tem prejudicado a atualização do Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC), cadastro de consumidores em débito com instituições financeiras ou no crediário do varejo.

Isso acontece porque, para incluir os inadimplentes no cadastro, é preciso notificá-los por carta. A ACSP estima que sejam enviadas, em média, cerca de 6 milhões de correspondências por mês com esse objetivo. Segundo ele, lojas e bancos estão tendo prejuízo, já que, sem aviso, os consumidores demoram a pagar o débito.

Negociação

Após o fracasso nas negociações entre a diretoria dos Correios e a Federação Nacional dos Trabalhadores da ECT (Fentect), a greve começou a ser julgada ontem pelo ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST) Maurício Godinho Delgado. Ele foi escolhido para relatar o dissídio da categoria e apresentar voto sobre a legalidade ou não da paralisação.

O presidente do TST, ministro Rider Nogueira de Brito, fez ontem nova proposta de acordo e deu prazo até amanhã, ao meio-dia, para a resposta. Permanecendo o impasse, Brito marcará a data do julgamento, quando o relator submeterá seu voto aos demais ministros.

O secretário-geral da Fentect, Manoel Cantoara, disse que a estatal deveria ceder mais. "Acreditamos que a direção da empresa poderia discutir todos os pontos do plano de carreira." Já a ECT, por sua assessoria, disse que está analisando a proposta, mas como ela é bem semelhante à anterior, aceita pela estatal, tudo indica que isso se repetirá.

A nova proposta que tenta pôr fim à greve prevê o pagamento definitivo de uma gratificação de 30% aos carteiros, a ser calculada sobre o salário-base, e pagamento proporcional às horas trabalhadas em serviços externos de coleta e entrega. As informações são do O Estado de S. Paulo

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